Primeiro vamos ficar pobres, depois os preços vão parar de subir

abril 24, 2015

A mão invisível é como a seleção natural: uma ideia no mínimo cruel quando se é afetado diretamente por ela.

As duas parecem bons princípios organizadores no longo prazo, capazes de equilibrar sistemas e trazer uma espécie de tendência natural de organização a coisas que – de outra forma, poderiam tender ao caos. Agora vá você ser “naturalmente selecionado” (ou pior, não-selecionado) para ver como a experiência é ruim.

Com a mão invisível é a mesma coisa. O primeiro problema da mão invisível é que não é invisível. Como diria um ex-presidente do Banco Central (se fosse mais pobre e tivesse que pensar nisso): a mão invisível é a sua, a minha, as nossas mãos.

Resumindo muito, isso quer dizer que os preços só vão parar de subir depois que nós pararmos de comprar. A inflação vai continuar em alta – com produtores e comerciantes repassando aumentos de custo e segurando margens – até que simplesmente não consigamos mais acompanhar.

Vamos ficar pobres antes que os preços parem de subir. E, mesmo depois que ficarmos pobres, os preços ainda vão subir mais um pouco, até produtores e comerciantes se convencerem de que, subindo ainda mais os preços, a queda de vendas mais que compensa o ganho com o aumento de margem.

Essa pequena defasagem no tempo – esse período entre a hora em que ficamos pobres e a hora em que os preços param de subir – é uma falha da mão invisível: se ela fosse eficiente em prazos curtos, isso não aconteceria.

Mas a mão invisível é uma figura de linguagem – usada, meio por acaso, no meio de um livro de mais de 600 páginas cheio de figuras de linguagem – e usada para descrever cenários macroeconômicos no longo prazo.

Não que seu seja contra. A mão invisível é melhor que o caos. Mas, misturada com a ideia de defasagem no tempo, ela nos lembra de que não tem nada de ético ou moral, nada de normativo. Ela é só um mecanismo mais ou menos automático que faz os preços subirem quando falta produto – e caírem quando falta comprador, sem muita preocupação com o que “falta comprador” pode significar.

O irritante é pensar que os recursos públicos que poderiam amortecer os efeitos ruins do ajuste (que poderiam manter bons hospitais públicos e boas escolas públicas funcionando durante a crise) vão ser usados para garantir bons apoios políticos, com obras olímpicas e contratos de administração privada do museu MAR e do museu MIS / Fundação Roberto Marinho.

Quando a verba do governo cai por causa da crise, quem garante a sua é o mais forte (ou mais bem relacionado), mostrando que a versão gasto público da seleção natural / lei da selva também não é bonita de se ver.

Nova Iorque, hoje? Não. Deixa pra lá.

Nova Iorque, hoje? Não. Deixa pra lá.

PS.: Como o nível de renda não é uniformemente distribuído – uns ganham mais do que outros – o aperto da inflação atinge alguns com mais força que outros (e o lado lei da selva do ajuste macro via inflação fica ainda mais explícito).

PS2.: Ajuste macro via inflação é a redução dos salários – ou diminuição do custo de mão de obra, como dizem os donos de empresas – que está acontecendo agora no país (efeito da inflação alta e do desemprego em alta). Esse é outro daqueles conceitos interessantes em teoria, mas que ninguém quer sentir na própria pele. 

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