A intervenção no IBGE

abril 12, 2014

O jornal O Estado de S. Paulo publicou hoje uma entrevista em que a presidente do IBGE, Wasmália Bivar, diz – de um jeito incrivelmente hermético e tortuoso – que o instituto não é mais independente.

Quem lê com pressa não nota, mas quem conhece um pouco de estatística – ou de legislação – percebe que há alguma coisa muito errada nas declarações da presidente.

Os trechos mais indicativos da entrevista são dois:

Existe possibilidade de o IBGE rever a decisão de suspender as divulgações da Pnad Contínua?

Wasmália Bivar: Se o Congresso votar uma nova lei me dando mais um ano de prazo… Essa decisão não foi de vontade, foi uma reação ao fato de termos descoberto, agora muito recentemente, que a lei que achávamos que tínhamos até janeiro de 2016 para atender teremos de atender em janeiro de 2015. ”

Nesse caso, basta ler a lei e ver que ela não faz referências à PNAD Contínua. A nova lei sobre a divisão do Fundo de Participação dos Estados diz apenas que, a partir de 2016, um dos critérios para o rateio do fundo será a renda domiciliar per capita dos estados. Ela não estabelece a origem do dado sobre renda domiciliar. Ele pode vir da PNAD tradicional – que será  divulgada em setembro deste ano. Isso não viola a lei.

Em seguida: “Junto com isso, veio uma demanda, que consideramos pertinente, a questão da equalização dos intervalos da amostra entre os Estados. Se isso não acontecer, vai ocorrer que os Estados vão contestar essas estimativas. São os parâmetros que nortearão os recursos que ele está recebendo.”

Foi a senadora Gleisi Hoffmann quem enviou uma solicitação do IBGE dizendo que os intervalos de confiança dos dados de renda dos estados tinham que ser iguais. Advogada, a senadora inovou com sua impressionante genialidade estatística. Nenhum país do mundo publica dados com intervalos de confiança iguais para todas as regiões. Nenhum livro de estatística recomenda isso. Dizer que a “sugestão” da senadora foi considerada boa por especialistas em amostragem do IBGE é admitir: o instituto está sob intervenção.

Os dados cujo intervalo de confiança a senadora questiona ainda não foram divulgados. Seus intervalos de confiança, menos ainda. Como a nova pesquisa do IBGE tem uma amostra muito maior e mais espalhada que a PNAD tradicional, seus dados serão mais precisos que os da PNAD tradicional. Mas, segundo Wasmália, precisarão ser revistos para se adequar às excelentes recomendações estatísticas da senadora (que, até duas semanas atrás, era ministra da Casa Civiil).

Em seguida, Wasmália diz o seguinte sobre a PNAD Contínua – que vem sendo planejada e executada desde 2005, com palestras para tirar dúvidas de usuários e atendimento a toda sorte de padrões internacionais:

“Essa pesquisa nascendo, pesa sobre ela uma responsabilidade muito grande. Se não atender, a pesquisa estará fadada ao descrédito total. Não só a pesquisa, mas o IBGE também. ”

Ela levanta dúvidas sobre a qualidade dos dados do instituto, uma heresia para funcionários da casa. Por isso – e pela suspensão arbitrária da pesquisa em ano eleitoral – tantos funcionários da cúpula do IBGE estão entregando os seus cargos.

Ah, ela também informa que a decisão de suspender a pesquisa foi tomada sem consultar os técnicos que a formularam e a executam: os técnicos souberam pela imprensa. A suspensão da divulgação do seu trabalho foi apresentada a eles como um fato consumado, contra o qual não adiantava reclamar:

Além disso, o Conselho Diretor do IBGE fez algo que foi um pouco diferente do que usualmente nós fazemos. Usualmente, informamos à casa nossas decisões e só depois informamos ao público externo.

Por que dessa vez foi diferente?

Wasmália Bivar: Diante da gravidade do problema, dessa vez nós invertemos. Temíamos que essa notícia surgisse antes de o próprio IBGE anunciá-la.

O corpo técnico não foi informado?

Wasmália Bivar: Não foi. Não tivemos oportunidade de nos reunir com eles e discutir nossas motivações. Isso vai ser feito agora. Mas essa legislação existe e ela não vai ser mudada.”

Qual era o problema de avisar os técnicos antes? Ela confia neles para manter o sigilo dos índices de desemprego e de renda antes das divulgações. Por que não confiaria para apresentar sua decisão sobre a pesquisa?

Mais do que isso: por que foi mesmo que a divulgação da pesquisa foi suspensa até depois das eleições (apesar de a diretora responsável dizer que isso não era necessário)?

A desculpa é sempre a necessidade de cumprir a nova lei do Fundo de Participação dos Estados – que não exige que a pesquisa seja mudada.

 

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