Con x Con

abril 13, 2015

O salve-se quem puder é uma das variantes mais estranhas do conservadorismo.

Sua lógica é mais ou menos a seguinte: se não dá para manter o mundo congelado – com as mesmas pessoas no poder e o mesmo rendimento no mercado de capitais – mantenha pelo menos a sua fatia do bolo.

Aplicado a uma pessoa, isso parece fazer sentido. Aplicado a muitas ao mesmo tempo, nos deixa à beira da guerra de todos contra todos – à Hobbes.

Em épocas de crise, esse tipo de conservadorismo superindividualista tende a ganhar espaço. Um exemplo curioso dele foi a aprovação da lei de terceirizações – desengavetada e votada rapidamente pelo conservador-individualista Eduardo Cunha.

A nova lei piora o ambiente institucional, cria incerteza para os assalariados e aumenta o poder de políticos sobre os funcionários em órgãos técnicos (terceirizado não é estável, pode ser demitido por não beneficiar o governante da vez em detrimento do Estado).

Por que então votaram isso? Bom, quem fez campanha pela aprovação da lei foi a Fiesp. Empresários da indústria paulista usaram seu poder de lobby para economizar uns tostões na contratação de pessoal: para pagar menos ao INSS transformando em pessoa jurídica parte de seus empregados.

Para isso, pioraram uma estrutura institucional que tinha bons motivos para ser do jeito que era (diminuir a incerteza para os assalariados, dar autonomia técnica a funcionários públicos, financiar minimamente a previdência social).

De novo, tudo foi feito com muita velocidade, sem debate, sem argumentos. Eduardo Cunha tirou o texto da gaveta (onde estava há anos, com milhares de outros) e votou. Azar de quem era contra.

Conservadores individualistas são capazes de coisas assustadoras. Nos Estados Unidos, a desregulamentação da Era Bush foi feita por eles – e levou à crise de 2008. A festa anti-regulação já tinha sido tentada nos anos 20 (antes da crise de 29). Aqui, tivemos um ensaio nos anos 70, sob o manto “desenvolvimentista” do governo Geisel. O resultado foi a crise dos anos 80.

Resumindo: o salve-se quem puder não pode ser política de Estado. Não pode ser política. Ao longo da história, em países diferentes, tudo que ele produziu foi desregulação, selvageria e, finalmente, grandes crises.

Longe de ser uma resposta à crise atual, esse tipo de política é só uma forma de piorar o lado institucional da crise (que já era assustador sem isso).

Campo conservador americano. Edward Hopper.

Campo conservador americano. Edward Hopper.

PS: Achei a solução para o “problema de imagem” da presidente. Diferentemente do que diz o relatório atribuído ao ex-ministro Thomas Traumann, não vai ser preciso trazer guerrilheiros virtuais nem despejar dinheiro público nas mãos de blogueiros mercenários. Para recuperar sua imagem, Dilma só precisa ficar quieta e deixar Eduardo Cunha se expor à imprensa. Uma Dilma presente no noticiário pode ou não ser pior que o presidente da Câmara. Mas uma Dilma discreta é favorecida pelo contraste com ele.

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