Piketty incendiário

julho 5, 2014

Uma das coisas estranhas em ler Capital no Século XXI é ver como a maior parte das resenhas sobre o livro foi escrita por gente que não o leu.

Eu sei: os prazos da imprensa são curtos e – tirando notas, referências bibliográficas etc. – o livro tem 577 páginas.

Resumindo: Thomas Piketty, o autor, se defende antecipadamente de todas as críticas que li ao seu livro – em resenhas tupiniquins e estrangeiras. Ele sabia quem seriam os seus críticos e que tipo de críticas iriam tentar fazer.

Mas, muito melhor do que isso: ele escreveu que temos um problema bizarro de concentração do patrimônio: com os 10% mais ricos nos EUA, por exemplo, sendo donos de 70% do capital do país (imóveis, ações, empresas, títulos de dívida, terras, patentes etc.). Pior: o 1% mais rico é dono de 35% capital total do país.

Na Suécia, famosa pelo igualitarismo, os 10% do topo têm 50% dos ativos e o 1% mais rico, 20%. Longe da imagem de igualitarismo.

No Brasil… No Brasil não dá para saber. A Receita Federal não permite que as  pessoas atualizem o valor de seus bens no Imposto de Renda. Ela obriga todos a manter o valor de compra dos ativos na declaração – para cobrar imposto em cima da diferença entre o valor de compra e o de venda, quer dizer: para cobrar imposto sobre a inflação.

O resultado é que, para o Brasil, não dá para fazer a conta, muito menos para fazer como Piketty e ver a evolução da concentração do capital ao longo do tempo (ela aumentou muito desde os anos 80, nos países em que há dados).

Mais: a partir das extensas bases de dados fiscais de Piketty, dá para explicar por que a concentração de patrimônio aumenta (é porque a rentabilidade do capital é maior que o crescimento da economia) e propor maneiras de evitar que a concentração aumente ainda mais.

O futuro sem correções de rumo que podemos ter pela frente é parecido com o passado. É como o período pré-Primeira Guerra Mundial, quando o capital era ainda mais concentrado que hoje. Era um tempo em que o mérito contava pouco e o único jeito de ter uma vida “confortável” era ser herdeiro.

Como o capital crescia sozinho (rendia entre 4% e 5% ao ano, em média, enquanto a renda dos países crescia muito menos do que isso), quem já tinha capital ganhava cada vez mais e quem não tinha ficava com uma parte cada vez menor do bolo.

E estamos voltando para lá, para o mundo dos rentistas. A relação entre patrimônio e renda está voltando ao nível pré-Primeira Guerra e a concentração desse patrimônio no topo da pirâmide, também.

O curioso é ver como o ataque de Piketty ao 1% do topo (que tem que pagar mais imposto!) passou bem pelas críticas de lobistas dos mais diversos coloridos ideológicos.

Ultra-ortodoxos como Kenneth Rogoff não conseguiram achar erros conceituais ou desmentir o que a belas bases de dados de Piketty mostram.

Um editor do Financial Times tentou, só para ser lindamente desmontado por uma  réplica de Piketty.

Marxistas mumificados se levantaram dos sarcófagos para criticar Piketty (para quem Marx fez perguntas certas, mas encontrou respostas erradas) e não conseguiram: simplesmente não fizeram mais do que balbuciar que gostam mais de Marx (problema deles).

Em suma: mal atacado pela esquerda e pela direita, Piketty segue como o autor do melhor livro de economia do século (até agora).

É bom ver que a economia pode ser útil, que pode ser mais do que modelos pouco aplicáveis e hipóteses impossíveis de testar (tipo expectativas racionais e outras besteiras que ensinam na faculdade).

O animador no livro de Piketty é ver que a economia pode ajudar a tornar o mundo menos nebuloso, que serve para destacar o que tem importância e que mecanismos produzem, por exemplo, a nossa crescente concentração de renda e patrimônio. O animador – para um economista – é ver que os economistas não precisam trabalhar em bancos e consultorias (Working for the few, como já disse uma ONG que trabalha com combate a pobreza). Há mais na economia do que isso.

Lobista conservador pensa em como criticar "Capital no século XXI".

Lobista conservador pensa em como criticar Capital no século XXI.

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