Lixo administrativo

março 5, 2014

Com cinco dias de greve da Companhia Municipal de Limpeza Urbana (Comlurb), as pilhas de lixo nas ruas do Rio de Janeiro começam a ficar altas. Mas elas incomodam menos que a decisão do presidente da empresa, Vinicius Roriz, de demitir 300 funcionários por faltar o trabalho durante o feriado de Carnaval.

Isso: depois de faltar três dias (sábado, domingo e segunda-feira de Carnaval) 300 pessoas foram demitidas, por fazer greve. Não existe alguma lei que impeça empresas de demitir pessoas por fazer greve? Ainda mais em um feriado? Não deviam tentar negociar por mais tempo antes de demitir? Não pensaram que, demitindo, só vão acirrar mais os ânimos? Não lembraram que vivemos em tempos democráticos, em que o que vale é a negociação?

Não. Domingo, dia 2 de março, uma matéria da Agência Brasil, publicada no jornal O Dia, já mostrava como os garis seriam tratados. A passeata dos garis foi acompanhada por PMs desidentificados, sem nome ou número nas fardas. O coronel responsável pela tropa se justificou: as novas fantasias de Robocop usadas pela PM carioca para reprimir passeatas não têm nomes nem números. Segundo o coronel Wagner Vilares, a identificação dos PMs “não é uma obrigatoriedade legal, mas administrativa”. Isso quer dizer que eles podem bater impunemente sem identificação (e agora, com capacetes que escondem o rosto)?

A quantidade assustadora de lixo acumulada nas ruas em cinco dias é prova de que os garis cariocas trabalham. É trabalho pesado e é usado pela prefeitura como símbolo de eficiência administrativa. Não à toa, Cesar Maia adotou a cor da Comlurb (o laranja) como símbolo da sua administração. Não à toa, Eduardo Paes levou um gari para dançar no palco de encerramento das Olimpíadas de Londres: era a imagem publicitária perfeita para as Olimpíadas do Rio (um lugar onde os garis são felizes).

Na hora de faturar em cima da eficiência da Comlurb, os políticos estão lá. Mas na hora de negociar salários, mandam a polícia.

Em vez de negociar a sério, conversam com um sindicato não representativo, que não se incomoda em adotar cláusulas de demissão imediata em seu “acordo” com a Comlurb.

Isso não tem como acabar bem.

Demissões, ameaças e incapacidade de negociar.

Demissões, ameaças e incapacidade de negociar.

PS. Com o desemprego na mínima histórica, os garis não vão ter muito medo de perder os R$ 1.200 de salário (R$ 400 de adicional de insalubridade incluído). Para ganhar isso trabalhando domingos, feriados e em horários alternativos, não vai ser tão difícil arrumar outro emprego. Eles não vão se intimidar com demissões e ameaças.

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