A volta da dor de cabeça

setembro 24, 2012

Subdesenvolvimento não se improvisa. A frase, do velho Roberto Campos, ganha ares de novidade sempre que o governo adota uma nova “política inovadora” para a economia.

Nossos profissionais dessa área agora apostam na falta de comunicação. Hoje, diferente de há três, dez, ou doze anos, não se sabe qual é o modelo de política econômica do país. Oficialmente o câmbio é flutuante – mas o Banco Central o mantém extra-oficialmente fixo entre R$ 2,00 e R$ 2,05. A política monetária é baseada – oficialmente – em um regime de metas de inflação. Mas nenhum analista acredita que meta será cumprida este ano, ou no próximo. Ela também não foi cumprida nos últimos anos.

Há quem diga que o governo parou de mirar na meta e passou a mirar no topo do intervalo de tolerância para a inflação (6,5%). Mas o BC não admite que esteja fazendo isso.

O preço da gasolina é arbitrado pelo governo, o da luz também – e o investimento… O investimento não acontece porque, com toda essa indefinição em relação ao que o governo está fazendo, ninguém vai tirar o dinheiro do banco para pôr em um negócio.

O último que tentou, abriu uma concessionária de carros chineses e viu o governo, de um dia para o outro, criar uma sobretaxa de IPI de 35% especialmente para ele.

Para quem tem dinheiro, hoje, a boa é aplicar em alguma coisa indexada à inflação.

Essa política de grandes doses de intervenção e mudanças tributárias abruptas (alíquotas de IOF para importados, IPI reduzido para empresas amigas, créditos especiais do BNDES abaixo da inflação) nos aproxima, lentamente, de nosso vizinho do sul. Sim, nós estamos copiando a Argentina de novo – como fazíamos nos anos 80.

Isso é especialmente estranho se olharmos para os resultados desse tipo de política em nosso vizinho: inflação de 25% ao ano, estagnação econômica, extinção do câmbio oficial (não se pode nem usar cartão de crédito internacional)…

Quem mandou votar – de novo – na Cristina?

Mas se, por um lado, é assustador ver nossa argentinização, por outro, isso ajuda a entender como foi possível que a Argentina afundasse tanto. Foi aos poucos, como com o sapo na panela. Foi reagindo – sem planos – a cada evento em separado. Foi atendendo – em separado – a cada pedido de empresa aliada. Foi trocando – um por um – os técnicos do ministério da Fazenda por lobistas de empresas. Foi atropelando – com cada vez mais força – os mecanismos institucionais de controle do executivo.

Mas se, no curto prazo, controles de câmbio e políticas ultra-setoriais parecem funcionar, no longo (pelo menos na Argentina) resultam em panelaço.

Assustador, mas parece que o velho Efeito Orloff está de volta. Parece que nossos vizinhos aturdidos podem, de novo, olhar para nós e dizer: “Eu sou você amanhã!”

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