A experiência heterodoxa e a hora de ajustar a demanda (para baixo)

janeiro 31, 2015

Os acadêmicos que tentavam justificar a política econômica do primeiro governo Dilma diziam que bastava estimular a demanda e as empresas tratariam de produzir mais para atender ao aumento na procura.

Agora que a experiência (para não falar na velha teoria ortodoxa) já deixou claro que não é bem assim, vale a pena fazer uma necrópsia da política de Dilma I para ver o que se pode aprender com ela sobre a economia brasileira.

A primeira coisa é: quando o governo estimula artificialmente a demanda, todo mundo entende que ele está fazendo isso. Algumas pessoas pegam carona (sopram bolhas de ativos e aumentam preços em geral) mas ninguém faz planos de longo prazo para não perder dinheiro quando o efeito do estímulo temporário passar.

A segunda coisa, mais específica de economia brasileira, é: aumentar a oferta é difícil, mesmo quando se quer. É só ver as estatísticas sobre fechamento de empresas, o nó burocrático e fiscal para manter uma e a paranóia da contínua mudança nas regras do jogo para entender por que – mesmo quando os grandes produtores não querem arriscar – os pequenos só se dão mal por aqui.

A terceira coisa – e a única de que eu realmente gosto – é: não basta ser amigo do rei, mesmo que, em alguns ramos, isso pareça necessário. As montadoras de automóveis eram amigas do ministro mantega, as construtoras, amigas de diretores da Petrobras e aquele ex-bilionário falido – quando queria vender ações ou pedir empréstimos – posava ao lado do então governador Sergio Cabral e da presidente Rousseff para mostrar que tinha influência e seria favorecido nos negócios pelos amigos. A amizade é necessária, mas não suficiente.

O resumo da história é que não dá para fazer a economia brasileira crescer só inflando a demanda. Enquanto não resolverem os problemas de verdade (a burocracia monstro, a péssima qualidade do ensino, os amigos do rei que atropelam qualquer tentativa de concorrência), não adianta dar empurrõezinhos imprimindo moeda ou aumentando o gasto público.

Ver a presidente na TV falando em “pátria educadora” é ver o mesmo discurso de sempre.

Na mesma semana, ela cortou o orçamento do Ministério da Educação.

Os problemas de verdade não vão ser resolvidos – e, tão cedo, a economia não vai voltar a crescer.

Se forçar a demanda para cima só produziu inflação, para frear a inflação o remédio é forçar a demanda para baixo. E, nessa hora, os empresários têm certeza: não adianta investir, a economia vai fazer água por uns dois anos pelo menos.

Nesse período, a inflação vai comer a renda real das famílias, os juros dos endividados vão subir, os gastos do governo vão ter que cair (menos compras, menos contratados, menos reajuste dos funcionários públicos pela inflação) e as famílias vão pagar a conta apertando o cinto.

Depois dos dois anos, sem os problemas de verdade resolvidos, continuaremos crescendo pouco – apesar do velho discurso sobre o “grande potencial do Brasil”, sobre como nossa renda per capita é só 20% da americana e como isso indica espaço para crescer. Para quem diz isso, recomendo visitar uma escola pública no Rio de Janeiro (nem precisa ir até o Maranhão), ou, pior, recomendo abrir um negócio.

Isso: empreenda, abra um negócio, veja como é grande o potencial do Brasil. Lembre de contratar alguns contadores para acompanhar as mudanças fiscais no setor em que você trabalha – e mais alguns funcionários para dar conta da gincana burocrática de todos os meses (alvarás, fiscalizações etc.). Se der, faça uma doação eleitoral para o próximo prefeito ou governador e, se com toda essa despesa, você ainda conseguir produzir alguma coisa a um preço decente, parabéns: não conheço ninguém tão eficiente quanto você.

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