A fraude (da imprensa) automobilística

março 24, 2013

O título do UOL cairia bem numa matéria do Piauí Herald: “Renault Sandero e Logan têm segurança reforçada na linha 2013”. Isso porque só como piada é possível levar a sério a exaltação à inclusão de air bags frontais e freios ABS como itens de série dos dois modelos. A matéria até tenta ser sincera, no segundo parágrafo, ao lembrar que os equipamentos serão obrigatórios em todo veículo novo a partir de 2014. Mas não sem antes dizer, logo no início, que os carros terão “recheio mais generoso na linha 2013/2013″.

Generoso mesmo é o tratamento que a imprensa em geral, e a especializada com mais empenho, dá à indústria automobilística.

Uma das regras não escritas das redações – destacar o Custo Brasil e ocultar o Lucro Brasil ao abordar os altos preços dos automóveis no país – já foi exposta pela insistência dos fatos. Mas outra, talvez mais grave por envolver segurança, permanece bem cuidada por jornalistas ciosos, capazes de produzir títulos como o do UOL.

Dizer que os dois modelos “têm segurança reforçada na linha 2013” equivale a afirmar que a indústria automobilística vai cumprir a lei – o que, embora se revele de certa forma inusitado, não parece ser exatamente o intuito da matéria.

No quesito segurança, talvez fosse de maior interesse jornalístico mencionar que os air bags frontais (para motorista e carona) passaram a ser exigidos nos Estados Unidos na década de 1980 e se tornaram obrigatórios em todos os veículos produzidos por lá em 1998, ou seja, há 15 anos. E que, na Europa, embora não haja imposição legal direta, todos os veículos novos têm air bags.

Aqui, depois de anos de lobby da indústria, a obrigação só passou em 2009, com a Lei 11.910, mesmo assim mediante um paciente calendário de implantação que só termina em 2014, instituído pela Resolução 311 do Contran. Nos termos da Resolução 312, o prazo é o mesmo para o sistema de frenagem ABS, obrigatório na Europa desde 2007.

Se esses dados não forem suficientes para evidenciar a preocupação da indústria automobilística nacional (e do governo) com a segurança dos carros vendidos no país, basta reparar na lista dos zero quilômetro mais vendidos nos últimos anos, em que se destaca um curioso espécime chamado Classic. Este fenômeno de longevidade, já vendido como Corsa Sedan e Corsa Classic, usa o mesmo projeto básico do Corsa… lançado em 1994.

Quanto valeria uma matéria?

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Uma resposta to “A fraude (da imprensa) automobilística”

  1. […] de chantagem e cara de pau da indústria, reforçada pela submissão do governo, com uma pitada de boa vontade da imprensa, tem atrasado a obrigatoriedade do airbag e do ABS nos veículos brasileiros, prevista por lei […]

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