O fígado presidencial e a crise do IBGE

setembro 21, 2014

Todo mundo erra, mas a maneira de reagir aos erros – principalmente em época de eleição – varia muito de uma pessoa para outra. A presidente da República reagiu com o fígado ao erro do IBGE na ponderação das regiões metropolitanas da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). E vai pagar um preço eleitoral por sua reação (e não pelo erro do instituto).

A maior parte das pessoas, quando soube do erro, ficou receosa, pensando que pudesse ser sinal de uma intervenção do governo no instituto de estatística. Mas, como erro honesto, ele piorava alguns indicadores e melhorava outros – o que indica que foi erro mesmo e sua correção não foi uma intervenção política no IBGE.

A presidente da República, no entanto, leu o erro como ataque a sua campanha pela reeleição e ordenou medidas contraditórias para atacar o instituto. De saída, mandou cinco ministros apresentarem – no sábado – a análise dos novos dados (que não diferem muito dos antigos). Ao mesmo tempo, mandou formar uma comissão externa para “avaliar a consistência da PNAD”. A PNAD, agora corrigida, é tão consistente quanto suas edições anteriores. Se pesasse qualquer dúvida sobre isso, não haveria sentido em convocar cinco ministros para interpretar seus resultados para a imprensa.

Mas o erro mais grosseiro de Dilma é mandar formar outra comissão externa para apurar responsabilidades e punir técnicos no IBGE.

Dilma, nesse momento, lembra o prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, durante a greve dos garis, no último Carnaval. A postura “demito, prendo e arrebento” de Paes lhe angariou a revolta da população – sempre simpática aos garis, que prestam um dos serviços públicos mais bem avaliados (em termos de eficiência) pela população.

A imagem do IBGE também é das melhores e Dilma só perderá por ataca-lo. A comissão externa – além de ter ares de intimidação, intervenção e afins – pode, no máximo, (se for honesta)  repetir o que o instituto já disse: que foram usados os pesos de todas as regiões metropolitanas (em cada Estado) no lugar dos das regiões metropolitanas das capitais.

Em entrevista coletiva, Dilma chegou a dizer que o erro da PNAD era fácil de detectar. Fácil agora que está detectado.

Além de reagir com o fígado, a presidente está assumindo pessoalmente a decisão de caçar bruxas no instituto de estatística. Que perca muitos votos por isso.

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