Repita de novo, até virar verdade

maio 19, 2015

Ouvi hoje, de um não-petista, versão da presidente Rousseff de que o governo fez o que pôde para evitar que a população sofresse mas agora não dava mais para segurar e, finalmente, sentiríamos os efeitos da crise internacional.

Tentei explicar que a crise internacional tinha sido em 2008 e 2009, que o Brasil – já em 2010 –  tinha crescido mais de 7%. Tentei explicar que o governo tinha baixado os juros quando a inflação estava subindo e aumentado o gasto público muito além do limite da receita tributária nos últimos anos, quer dizer: que a crise não era culpa dos estrangeiros.

A resposta foi alguma coisa como: “Dilma manteve o desemprego baixo”.

Sim, mas agora o desemprego vai ficar mais alto do que ficaria se não tivessem inflado a bolha de consumo até as eleições.

O problema – visto sem a perspectiva do calendário eleitoral – é que adiar um ajuste necessário para a economia torna o ajuste mais violento quando ele finalmente acontece. Feito dois anos atrás, o ajuste seria simples e pouco doloroso. Feito hoje, envolve aumentar juros e cortar gastos em uma economia que já está em recessão.

Mas não é só isso. O governo pode jurar que queria estimular os empresários a investir quando soprou a bolha de consumo. Mas ninguém leva bolhas a sério, ninguém corre atrás delas achando que são uma tendência de crescimento. Empresários e afins, no máximo, tentaram pegar carona aumentando seus preços. Ninguém investiu mais porque o governo estava aumentando seus gastos acima do sustentável ou baixando os juros “na marra”, apesar da expectativa de que a inflação iria subir.

Isso é muito claro para os economistas, mas não para a maioria dos eleitores. Para quem lê a propaganda oficial, a bolha pré-eleitoral foi uma tentativa do governo de “proteger os trabalhadores” e não uma decisão política que deixará a economia em crise por um prazo longo.

Estimular o consumo quando a inflação está em alta – baixar juros quando a inflação está em alta – não é proteger o trabalhador: é armar uma bomba relógio inflacionária para os assalariados.

Mais do que a estagflação em si, me assusta esse discurso de marqueteiro que tenta eximir o governo de qualquer responsabilidade por ela. Se não assume o erro, o governo está livre para repeti-lo daqui a um ano, está livre para “defender o trabalhador” do ajuste fiscal – se achar que isso é politicamente interessante.

Talvez ele até crie uma nova bolha pré-eleitoral daqui a três anos – e se reeleja novamente para cometer mais casuísmos destrutivos, sempre com a desculpa de que está “protegendo o trabalhador” no curtíssimo prazo.

Para os políticos, o longo prazo não existe. Mas um horizonte de mais de quatro anos – seja isso longo prazo ou não – faria bem ao planejamento da economia.

"Este é um governo popular. Longo prazo e análise macroeconômica são coisas burguesas. Não queremos isso aqui!"

“Este é um governo popular. Longo prazo e análise macroeconômica são coisas burguesas. Não queremos isso aqui!”

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