Vogue: uma revista sem vergonha

setembro 15, 2014

É difícil pensar num feito mais desprezível que um ensaio de contornos eróticos estrelado por crianças numa revista de circulação nacional [leia um resumo aqui]. Até que essa revista resolve publicar uma nota de “esclarecimento” e “repúdio”:

A Vogue Brasil, responsável pela publicação de Vogue Kids, em razão de recentes discussões em redes sociais envolvendo a última edição da revista, mais especificamente o ensaio de moda intitulado “Sombra e Água Fresca”, vem esclarecer que jamais pretendeu expor as modelos infantis a nenhuma situação inadequada. Seguimos princípios jornalísticos rígidos, dentre os quais o respeito incondicional aos direitos da criança e do adolescente. Como o próprio título da matéria esclarece, retratamos as modelos infantis em um clima descontraído, de férias na beira do rio. Não houve, portanto, intenção de conferir característica de sensualidade ao ensaio. Respeitamos a diversidade de pontos de vista e iremos nos aprofundar no entendimento das diversas vozes nesse caso, buscando o aperfeiçoamento das nossas edições. Repudiamos, porém, as tentativas de associar a Vogue Kids ao estímulo de qualquer prática prejudicial aos menores. Lamentamos que o açodamento e a agressividade imotivada de algumas pessoas tenham exposto desnecessariamente as menores que participaram do ensaio, que são nossa maior preocupação nesse episódio. A missão da Vogue Kids foi e continuará a ser a de tratar a infância com o respeito que ela merece, abordando com respeito e sensibilidade questões contemporâneas e que vão muito além dos editoriais de moda.

O esclarecimento é que a Vogue “jamais pretendeu expor as modelos infantis a nenhuma situação inadequada” e que “não houve, portanto, intenção de conferir característica de sensualidade ao ensaio”. Em outras palavras, a equipe editorial de uma revista com tiragem de 80 mil exemplares no Brasil (1,26 milhão nos EUA), título de uma das maiores editoras do mundo, no máximo cometeu um pequeno deslize ao estampar meninas de 10 ou 12 anos em poses muito semelhantes às usadas para vender mulheres adultas para um público pouco ou nada interessado em moda – uma versão que exige crer em muito amadorismo num negócio milionário.

O repúdio é mais traiçoeiro. Ao apontar “tentativas de associar a Vogue Kids ao estímulo de qualquer prática prejudicial aos menores”, a revista transfere qualquer comportamento reprovável a terceiros – pedófilos? – e adultera a própria reprovação que pesa contra si. No mundo real, afinal, a Vogue não é acusada de “estimular” nada, mas sim de explorar direta e despudoradamente as crianças que estrelam seu ensaio.

No fim, entre “princípios jornalísticos rígidos” e “respeito incondicional aos direitos da criança e do adolescente”, a revista tergiversa, responde ao que não foi dito e se exime do único gesto decente que lhe restava: pedir desculpas.

A atitude é condizente com sua linha editorial. Resta saber se o público – o que compra os 80 mil exemplares por mês – também vai ser tão sem vergonha.

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