De volta aos anos 70 – e rumo aos 80

maio 30, 2015

Em uma crise econômica – com as causas que tiver – todos vão à luta para garantir que o ajuste da economia não caia justamente sobre suas cabeças. Se o país tiver instituições fracas, o ajuste vai ser feito de forma caótica, condenando a economia a ter baixo crescimento por décadas. Se as instituições resistirem à pressão dos lobistas, o ajuste envolverá decisões pouco destrutivas – e o país voltará a crescer mais rapidamente.

A tese acima – ao lado de um monte de estatísticas e regressões que tentavam medir o quanto se ajusta aos fatos – foi proposta pelo economista Dani Rodrick em 1998 para explicar porque alguns países cresceram mito mais que outros nas décadas após os choques do petróleo, nos anos 70.

A tese parece se ajustar bem a vários países. No caso do Brasil, teria sido a reação de Geisel à crise que condenou o país à década perdida (quando o Brasil pagou a conta do aumento da inflação, do aumento da dívida e das péssimas decisões de investimento subsidiado dos anos Geisel).

A dúvida agora é: como está sendo feito o ajuste à crise Dilma?

Certamente empresários, políticos e sindicalistas estão indo à luta para não perder sua fatia no bolo. E o fato de que muitos estejam conseguindo o que querem é – no fim das contas – motivo de preocupação.

As novas barganhas por cargos e outras – como a barganha da terceirização – indicam que o ajuste será relativamente caótico, com as decisões/vantagens sendo conseguidas por quem tiver mais poder político.

Poderia ser pior. O governo poderia deixar a inflação solta – como fizeram Hugo Chaves e Cristina Kirchner, para não contrariar ninguém no curto prazo –  mas isso teria um custo político proibitivo. É melhor reduzir a renda da população com juros, câmbio e corte de gasto do que com inflação desenfreada.

O governo sabe que não há como evitar o ajuste. O ajuste virá, porque, como lembra sempre o ministro Levi, o dinheiro acabou.

Para nomeados do PMDB, empresários que contratam terceirizados e para quem tem um bom patrimônio, o ajuste não será tão doloroso.

Mas, para quem tem pouca capacidade de fazer pressão, ele será duro.

Não sei se haverá protestos nas ruas. Acho que não. Já houve e eles não fizeram muita diferença.

A população está cética até em relação a protestos.

E, sobre as decisões de longo prazo, bom, vamos ver: até agora, tivemos só ajustes do orçamento, flutuação do câmbio e alta de juros – políticas decentes, mas de curto prazo.

Na estruturação do governo, a presidente optou por abrigar indicados políticos que não têm perspectiva de fazer nada além do que sempre fazem. Uma escolha ruim.

O governo fala em concessões de estradas e aeroportos. É pouco. E não parece haver capacidade ou recursos para propor muito mais.

A sensação, pelo menos, é de que ficaremos à deriva em direção à mais uma década de crescimento baixo, poucos gastos com educação, pouca infraestrutura, poucas perspectivas, mas muitas nomeações políticas e acordos discutíveis.

Como antes, depois dos anos 70 virão os 80 – com sua crise lenta e aquela letargia de que já tinha me esquecido.

Tudo calmo, parado, abafado e sem ventos.

Tudo calmo, parado, abafado e sem ventos.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: