Escrava de um economista morto

setembro 23, 2014

Se Dilma Roussef for reeleita, o BNDES vai continuar emprestando a taxas subsidiadas para as maiores empresas do país. Essa é uma das principais conclusões que se pode tirar da entrevista da presidente ao Bom Dia Brasil, esta semana.

A defesa enfática (e voluntária: a pergunta era sobre Banco Central) que Dilma fez dos empréstimos subsidiados deixa pouca margem a dúvidas. A presidente parece realmente acreditar que, sem subsídios a empresas como o abatedouro Friboi e o Grupo X (do ex-bilionário Eike Batista), não haverá investimento no Brasil.

Durante o governo Dilma, o Tesouro Nacional captou, a cada ano, dezenas de bilhões de reais para repassar ao BNDES. O Tesouro paga, quando capta o dinheiro no mercado, a taxa Selic, hoje em 11%. Quando repassa o dinheiro ao BNDES, o Tesouro recebe a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP), hoje em 5%. A diferença entre as taxas, multiplicada pelos mais de R$ 400 bilhões já repassados, é o valor do subsídio a cada ano.

Mas o subsídio bilionário aos investimentos de grandes empresas não impediu que a taxa de investimento do país caísse. Como é possível?

As empresas subsidiadas, aparentemente, estão apenas deixando de investir seu capital próprio, deixando captar via emissão de ações no mercado e de pedir empréstimos no exterior para usar o crédito barato e sem risco de câmbio do BNDES. Dilma, na prática, está apenas transferindo dinheiro do Tesouro para essas empresas fazerem o que já iam fazer de um jeito ou de outro.

Mas por que ela defende isso assim, abertamente?

Esse é ponto. Ela parece achar que isso faz sentido.

Essa forma de pensar – a defesa de créditos e subsídios para grandes empresas – não foi inventada ontem: ela tem uma história longa, que começa nos anos 80, quando um grupo de economistas começou a produzir teorias para justificar as políticas do governo Geisel.

As teorias foram muito bem recebidas por empresários dispostos a receber mais crédito subsidiado. Elas são ensinadas até hoje, principalmente por acadêmicos ligados à escola de economia da Universidade de Campinas (Unicamp).

O livro mais famoso sobre o tema, A economia brasileira em marcha forçada, rendeu a um de seus autores a posição de diretor do BNDES durante o governo Dilma.

O curioso sobre o livro é que é uma espécie de análise de conjuntura feita em 1985. Seu argumento é algo como: “O governo Geisel fez o contrário do que os manuais de macroeconomia recomendavam e, no entanto, a economia está crescendo bastante. Isso é o resultado dos investimentos subsidiados de Geisel, que agora rendem frutos.”

Mas, a partir de 1986, ano seguinte à publicação do livro, o Brasil começou o que acabou conhecido como a década perdida.

Se admitiam que o país tinha contrariado os manuais de macro, os autores do livro deixavam de lado os custos da política de Geisel (inflação, dívida externa, deixar de direcionar recursos para educação para gastar com subsídio a empresas).

Analisando só os benefícios, tudo parece bom.

Dilma repete a análise: deixa de lado o enorme custo (são dezenas de bilhões de reais por ano em subsídio, dinheiro que podia ir para saúde ou educação) e enxerga um benefício que não está lá.

Por que cometer um erro de política desse tamanho (sem correção à vista)?

Porque ela realmente acredita no que está fazendo. Só pode ser.

Os defensores do subsídio às grandes empresas se apresentam nos debates acadêmicos como keynesianos, como seguidores das idéias do economista inglês John Maynard Keynes.

Keynes, provavelmente, torceria o nariz para o que o governo faz hoje (via BNDES), mas ficaria feliz por ver outra de suas teorias passar no teste do pudim. Segundo Keynes:

“As ideias dos economistas e filósofos [politcal philosophers], estejam elas certas ou erradas, são mais poderosas do que comumente se percebe. De fato, o mundo é governado por pouca coisa além delas. Homens práticos, que se acreditam isentos de qualquer influência intelectual, costumam ser escravos de algum economista morto.”

Cambridge, onde o Keynesianismo foi inventado. Nada a ver com o BNDES.

Cambridge, onde o keynesianismo foi inventado. Nada a ver com o BNDES.

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