Decadência sincera

dezembro 16, 2012

Governos populistas, cedo ou tarde, começam a entregar resultados ruins. Faz parte do processo. Se não fossem ruins no longo prazo, não haveria porque criticar as fanfarras e políticas imediatistas que adotam.

Mas um dos sinais mais assustadores de crise à frente é a sinceridade populista. É quando o governante começa a acreditar na própria propaganda.

Isso não é difícil, nem pouco comum. Os governantes vivem em um mundo à parte, embora, em muitos casos, andem pelos mesmos lugares que a gente.

Vou dar um exemplo. Nos anos 90, época em que a Telerj ainda era a única empresa com serviços de telefonia celular, o então presidente Fernando Henrique agendou uma visita à fazenda do então dono da Petróleo Ipiranga, em Itaipava.

A Telerj, que não planejava instalar antenas de celular na área por pelo menos três anos, mudou sua agenda e instalou uma antena provisória, feita com andaimes – e depois a substituiu por uma permanente.

Não me lembro mais por quê, mas a visita de FHC foi cancelada. Ficou só a antena de celular.

Na época, não pude deixar de pensar que, no país do presidente, havia celular em toda parte, no meu não. Certamente ele via as coisas com mais otimismo do que eu.

Ok. Agora voltando aos insinceros e aos populistas: José Dirceu, o líder condenado da quadrilha do mensalão, escreve um blog. Muitos de seus comentários são reproduzidos no Blog de Ricardo Noblat, colunista do Globo. Já li alguns. A falta de sinceridade é tão explícita que dá para ter certeza de que – embora escreva para um público de fiéis fanáticos ideológicos – ele não acredita em uma palavra do que escreve.

Tudo bem, a coisa é tão explícita que beira o curioso. Na prática, Dirceu me assusta menos do que sua sucessora na Casa Civil, Dilma Roussef. Dilma, diferente dele, parece acreditar no que diz sobre a política econômica.

Com a inflação acelerando e a renda per capta estagnada (se o país crescer 1%, como os analistas projetam para este ano, a renda per capta vai ficar igual à de 2011), ela aparece na televisão para elogiar a gestão Mantega e dizer que temos reservas de dólares no exterior (US$378 bilhões, que custam caro para manter), que temos uma relação dívida/PIB baixa e que confia na previsão de seu ministro de que o crescimento da economia vai se acelerar no próximo trimestre.

Só faltou dizer que este é o melhor dos mundos possíveis.

Ela pode até dizer isso para a patuléia (como diz outro colunista do Globo), tudo bem. O que me assustou foi o tom sincero (irritado mas, ao mesmo tempo, sincero) da declaração. A impressão que fica é que ela realmente não sabe o que está fazendo, que está cercada de ministros e assessores, que eles dizem que está tudo bem – e ela acredita neles.

Em Paris: Pensador e sombras no Portal do Inferno.

Em Paris: Pensador e sombras no Portal do Inferno.

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