Epitáfio para a estabilidade da economia

março 24, 2013

Desculpem por começar com uma citação, mas é uma citação importante:

“(…) políticas orientadas para o crescimento não eram mais apoiadas por uma alta poupança doméstica como no meio dos anos 70. (…) a poupança doméstica como proporção do PIB, que tinha sido em média de 24,4% entre 1970 e 1973 e de 24,2% entre 1974 e 1978, caiu para 18,1% em 1979 e para 16,4% em 1982. Resumindo: a poupança externa, antes usada financiar investimento adicional, estava agora sendo usada para promover o aumento do consumo” Simonsen, M.H., Brazil: international trade and economic growth, página 22, Editora FGV 1986, tradução minha.

Esse trecho foi escrito por Simonsen em um artigo sobre como nossa economia afundou nos anos 70 e 80. Me lembrei dele hoje cedo, lendo uma análise praticamente igual, feita por Affonso Celso Pastore, sobre a economia do Brasil hoje. Até os números são parecidos.

Pastore analisa a relação entre poupança e investimento e lembra que a entrada líquida de importados (importações menos exportações) é financiada por entrada de capital de fora, quer dizer: se a gente importa mais do que exporta, usa a poupança dos outros países. Essa poupança vem para o Brasil como empréstimo e como investimento e paga nosso saldo de importações.

Essas importações a mais podem ser de máquinas, equipamentos e afins (investimento) ou podem ser só para consumirmos. A análise que Pastore faz das séries de dados mais recentes mostra que o que financiamos é, cada vez mais, consumo. Nenhuma surpresa, afinal, as políticas do governo são para estimular consumo.

A conta é um pouco mais complicada, porque é preciso descontar os pagamentos por serviços, juros, e remessas de moradores de outros países. É o saldo depois dessa conta que está no vermelho: é a conta corrente. É ela que é financiada pela poupança externa.

De qualquer forma, consumo e investimento são despesas. Eles competem como usos possíveis para os recursos que temos. A política de estímulo ao consumo de hoje tira, então, recursos dos investimentos. Ter um déficit com o exterior quando se usa essa poupança externa para investir – e gerar recursos para pagar a conta – é diferente de ter déficit externo para consumir – e ficar devendo.

O pior é pensar que estamos repetindo o erro, que já fizemos isso antes, que vamos continuar investindo pouco porque, apesar dos anúncios histriônicos, a política pública não favorece o investimento: pelo contrário, faz com que se consuma em vez de investir.

Pior ainda é pensar, como afirma Pastore, que o governo não vai tentar mudar essa política. No curto prazo, uma mudança teria custo, seria preciso reduzir o consumo, reduzir a sensação geral de bem estar que temos quando vivemos (sem nos dar conta)  acima dos nossos recursos. Com as eleições a pouco mais de um ano e meio de distância, o governo não vai fazer o ajuste.

Quer dizer: insistiremos na política errada, mesmo sabendo disso, e colheremos resultados ruins no longo prazo (baixo crescimento + demanda alta = inflação).

É estranho acompanhar a implantação de uma política cujo obituário já foi escrito. Ainda mais estranho quando pensamos que esse obituário já aparece em um texto dos anos 80.

Hora de pôr as barbas de molho.

Hora de pôr as barbas de molho.

Mesmo.

Mesmo.

Independentemente da escola de economia preferia pelo barbudo.

Independentemente da escola de economia preferida ou da afiliação partidária do barbudo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: