Vigiar e punir a polícia

julho 28, 2013

Foram as dezenas de câmeras, i-phones e afins – nas mãos de manifestantes, e vizinhos do protesto de segunda-feira – que impediram que a polícia mantivesse preso um manifestante acusado falsamente de jogar um cocktail molotov. A acusação contra ele era de tentativa de homicídio.

Considerando que a polícia já o tinha eletrocutado quando ele estava caído no chão, considerando que ele foi levado preso desmaiado e considerando os gritos do policial que  o mostrou para as câmeras (“ele jogou o cocktail molotov!”), o manifestante não devia esperar um tratamento delicado nas mãos da polícia.

Mas a vigilância sobre a polícia – ao lado de uma sensação profunda de revolta de quem viu os vídeos (e, mais ainda, de quem estava lá) – permitiram que se reunissem provas de que o manifestante era inocente. Provar a inocência é uma daquelas coisas que só se faz em ditadoras. O normal é quem acusa ter o ônus da prova.

A polícia – de agora em diante – será filmada de todas as janelas, por todos os telefones de passantes e manifestantes. Aprendemos que isso é questão de sobrevivência. A polícia será mais vigiada. Mas dificilmente será punida. E isso quer dizer que vai continuar dando choques em pessoas caídas e tiros no rosto de manifestantes.

Os protestos de rua no Rio de Janeiro nunca pretenderam derrubar o governo. As manifestações sempre foram de cobrança por melhores serviços públicos, foram pelos serviços que o governo promete e não entrega. Foram também contra abusos do governador com dinheiro público e – quase de desde as primeiras – contra os crimes cometidos pela polícia na repressão a manifestantes.

Acusar falsamente um inocente de tentativa de homicídio é crime. Acusa-lo na TV é outro crime. Enfim, pelo menos por calúnia, injúria e difamação os policias que prenderam (e apresentaram o manifestante à TV como culpado) deveriam estar sendo processados. Alguém sabe como vai o processo? Alguém sabe se um dia vai haver processo?

Um fotógrafo da AFP foi espancado pela polícia no protesto de segunda-feira. Ele estava tirando fotos, não fazia nada de ameaçador ou criminoso. Há processo por agressão contra o policial que o espancou?

É a P2 que vai investigar os crimes da policia? A mesma P2 que está sendo acusada de infiltrar agentes e de efetivamente lança o cocktail molotov na polícia para justificar a repressão ao protesto?

O comandante da polícia militar disse que se sentia enojado por alguém levantar a hipótese de quem um policial pudesse lançar bombas em um colega de farda. Ato falho horrível. Em civil pode jogar bomba? Os policiais a paisana da P2 se sentem colgas de farda da PM? Enfim, a polícia vai investigar se ela mesma jogou a bomba?

O problema é que, se ela não fizer isso, vai assumir que não adianta cobrar do Estado que trabalhe. Se o topo da hierarquia da polícia, se o governo não punir os policiais que comentem crimes, vai ser preciso mudar o topo da hierarquia da polícia.

Sim, os protestos não são para derrubar o governo mas, se o governador renunciasse e o vice mudasse a cúpula da polícia (no mínimo, conivente com crimes violentos contra os manifestantes), talvez as coisas se acalmassem um pouco.

Vigilância assustada.

Vigilância assustada.

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