Como o número de Bacon vence os Marinho

julho 21, 2013

Falar mal da imprensa é uma tradição nacional. Em épocas de protesto – com a Globo se esforçando para transformar manifestações políticas em noticiário policial – falar mal é necessário.

E falar mal fará toda a diferença. A culpa (ou a explicação) é de um ancestral do número de Bacon. O ancestral é o número 6 – e foi descoberto nos anos 60 por um sociólogo americano chamado Stanley Milgram.

Milgram queria entender a formação de redes de conhecimento (conhecimento no sentido brasileiro: quem é amigo de quem). Ele pôs anúncios em jornais procurando voluntários em dois estados nos EUA (Kansas e Nebrasca). Os voluntários receberam envelopes com o nome, profissão e cidade de uma pessoa que não conheciam (em Boston, longe de casa). Eles deveriam fazer o envelope chegar ao destinatário, passando-o a amigos e conhecidos que o passariam a seus amigos, até que chegasse ao destino.

A mediana do número de conhecidos entre a origem o destino dos envelopes foi 5. Daí a expressão “seis graus de separação”, que indicaria a distância mediana entre as pessoas.

A versão  engraçadinha (e mais famosa) do número de Milgram é o número de Bacon, hit adolescente dos anos 90. Segundo ela, é praticamente impossível encontrar um ator a mais de quatro filmes de distância de Kevin Bacon – arroz de festa do cinema americano.

Aparentemente, quem não contracenou com ele, contracenou com alguém que contracenou com alguém que contracenou com alguém que contracenou com ele.

Uma versão atualizada da experiência de Milgram foi feita com e-mails e métodos estatísticos sofisticados pelo físico australiano Duncan Watts e seus co-autores Roby Muhamad e Peter Dods. Nessa versão da experiência, os e-mails passaram por mais de 60 mil pessoas em 166 países. E os resultados não foram muito diferentes dos de Milgram: cerca de metade das mensagens atingiu seu destino com menos de 7 intermediários.

Agora os Marinho.

Se cada participante de um protesto está a, no máximo, seis pessoas de distância de cerca de metade da população do país e, se o que eles viram a polícia fazer é um assunto que pede para ser comentado (e repassado aos amigos dos amigos dos amigos), então não adianta a Globo não mostrar a repressão da polícia – ou mostrar só pessoas quebrando vitrines.

As redes (de boca a boca ou por fios e e-mails) vão levar a notícia a onde ela tem que chegar.

Por mais que a TV grite mais alto em cima do móvel da sala, a informação confiável, narrada por um amigo que esteve lá (ou por um amigo de alguém que esteve lá) prevalece – e acaba com a credibilidade do canal dos Marinho.

Pássaro em rede complexa de galhos.

Pássaro em rede complexa de galhos.

PS. Para a experiência de Milgram, vale ler o Complexity, a guided tour, de Melanie Mitchell. Para a de Duncan Watts, o melhor é ler o próprio. O nome do livro é Everything is obvious – once you know the answer (acho que já lançaram em português).

PS2. Sobre redes, vale a pena também ler Linked: the new science of networks, de Albert-László Barbási.

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