A cabra vadia e a nova política econômica

outubro 5, 2012

Entrevista fictícia com o Guru Maior do governo para assuntos econômicos.

O Guru encontrou o repórter de OS MOSCOSOS em um terreno baldio, à meia noite de ontem.

Preservando a tradição rodriguiana, uma cabra vadia foi levada para testemunhar o encontro.

O entrevistado – também segundo a tradição – não mentiu em nenhuma resposta.

Abaixo, os principais trechos da entrevista:

MOSCOSOS: Por que o Banco Central não explica o que está fazendo com a política econômica?
GURU MAIOR: Porque ele mesmo não tem muita certeza do que está fazendo.

M: O que O BC sabe?
GM: Ele sabe que trocou o câmbio flutuante por câmbio fixo e que trocou a política monetária por política fiscal (que é coerente com o câmbio fixo).

M: Quais os efeitos disso?
GM: O controle da inflação passou a ser feito pelo Ministério da Fazenda, que é quem implementa a política fiscal.

M: Como está a implementação da política?
GM: Difícil: como boa parte dos países ricos está em recessão e os juros estão baixos lá fora, há um grande estímulo para a entrada de dólares no país. Isso faz com que seja difícil para o governo fixar o câmbio.

M: O que o governo está fazendo para travar o câmbio?
GM: Para inibir a a entrada de dólares, o governo adotou impostos altos para movimentação de dinheiro com o exterior (IOF). Mas isso não foi suficiente para conter os investidores que achavam que o Brasil podia ser um lugar com potencial para crescer.

M: E qual a resposta do governo?
GM: Respondemos de forma agressiva, com intimidação. Mudamos várias regras sobre tarifas e avisamos que poderíamos mudar muito mais. A incerteza e a constante mudança de regras são mais eficazes que impostos altos para espantar os investidores.

M: Então está resolvido?
GM: Não. A política de criar incertezas e afugentar investidores levou à queda do investimento e do crescimento econômico. Criamos um problema maior que o que tínhamos antes.

M: E como estão resolvendo esse problema?
GM: Baixamos os juros, estamos emprestando dinheiro do Tesouro (via BNDES) com taxas abaixo da inflação e criamos mecanismos para afrouxar a política fiscal que contornam os registros de superavit primário (empréstimo ao BNDES, desconto de investimentos públicos da meta, nova “conta movimento” para Caixa Econômica e Banco do Brasil).

M: E funcionou?
GM: Mais ou menos – e teve efeitos colaterais. Mesmo com taxas baixas, a incerteza continua afugentando os empresários. Foi um erro grave aumentar a incerteza em uma época que já era incerta por conta da crise internacional. Para segurar o câmbio, condenamos o investimento.

M: Por que fizeram isso?
GM: Seguimos as sugestões de um grupo de industriais de São Paulo que são nossos amigos há muito tempo. Eles disseram que isso seria muito bom para eles.

M: E o que deve acontecer agora?
GM: Falar sobre o futuro é sempre difícil. Mas a crise na Europa é previsível: se a Alemanha insistir em obrigar os vizinhos a cortar despesas, a recessão vai piorar e há chance de haver revolta social – com possível saída de países da Área do Euro.

Isso contribui para o aumento da recessão lá fora.

Mas o mais difícil é prever o que vai acontecer aqui dentro. Como já anunciamos nossas políticas de aumento da incerteza, como já dissemos que vamos mudar regras de acordo com as conveniências, fica difícil voltar a trás. Ninguém ia acreditar se anunciássemos que íamos parar de repente com nossas políticas setoriais.

Então tudo aumenta a incerteza. O BC, por exemplo, não admite publicamente que sua política é de câmbio fixo. O efeito disso é que os documentos que produz – que balizavam as expectativas do mercado – perderam o sentido: não podem mais ser levados a sério como avaliação do cenário futuro.

M: Vai ficar pior?
GM: Não sei. Abandonamos as metas de inflação: os juros não são mais fixados para segurar os preços. O que segura a inflação hoje é o câmbio fixo e a recessão internacional. Com nossa política de incerteza, é improvável que a economia cresça no médio prazo. Ela pode crescer um pouco ano que vem – como efeito da queda dos juros. Mas, como ninguém investe, há a chance de que a queda dos juros estimule a demanda e não haja aumento de oferta para atender essa demanda. Se isso acontecer, teremos inflação.

M: O que fazer então?
GM: Para os empresários, a melhor alternativa é não investir. Porque, no médio e longo prazo, há poucas chances de a economia crescer. Eles vão aplicar em títulos indexados à inflação. Vão poupar porque, num futuro cada vez mais incerto, vale a pena ter uma reserva maior: guardar o dinheiro em vez de comprar máquinas para aumentar a produção.

M: Há alguma chance de reverter esse cenário?
GM: É muito difícil. Depois que se começa a política de incerteza, é difícil voltar atrás. Os investidores não vão acreditar se dissermos que não vamos mais mudar as regras do jogo para atender os amigos. A nossa falta de credibilidade vai derrubar os investimentos e frear a economia. Curioso, mas é um caso que não se encontra em livro texto de economia. Talvez o Brasil vire um caso de referência para o estudo de economia heterodoxa no futuro.

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