Paliativos e gambiarras x Macroeconomia I

novembro 16, 2014

A partir desta segunda-feira, o Banco Central vai pôr mais uma gambiarra na política econômica. O BC vai passar a rolar – todos os dias – até US$ 700 milhões em contratos de swap cambial (já explico o que é isso). O programa de intervenções se junta a outro que já vende diariamente US$ 200 milhões em swaps – e deve continuar fazendo isso pelo menos até o fim do ano. Ao todo, há US$ 110 bilhões em contratos desse tipo entre o BC e o mercado (bancos, empresas e investidores).

Para quem acompanha a economia, a notícia é mais assustadora que os escândalos da Petrobrás. Swap é um contrato de troca de rentabilidade. O BC usa esse contrato como uma espécie de seguro para quem quer comprar dólar. O contrato garante a rentabilidade do dólar a quem o compra – mas não afeta as reservas de dólares do Banco Central. É, na prática, um jeito de o BC vender dólar operando só em reais.

Por que isso é assustador?

Primeiro porque, se o dólar subir, o BC perde. Com US$ 110 bi em swap cambial, cada 1% de alta do dólar é o equivalente (em reais) a US$ 1,1 bi a menos nos cofres do BC.

Segundo (e mais importante): isso é assustador porque é jogar fora a política econômica, é aumentar a contradição lógica no que o BC faz, tornando mais alto o custo e pífio o benefício da política monetária.

Todo aluno de Macroeconomia 1 aprende que, com câmbio flutuante, a política fiscal é quase ineficiente e é a política monetária (os juros) quem tem o poder de frear a demanda e segurar a inflação. A política monetária faz isso por vários caminhos. Mas um deles é via câmbio. Quando os juros sobem, o país se torna mais atraente a investimentos de fora, o dinheiro entra, os investidores compram reais, o câmbio cai, o preço dos importados cai junto e ajuda a segurar a inflação. Há outros efeitos da alta dos juros (para segurar a demanda), mas esse ajuda a ter ideia de poque o câmbio fixo anula a política monetária.

Em regimes de câmbio fixo, é a política fiscal (gastos do governo) o instrumento de controle da demanda. É cortando gasto – ou aumentando impostos – que o governo segura a demanda e controla a inflação.

O governo daqui, hoje, evita usar os juros para segurar a demanda.  Para o dólar não subir, segura a cotação com uma gambiarra (os swaps). E, ao mesmo tempo que torna o câmbio mais rígido, aumenta o gasto público, faz política fiscal expansionista. O resultado é claro: inflação.

Em vez de o câmbio ajudar a puxar a inflação para baixo (como um dos efeitos da alta dos juros), ele é artificialmente controlado. O governo trata um sintoma em vez de cuidar das causas.

Isso é muito inconsistente e dificilmente se manterá no longo prazo. Por quê? Porque ao intervir para manter o dólar artificialmente baixo, o BC estimula as importações e desestimula as exportações – aumenta a demanda por dólar e a pressão por sua alta. Os dados da balança comercial já confirmam isso.

Ao não subir os juros, o BC estimula a saída de investidores (que também compram dólares e aumentam a pressão por sua alta).  Por mais reservas que tenha, o BC não pode manter essa inconsistência lógica por um muito tempo. Ele terá que subir juros e terá que deixar o câmbio flutuar mais livremente.

Mas, enquanto não faz isso, o BC dá a saída para quem quer tirar seu dinheiro do país sem prejuízo – garantindo um dólar barato para os investidores que quiserem ir embora.

O BC assume, em contratos de swap, a diferença entre o dólar hoje e o dólar de quando o investidor quiser sair: assume o prejuízo com a desvalorização do real. E, se não subir os juros, o prejuízo vai ser grande.

Talvez, mesmo subindo os juros, o BC perca bastante. Até lá, ele reforça a potência de uma política fiscal que tem o sinal oposto ao da política monetária: põe lenha na fogueira que os juros deviam apagar.

O swap cambial, na escala em que é usado, é um dos paliativos que o governo adota para  conviver com os desequilíbrios que se recusa a corrigir – e os paliativos têm seus próprios efeitos colaterais… É como tomar remédio para febre, banhos frios e analgésicos fortes (e, ao mesmo tempo, se recusar a tratar sua causa da doença).

Detalhe de parede em Cambridge, onde a política de controle da demanda foi inventada.  No longo prazo...

Detalhe de parede em Cambridge, na Inglaterra, onde a política de controle da demanda foi inventada. No longo prazo…

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