Sem mérito

dezembro 7, 2012

Acabo de ver na TV a presidente Dilma Roussef dizer que não vai levar em conta a “sugestão” da revista The Economist para que demita seu mal-sucedido ministro da Fazenda.

O tom irritado da presidente não é uma surpresa:  é sempre assim que ela fala com a imprensa. O curioso é a linha de argumentação: “não vou levar em conta o que diz uma revista ESTRANGEIRA [enfase dela] para tomar essa decisão”.

Por um segundo, meu lado otimista imaginou que Dilma fosse demitir o ministro sem levar em conta a reportagem: demitir porque ele está afundando a economia, independentemente do que a Economist diga. Mas logo Dilma disparou: “A economia está crescendo e vai crescer mais ainda no próximo trimestre”.

Vai? Como é que ela sabe? Ela confia na projeção de seu ministro da Fazenda (crescimento de 0,8% para o quarto trimestre)? Mas o trimestre ainda nem acabou. Os dados do segundo mês do trimestre ainda não estão disponíveis… E o ministro tem um histórico terrível no campo das previsões.

Se valem os argumentos da Economist, os investidores vão continuar parados, esperando pelos próximos surtos de mudança de regras do ministro. Para tentar se manter no cargo, ele cometeu uma série de distribuições de dinheiro público esta semana (anunciou mais R$ 100 bilhões para empresas amigas, via BNDES, ontem), mudou de novo a regra do Imposto sobre Operações Financeiras e mudou a tributação das construtoras. O imposto das construtoras agora é em cascata. Antes ele era sobre a folha de pagamento, agora é sobre o faturamento: em cascata.

Dá medo que a presidente queira manter o ministro no cargo só de picuinha, só para dizer que nenhuma revista inglesa derruba seu ministro. Da medo a ideia de que ela possa nos condenar à estagflação para defender o emprego (muito bem remunerado) de um economista incompetente.

A economia está crescendo menos que o previsto e a inflação está subindo mais do que o previsto (em novembro, o IPCA foi de 0,6%). Mais do que isso: os indicadores não são só piores do que o previsto: eles são ruins mesmo.

A inflação não é só alta: nos últimos meses ela foi cada vez mais alta. E o governo reage cortando juros e desvalorizando a moeda (o que aumenta a inflação). O crescimento é baixo (e o governo reage mudando as regras, o que desestimula o investimento e desacelera ainda mais a economia).

A estagflação vem aí – e vai complicar muito o trabalho da Fazenda. Coitado do sucessor do ministro. Porque ele vai cair. A única dúvida é quando: quanto tempo Dilma vai levar para se convencer de que Mantega era um ministro tampão para tempos estáveis. Quando ela vai se convencer de que precisa de um técnico (e não de um lobista) no ministério para tentar mudar o rumo da economia (que aponta para deterioração no futuro próximo)?

Apertem os cintos senhores, porque, como disse a Economist, com a incerteza criada por Mantega e suas mudanças de regras, a economia vai sacudir ainda mais se ele não deixar o cargo.

Sorriso amarelo...

Mantega: sorriso amarelo…

P.S.: O velho Roberto Campos – que viu de perto várias políticas econômicas delirantes – tinha uma frase de efeito para dar esperança nos casos em que o bom senso custa a prevalecer: “Se o país não puder ser salvo pelo silogismo”, dizia, “talvez seja salvo pela piada”.

Pode ser um pouco wishful thinking, mas acho que vamos ter um novo ministro na Fazenda porque o antigo virou piada.

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