O diabo em Moscou

abril 17, 2012

Devia ter escrito isso há mais tempo. Há algumas semanas, doente, achei na estante uma edição americana de Mestre e Margarida, de Mikhail Bulgakov. No livro – escrito em Moscou no auge do stalinismo – o diabo, em pessoa, visita a cidade.

Não é fácil ser o diabo em um país oficialmente ateu. Seus assistentes têm, de tempos em tempos, que explicar a seus interlocutores que não vão prendê-los, que não são da polícia secreta.

Mas não foi por isso que achei que valia a pena resenhar um clássico russo no meio de posts sobre economia a atualidades.  É porque o livro é uma espécie de experiência religiosa, até para os céticos. Bulgakov nem se deu ao trabalho de tentar faze-lo passar pela censura. Sabia que seria obra póstuma. Sem problema: “os manuscritos não queimam”, diz o diabo, já quase no fim do livro.

No primeiro capítulo, “Não fale com estranhos”, o diabo aparece e interrompe uma conversa entre um escritor com cara de esfomeado e seu editor – que encomenda um verso sobre a não existência de Cristo. – Nunca existiu. É uma colagem de mitos de várias origens – garante o editor.

O sujeito estranho que se mete na conversa – por acha-la interessante – dá um passo além de Dostoievski:  – mas se deus não existe, então quem está no controle?

– O homem, responde o editor.

O diabo, que afinal de contas é o diabo, descreve então a sequência de coincidências que vai fazer com que o editor seja decaptado por um bonde em alguns instantes.

Se não dá para saber se você vai estar vivo para jantar, você controla o quê?

O editor, crente que está falando com um louco, vai atrás de um telefone para chamar o órgão estatal encarregado dos loucos. Antes que termine de atravessar a rua, uma mulher sem querer derrama o óleo que está carregando, o editor escorrega e vai praticamente sendo arrastado para os trilhos…

Mas isso não dá ainda uma boa ideia do livro. O diabo quase não fala na história, Cristo, outro personagem, menos ainda. Mas quando falam, são deus e o diabo falando, como só os escritores de verdade sabem fazer.

Engraçado que boa parte das bruxarias e personagens míticos que enchem os cinemas desde Harry Potter já estavam lá. O diabo e sua entourage, deixariam Voldemort morrendo de medo. Cheio de referências escondidas (realmente fiquei com vontade de ler as notas no fim do livro), Mestre e Margarida tem ainda personagens simpáticos como Behemoth – bem humorado gato falante capaz, literalmente, de arrancar cabeças. É ele quem ilustra a capa de quase todas as edições do livro.

O livro enterra o stalinismo para sempre. A Rússia dos anos 30 é descrita com uma ironia tão seca que sobra pouca coisa. Das disputas para ocupar apartamentos – controlados por administrações locais corruptas – às regalias para escritores pró-regime, pouca coisa escapa.

Bulgakov, o escritor perseguido que não conseguia fazer suas peças serem encenadas e seus livros publicados, no fim, vence, mesmo depois de morto. Quem leu o livro sabe que, para ele, esse é um bom final.

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