Câmbio, Copa e conversa de corretor

março 28, 2014

Quem anda hoje pelo Centro do Rio de Janeiro repara logo nas faixas de “vende-se” e “aluga-se” na frente de lojas e em janelas de escritórios.

Se a oferta de imóveis já é grande hoje, imagine quando as construtoras entregarem o emocionante “porto maravilha”, projeto privado para ocupar uma área decadente na ponta do centro da cidade.

Mas o que está acontecendo? Por que tantos imóveis anunciados?

Pode ter a ver com o preço dos imóveis e dos aluguéis – que disparou nos últimos anos.

Embora os donos de imóveis continuem com a expectativa de vende-los ou aluga-los por valores altos, não há mais quem pague o que pedem.

Mas por que agora? Por que, às vésperas da Copa do Mundo, dois anos antes das Olimpíadas etc. etc.?

O problema é que a bolha imobiliária nunca teve nada a ver com Copa ou Olimpíadas. Ela tinha a ver com juros e câmbio. O resto era conversa de corretor.

O preço dos imóveis – no Rio e em outras cidades – começou a subir em 2008, no começo da crise nos Estados Unidos e na Europa.

Os juros, no mundo rico, caíram para perto de zero (para menos de zero, descontando a inflação). Os ricos do mundo rico trataram de levar seu dinheiro para onde rendesse um pouco mais. Vieram para cá e para outros países onde juros, ações e imóveis fossem render mais do que o zero que ganhavam em casa.

O efeito disso foi que o real se valorizou fortemente entre 2008 e 2012, as ações no Brasil subiram de preço e os imóveis – comprados por estrangeiros, fundos imobiliários e brasileiros pegando carona – também.

Mas já começam a haver sinais de recuperação nos EUA. Ontem, o BEA (o IBGE americano) anunciou que a economia de lá cresceu a um ritmo anualizado de 2,6% no quarto trimestre do ano passado. A presidente do BC de lá já avisou que eles vão – aos poucos – parar de imprimir dinheiro para jogar no mercado (o que eles chamam de quantitative easing), em suma: para muitos investidores estrangeiros, começa a ficar próxima a hora de vender o que compraram aqui e voltar para casa.

O Banco Central daqui está fazendo malabarismos para evitar que a saída de dinheiro desvalorize o real muito rapiadamente e, para os estrangeiros, esse é exatamente o problema. Se demorarem muito para sair, o real perderá valor e seus ganhos por investir aqui virarão fumaçam. Então, é melhor se antecipar um pouco e não esperar pela alta dos juros nos EUA.

Resumindo: não sei quem vai comprar os imóveis do porto maravilha. Não sei nem quem vai alugar ou comprar os que já estão anunciados no Centro do Rio. Com o aumento dos juros aqui, até os compradores mais necessitados vão passar a pensar dez vezes antes de pegar financiamentos imobiliários. O cenário, cheio de “vende-se” e “aluga-se”, lembra muito o que vi em uma viagem à Inglaterra em 2007 (pouco antes do estouro da bolha imobiliária de lá).

Edimburgo, 2007. Às vésperas da crise.

Edimburgo, 2007. Às vésperas da crise.

 

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: