Por que a crise européia vai continuar (e, talvez, piorar)

novembro 3, 2012

Os economistas têm um velho chavão que resume como as crises econômicas devem ser tratadas: se o choque é permanente, se ajuste, se é temporário, financie (peça empréstimos e segure a demanda durante a crise).

O problema , então, é dizer em que tipo de crise estamos. Se o choque for permanente, então os alemães terão razão e o único jeito para a Europa vai ser apertar o cinto. Se for temporário, essa política de aperto só tornará o buraco mais fundo.

Mas o curioso, neste caso, é que esta crise é as duas coisas. A Europa, antes da crise, crescia a base de anabolizantes. O crescimento da Espanha, por exemplo, foi puxado pelo setor de construção, pela bolha imobiliária. Esse crescimento não vai voltar.

Nesse sentido, o choque é permanente: é preciso cortar gastos para se ajustar.

Mas o estouro da bolha, diminuindo o valor dos imóveis, fez com que as famílias europeias empobrecessem de um dia para o outro – e passassem a cortar gastos para recompor o patrimônio.

O corte brusco do consumo derruba a produção, mas é temporário: depois de alguns anos pagando dívidas e refazendo o fundo de aposentadoria, as famílias voltam a consumir no nível de antes.

O governo, nesse caso, deveria pedir empréstimos para aumentar seus gastos e evitar que a queda do consumo das famílias derrubasse a produção. Como o choque é temporário, isso seria viável: alguns anos no vermelho, gastando para manter a demanda, e alguns anos (depois) pagando a conta.

Como tratar então esse choque parte-temporário parte-permanente?

A solução, para muitos economistas é gastar agora e fazer o ajuste depois.

Mas o argumento alemão é que os outros países não vão fazer o ajuste depois.

A crise, com todos precisando urgentemente de dinheiro alemão, seria então uma oportunidade para a Alemanha forçar outros países a fazerem reformas previdenciárias e cortarem serviços públicos.

O processo é mais doloroso do que seria se o ajuste fosse feito mais tarde, depois que as economias já tivessem voltado a crescer. E, pior, pode ter efeitos colaterais inesperados, como reviravoltas políticas e calotes generalizados.

Se a Europa tivesse uma estrutura institucional melhor, se os compromissos de ajuste de longo prazo da Grécia fossem críveis, a Alemanha não teria como justificar sua pressão por ajustes agora.

Mas cada país é soberano para descumprir cartas de intenções ao FMI e para dar calote em suas dívidas quando achar melhor.

Resumindo: o nó europeu é institucional – mais do que econômico. Sem aumento de gastos (de governos, famílias ou empresas) no horizonte, a crise não tem perspectivas de acabar no curto prazo: ainda vai durar muitos anos.

E ela pode piorar se alguém espirrar mais forte na Espanha ou na Itália…

Europa: pelo caminho mais difícil.

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