Watts: o anti-Freakonomics

fevereiro 12, 2013

O livreiro não sabia classificar o livro. Ou achou que ele ia vender mais ali, em destaque no meio da loja. Mas fiquei assutado em ver o livro novo de Duncan Watts na seção de auto-ajuda.

Watts é um físico que virou sociólogo: dava aula de sociologia na Universidade de Columbia antes de ir para a área de pesquisa do Yahoo!. Ele é um dos principais pesquisadores na área de formação de redes (sociais ou não). Mas seu livro de “auto-ajuda” só começa a falar em redes depois dos primeiros 20% (estou lendo a versão digital, sem número de páginas…).

Ele começa batendo com força na ideia de senso comum. Para ele, usar o “bom senso” para questões macro – que têm muito pouco a ver com nosso dia-a-dia – é no mínimo temerário.

Para ilustrar algumas temeridades do senso comum, ele dá o exemplo de um estudo feito com soldados americanos depois da guerra. O texto do estudo apresenta várias conclusões, como a de que pessoas de origem rural se adaptam melhor ao Exército. O leitor do texto imediatamente pensa: “claro, a vida no campo é mais dura. Normal que alguém do campo se adapte melhor ao trabalho pesado do Exército”. Todas as conclusões do estudo parecem meio óbvias, a ponto de logo o leitor começar a pensar: “Gastaram milhares de dólares para chegar a essas conclusões? Se tivessem me perguntado, eu teria respondido isso.”

Mas aí vem a maldade do autor do estudo. As conclusões do estudo eram exatamente o contrário das apresentadas. O curioso é que as conclusões verdadeiras também pareciam óbvias depois de apresentadas. Por exemplo: pessoas da cidade – mais acostumadas com estresse, hierarquia e afins – se adaptam melhor ao Exército. Óbvio.

Daí o título do livro de Watts: Tudo é óbvio, uma vez que você saiba a resposta.

Mas a melhor parte do livro (até agora, ainda estou no meio) é a em que ele bate nos modelos racionalistas de teoria econômica. Watts é uma espécie de anti-Levitt (o economista do Freakonomics). Para ele, os incentivos e punições pregados pelos economistas tradicionais são simplificações que podem ter resultados completamente imprevistos.

O problema é que as pessoas estão longe de ser tão racionais como os modelos econômicos supõem. E essa parte do texto lista uma coleção de estudos de psicologia com o tipo de incongruência que cometemos no dia-a-dia (que faz corar qualquer sujeito que se julgue mais ou menos racional).

São coisas como preferir um produto barato e um pouco pior a um caro e melhor (mas “mudar de preferência” se na propaganda dos produtos houver também um terceiro: tão bom quanto o caro, mas muito mais caro). Coisas como se deixar influenciar pela música da loja na hora de escolher produtos ou por números (aleatórios) que se viu há pouco tempo na hora de avaliar preços. E todas elas vêm de estudos sobre psicologia cognitiva – cheios de testes com cobaias –  mostrando que, bom, a gente não se comporta como a teoria econômica supõe (sem testar) que a gente se comporta.

Quer dizer: não dá para confiar demais nos modelos que partem dessas hipóteses.

“O problema é que (…) [nesse tipo de explicação] instintivamente enfatizamos custos e benefícios acessíveis à nossa consciência como os associados a motivações, preferências e credos – o tipo de fator que predomina nos modelos racionalistas dos cientistas sociais”, diz Watts.

Watts descreve uma experiência que fazia com seus alunos: falava para eles pensarem em dois países: A e B. Em um deles, 12% da população se registrava como doadora de órgãos, no outro, 99,9% era doadora. O que fazia com que essa diferença surgisse?

Os alunos então propunham as teorias mais diferentes: o nível de religiosidade da população, a qualidade dos serviços de saúde, uma cultura mais individualista, uma frequência maior de acidentes etc.

Os alunos então eram informados que os índices de registro como doador de órgãos eram reais e se aplicavam à Alemanha e à Áustria.

Afinal, o que havia de tão diferente entre Alemanha e Áustria? Bom, na Áustria, o default, na hora de tirar documentos é a opção “doador de órgãos”, na Alemanha não. Lá você tem que dizer que quer ser doador.

Uma coisa trivial, que nenhum dos estudantes de nenhuma das turmas de Watts jamais chutou, era a explicação para a diferença.

E nesse caso, o ponto era só mostrar que o mundo é mais complicado do que  economistas e modeladores supõem. Quando o comportamento humano entra no meio, a coisa fica bem pior. O livro tem um capítulo divertido sobre políticas de incentivo supersimplificadoras – como os bônus atrelados à valorização das ações de uma empresa. Afinal, os executivos trabalhariam pior com bônus menores? Trabalhariam menos? Dariam voltas na empresa? O que – em um comportamento complexo, relacionado a uma infinidade de estímulos – muda com o pagamento de bônus?

Mas a parte que me deixou mais feliz com o livro até agora foi uma pela qual muita gente vai passar direto (mas que merece ser lida com calma). É a parte sobre o que os sociólogos chamam de “problema macro-micro”.

“O problema, resumindo muito, é que os resultados que os sociólogos querem explicar são intrinsecamente ‘macro’, por natureza, o que quer dizer que envolvem um grande número de pessoas (…) E todos esses resultados são conduzidos por ‘micro’ decisões de indivíduos humanos que estão fazendo o tipo de escolha que discuti no capítulo anterior [sobre o que afeta as decisões das pessoas além da racionalidade].”

Os modelos econômicos se desviam desse problema supondo que existe um “agente representativo”, uma espécie de sujeito médio que determina o comportamento da multidão. O problema é que cada um dos agentes reais decide pelos motivos mais diferentes e todos eles trocam figurinhas – influenciando-se uns aos outros. Os resultados dessa interação são muito pouco previsíveis.

O exemplo de Watts é um estudo dele e de outros autores sobre formação de preferências. Os pesquisadores montaram um site de download de músicas de bandas desconhecidas. O site só podia ser acessado por uma rede social cujos administradores eles conheciam. Quem acessava o site podia baixar as músicas e ranquea-las, de acordo com suas preferências.

A maldade do estudo é que, quem acessava o site de downloads era alocado em um de cinco grupos independentes – em que os rankings eram separados. Em quatro grupos era possível ver o ranking estabelecido até então a partir dos votos de quem já estava no grupo. No quinto grupo, era preciso votar sem ver em quem as outras pessoas tinham votado.

O resultado foram rankings muito diferentes, pois a música que começava bem em um grupo tendia a ter mais downloads e mais votos. O quinto grupo foi usado como controle, para ter uma ideia de como seria um ranking sem a influência de opiniões externas.

O irritante é que muita coisa no mundo real tem a ver com esse tipo de interação – e isso não aparece nos modelos econômicos agregados. O que você quer explicar é justamente o que você não vê quando usa o tal “agente representativo” ou quando agrega os dados.

Se isso dá um certo desânimo quanto à teoria econômica que existe hoje, faz pensar também nas coisas divertidas que ainda podem ser descobertas (principalmente agora, quando é possível usar a internet para estudos como o de Watts, sobre interações e influências).

Se não ajudarem a entender como as pessoas são, esses estudos vão pelo menos ajudar a entender como se influenciam umas às outras – o que já é bastante coisa.

Árvore complexa, em um mundo complicado.

Árvore complexa, em um mundo complicado.

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Uma resposta to “Watts: o anti-Freakonomics”

  1. rmoraes said

    Eu sei: a ideia do livro é que, a posteriori, tudo é óbvio. Mas toda essa discussão sobre interações em rede já estava (a posteriori é obvio!) no Guia do Mochileiro das Galáxias.

    A garçonete que descobre a pergunta sobre “a vida, o universo e tudo mais” (poucos segundos antes do fim do mundo) é a versão Mochileiro do estranho tipo de processamento que ocorre com todas essas interações meio caóticas entre as pessoas.

    Por fim, a segunda parte do livro do Watts é muito pior que a primeira. Ele gasta todas as boas idéias nos primeiros 50% do livro. O resto parece um daqueles livros de administração que lota estantes nas livrarias. “Tudo é óbvio” poderia estar em uma dessas estantes, mas venderia pouco se estivesse lá.

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