A ideologia do PMDB

maio 3, 2015

Empresários e políticos não costumam esfregar as mãos de manhã e produzir gargalhadas sonoras de vilão de filme. Mesmo grandes destruidores de patrimônio (como Eike Batista) e lobistas notórios (como o defensor de montadoras Guido Mantega) têm necessidade de se olhar no espelho e acreditar que fazem alguma coisa útil.

E, embora não publiquem manifestos com títulos como “o elogio da produção superfaturada” ou ” porque favorecer minha empresa salvará o Brasil”, eles têm claramente uma forma de pensar que – mais do que explicar – justifica o que fazem.

Não acho que seja a forma de pensar que melhor se ajuste aos fatos, ou que permita tomar as melhores decisões, mas certamente é a mais cômoda para grandes empresários e envolvidos na liberação (em condições confidenciais) de recursos do BNDES.

A ascensão do PMDB ao centro do poder político no país está ajudando a deixar mais clara essa ideologia.

Embora muitos o considerem uma colcha de retalhos de oligarquias locais, o PMDB tem uma ideologia bastante homogênea – e internamente coerente. Sua política lembra a do Big Business americano dos anos 20, de antes da Grande Depressão.

Aqui, como nos EUA daquela época, seus defensores dão uma ênfase grande à desregulamentação, ao liberou geral para empresas de grande porte.

No Rio de Janeiro – que tem o PMDB na prefeitura e no governo do estado – isso é bastante claro. Para a ideologia do partido, as empresas são importantes (até porque são elas que financiam as campanhas) então, devem ter liberdade para fazer o que acharem melhor.

O discurso ideológico é de combate à burocracia. A prática é liberar a construção de um complexo petroquímico em uma região que não tem nem água, muito menos condições básicas de meio ambiente para recebe-lo. Esse é o COMPERJ: liberado, carimbado e autorizado porque seria “bom para o Estado do Rio” e – como se sabe hoje – economicamente inviável.

As histórias são muitas: do Hotel Glória de Eike Batista (abandonado) ao hotel II de Eike Batista na Praia do Flamengo (invadido, depois de abandonado) não é difícil ver políticos e empresários se abraçando para “promover o progresso” atropelando leis, despejando pessoas e superfaturando obras.

Não acho que façam isso por puro maquiavelismo. Fazem porque “é assim que se faz”, “é como as coisas funcionam”, “foi como funcionaram nos anos 70 quando a economia cresceu tanto” .

Mas não foi por causa dos negócios protegidos pela ditadura que a economia cresceu nos anos 70: foi por causa deles que parou de crescer nos anos 80. Ela cresce nos anos 70 por causa da estabilização econômica de Roberto Campos e Otávio Bulhões, nos anos 60.

É curioso ver o PMDB herdar métodos dos anos 70 (quando era oposição) mas, se herdou os apoiadores do governo nos anos 70, porque não herdaria também alguns métodos?

A ideologia do governador Pezão (e também de alguns PSDBistas) para lidar com protestos de rua foi herdada daqueles tempos: o melhor é mandar a tropa de choque para mostrar quem manda e fazer esses baderneiros aprenderem que não valem muito. Ninguém vai dizer isso na TV mas, quando o governador do Paraná, Beto Richa, manda a tropa de choque espancar professores (como o do Rio já tinha feito) é isso que está implícito.

A solução para a insatisfação social é aumentar o efetivo da polícia (que tem crescido), reduzir a maioridade penal, construir mais presídios, em suma: enquadrar esse povo.

Se o hospital público não atende e a escola municipal tem uma qualidade deplorável, é porque o dinheiro também não dá pra tudo… Quem quiser que pague escola e hospital privados…

É claro que isso é ideológico. É uma ideologia de oligarca, mas é uma ideologia. De algum jeito, é bom vê-la ficar mais explicita, mas fácil de apontar.

Se Eduardo Cunha e seus seguidores estão se sentido mais à vontade para dizer que direito trabalhista é bobagem e passar por cima transformando todo mundo em pessoa jurídica (sem férias nem 13°) é porque o governo PT desmoralizou a esquerda – e abriu espaço para a ideologia conservadora do PMDB.

O mais curioso é ver o PT cooptando a maior parte da oposição de esquerda (até a Mídia Ninja os apoia) e deixando espaço aberto para os conservadores serem seus críticos.

O PMDB, é claro, não se nega a ocupar o espaço. Mas ele tem um potencial tão grande (talvez maior) que o dos PTistas para fazer estragos.

Seria ainda mais interessante ver outro braço do governo, menos conservador e oligárquico, tentar se descolar de Dima e do PT, tentar criar uma oposição menos à direita.

Acho que é isso, em parte, que estão tentando partidos como o PSB ou a Rede, de Marina Silva (infelizmente, mais atacados pelo governo que o grande partido nacional, o PMDB).

Ioda:

Yoda: “Do barco governista você deve sair. Oposição você deve fazer. Não adianta para um planeta de lama fugir.”

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