Turismo na crise

abril 15, 2012

A culpa é do editor – que o mandou viajar – mas o resultado da viagem é quase um novo gênero literário: o turismo de crise.  A ideia é simples: o país x está afundando na lama? vá lá dar uma olhada de perto.

Boomerang, de Michael Lewis é isso: um close na lama, com boas tentativas de explicar como ela se acumulou. Lewis tem prática no assunto. Seu primeiro livro, Liar’s Poker, é uma descrição – feita por um ex-trainee assustado – de como funciona um banco de investimento nos Estados Unidos. A visão é assustadora: todas as acusações feitas hoje a Goldman Sachs e similares já eram aplicáveis ao finado Solomon Brothers  nos anos 80 (da grosseria dos técnicos ao hábito de enganar clientes).

Lewis seguiu em frente lançando boas descrições da crise imobiliária americana (The big short) e livros até sobre esportes. Sua temporada européia rendeu a seguinte teoria: na época da criação do Euro, vários países se viram em uma espécie de quarto escuro cheio de dinheiro – dinheiro para se afundar, sem ninguém olhando. Cada um usou o crédito barato de um jeito. Depois veio a conta.

Lewis começa pela Islândia, que com seus 300 mil habitantes, deixou de ser um país para virar um fundo de headge gigante. Ele se hospeda em um dos hotéis espalhafatosos para milionários criado no auge da bolha – e hoje quase vazio – e entrevista um ex- capitão de navio pesqueiro que virou operador de câmbio. O ex-capitão era uma referência na pesca em alto mar, um dos melhores. Mas decidiu viver de pegar empréstimos no Japão (juros baixos), comprar moeda islandesa e emprestar a juros mais altos. Com a crise, a moeda da Islândia se desvalorizou, transformando o “lucro garantido” do negócio em prejuízo impagável. O autor não tem pena: “você passou anos estudando para ser capitão. Para virar um bom capitão, passou mais alguns anos trabalhando com um dos melhores e achou que podia virar operador de câmbio de um dia para o outro?” Segundo Lewis, foi isso, em escala ampliada o que aconteceu com o país.

O capítulo seguinte, “e eles inventaram a matemática”, é sobre a Grécia. Lá o problema não foram os bancos – eles até se comportaram bem. Lá, quem se afundou em empréstimos foi o governo (com consultoria da Goldman Sachs).

Além de conversas com fiscais da receita federal grega – que explicam como ninguém paga imposto no país e como quem tenta cobrar é punido pelos chefes – Lewis visita um mosteiro tradicional, com monges ultra-espartanos, que foi o estopim da crise grega.

A crise começou oficialmente quando o governo antigo caiu e o novo descobriu a que nível a contabilidade pública estava maquiada. O governo tinha se comprometido com despesas que nunca teria receita para pagar – e ia financiando o buraco com empréstimos. O governo anterior teria durando mais um pouco, não fosse pelo escândalo dos monges.

De uma hora para outra, o mosteiro espartano passou a ser dono de uma quantidade enorme de imóveis no país, de elefantes brancos, como os construídos para a olimpíada grega, a coisas mais úteis. Apesar de – segundo Lewis – ninguém pagar imposto na Grécia e até para ser atendido em hospital público ser preciso pagar propina – a população ficou indignada com a história dos monges e derrubou o governo.

Na Irlanda a história foi mais parecida com a americana. Diante do quarto escuro cheio de dinheiro, os irlandeses decidiram comprar a Irlanda, uns dos outros. E a especulação com o preço dos imóveis disparou. Imigrantes poloneses iam ao país para trabalhar na construção civil – e abandonaram seus carros financiados no estacionamento do aeroporto quando as construtoras quebraram.

Um ingrediente curioso da crise irlandesa foi que, orientado por um parecer da Merrill Lynch (garantindo que a conta fechava), o governo se comprometeu a cobrir todas as dívidas dos bancos que quebrassem. Todas as dívidas quer dizer até debêntures dos bancos, não só o dinheiro nas contas dos clientes. E os bancos – que tinham passado a financiar com entusiasmo a compra de imóveis e as construtoras locais – quebraram. O resgate dos bancos fez a dívida do governo passar de 100% do PIB.

Como em seu livro sobre a crise americana, Lewis se diverte indo atrás do economista que avisou – em artigos de jornal – que aquilo estava acontecendo e foi tratado como um excêntrico dizendo abobrinhas.

Da Irlanda ele vai para a Alemanha, que financiou todos os quebrados. Emprestar irresponsavelmente para quem não tem como pagar também é um problema. E a conta também chega. Foi sua chance de conferir o final de uma das histórias de seu outro livro, o big short. Quando, no auge da bolha imobiliária, ninguém mais comprava títulos imobiliários e seus derivados, havia um último comprador. No livro anterior, os banqueiros americanos diziam apenas “Dusseldorf” quando alguém queria saber quem comprava aqueles papéis. Lewis foi atrás do banco de Dusseldorf que fez a lambança.

Há um capítulo sobre estados e municípios americanos quebrados. Lewis entrevista o famoso ex-governador do estado mais quebrado de todos: Arnold Schwarzenegger. Ele é até bonzinho com o ex-exterminador. Segundo ele, os californianos querem bons serviços públicos, mas não estão dispostos a pagar por eles – e o estado vai continuar quebrado.

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