Ciclotimia

abril 1, 2015

A economia tem ciclos. Não é teoria, é fato: é só olhar o gráfico e ver as subidas e decidas do crescimento.

Por que os ciclos acontecem já é terreno fértil para ódio e troca de insulto entre teóricos.

O Nobel de economia Robert Lucas ficou ainda mais famoso por dizer, no começo do século XXI, que os ciclos econômicos estavam domados, que a teoria econômica – com suas políticas fiscal e monetária – tinha enterrado de vez as oscilações mais fortes do ciclo.

Ele disse isso, aparentemente, só para ser desmentido pela crise de 2008.

O crescimento da economia: 1998-2014.

O crescimento da economia: 1998-2014.

Um colega de Lucas na Universidade de Chicago (Raguran Rajan) escreveu um livro para tentar provar que a culpa da crise de 2008 foi do governo, do presidente do Banco Central americano Alan Greenspan – que não soube fazer política monetária direito.

Em parte, foi mesmo. Mas a crise cresceu e ganhou escala por conta de empréstimos imobiliários temerários que os bancos tinham feito e de títulos obscuros que emitiram para bancar esses empréstimos.

De qualquer forma, toda boa teoria sobre ciclos tem um capítulo sobre o problema da defasagem no tempo.

Algumas reações demoram a acontecer e isso, naturalmente, provoca ondulações no crescimento econômico.

Para chegar à crise de 2008, o crédito ficou anos crescendo (inflando a bolha) até que isso ficasse insustentável e – com uma grande defasagem – o efeito dos empréstimos ruins chegasse (empobrecendo quem tinha tomado empréstimo e perdia a garantia e quem tinha emprestado e levava calote).

Isso tudo é para dizer que a economia do Brasil vai patinar por muito tempo. E não é só porque a conta dos empréstimos bilionários à Friboi e o pagamento do subsídio à energia elétrica estão chegando (é também por isso).

Mas, além do efeito defasado dos subsídios e incentivos distorcidos que o governo adotou até o ano passado, há a defasagem do ajuste do governo atual.

O governo, hoje, não tem muitas alternativas além de subir juros (para controlar a inflação), deixar o câmbio desvalorizar (porque no longo prazo não pode, nem deve, contê-lo), cortar gastos e aumentar impostos (porque não tem como pagar suas contas).

Os efeitos dessas três medidas não são imediatos. Quem já tinha planejado fazer uma grande festa de casamento desde o ano passado não deixou de fazer. Quem estava no meio do pedido de financiamento para comprar casa, comprou, enfim, muitas decisões de longo prazo mudam de vagar.  

Fora isso, reduzir o consumo (efeito de câmbio alto, juro alto e corte de gasto público) é uma coisa que só fazemos relutando e contrariados, é algo que fazemos aos poucos.

O efeito do ajuste também virá aos poucos, com grandes defasagens – e também passará aos poucos, depois de muito tempo.

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