Existe felicidade externa líquida?

março 24, 2012

Para repórteres e editores de jornal, é difícil distinguir algumas cascatas assustadoras de pesquisas acadêmicas sérias. Repórteres são generalistas. Quando um professor de universidade (de uma das mais famosas) diz para um deles que o PIB mede a riqueza do país, ele acredita.

Mas isso não justifica a sucessão de delírios da matéria abaixo. Os repórteres deviam ter consultado alguém que não estivesse só querendo vender peixe (de frescor nível 2), deviam ter consultado alguém isento.

A castata do Butão – tema da matéria de capa do caderno de economia do Estadão de hoje – é uma cascata antiga, ressuscitada sempre que a renda dos países começa a crescer pouco. O nome da cascata: Felicidade Interna Bruta (FIB), é uma referência direta ao Produto Interno Bruto mas, fora a citação, não significa absolutamente nada. Afinal, existe felicidade líquida? E felicidade  interna, quer dizer o quê?

O mais fácil, para dar ideia da sequência de delírios, é comentar a matéria que – me desculpem os autores e editores – é séria candidata ao prêmio de pior do ano, na categoria lobby e propaganda.

Bom, os trecho entre chaves são os comentários, o resto é o texto do jornal:

Índice vai medir felicidade do brasileiro

Metodologia desenvolvida pela FGV-SP leva em conta o grau de preocupação e satisfação da população, deixando a riqueza econômica em segundo plano

A riqueza do País pode começar a ser medida de outra forma [Outra? Mas não há nenhuma medida de riqueza no Brasil hoje. Não se conhece o valor do estoque de ativos – também conhecido como riqueza – do país]. No lugar do Produto Interno Bruto (PIB), a Felicidade Interna Bruta (FIB) [O PIB é uma medida de geração de renda, não de riqueza]. A Fundação Getúlio Vargas de São Paulo (FGV-SP) está empenhada na elaboração da metodologia do novo índice. A intenção é fornecer os resultados ao governo federal para auxiliar no desenvolvimento de políticas públicas [O governo vai pagar por isso? encomendou isso? ou a frase quer dizer que o produto não tem comprador?].

O FIB já existe no Butão, um pequeno reino incrustado nas cordilheiras do Himalaia [com renda per capta de US$ 6mil por ano, ajustada para paridade do poder de compra]. Lá, o contentamento da população é mais importante que o desempenho da produção industrial [só para não deixar dúvida: a produção industrial representa menos de 30% do PIB no Brasil]. O índice pensado pela FGV, no entanto, não será tão radical. “O PIB estará entre os componentes do cálculo”, esclarece Fábio Gallo, professor da FGV-SP que, ao lado de Wesley Mendes, encabeça o desenvolvimento do estudo.

O PIB é considerado por diversos especialistas [quais? especialistas em quê?] um índice incompleto. Dados como o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) ou o nível de segurança das cidades não são contabilizados [o PIB mede geração de renda, não qualidade de vida]. Portanto, listar o desempenho dos países pelos bilhões acumulados com produção industrial e comercial [de novo: PIB não é só indústria e comércio, nem é produção: é valor adicionado], por exemplo, é, para esses especialistas, uma distorção da realidade [para ver quanto foi gerado de renda, serve. O número não é uma panacéia, não foi desenhado para ser a medida de todas as coisas].

“Elaborar o índice que queremos é algo complexo. São muitos dados subjetivos [vão usar dados subjetivos? e o resultado, vai ser subjetivo também?] que variam de Estado para Estado”, explica Gallo. Num país do tamanho do Brasil, com regiões muito diferentes, a tarefa fica ainda mais complicada. “Tudo será sob medida para cada uma das regiões [vão usar questionários diferentes em lugares diferentes? e depois dizer que as respostas são comparáveis?]. Dessa forma, chegaremos a bons resultados, que reflitam a situação real do País”, completa Mendes.

Os professores dizem que a inclusão no PIB de gastos feitos para compensar danos ambientais causados pelo setor produtivo distorcem o resultado, uma vez que elevam o total de riqueza do País [riqueza à parte, a renda gerada em atividades ecológicas é menos renda que as outras?]. Outros desembolsos, como para a reconstrução de uma cidade atingida por um desastre natural, também são criticados por entrarem na conta [Um país que gera renda reconstruíndo, então, não deveria ser considerado como gerando mais renda que um igual que deixa tudo em escombros? Os salários dos operários não são renda?] .

O primeiro passo do desenvolvimento da metodologia do FIB já foi dado pela FGV, e mostra que a riqueza econômica não é o principal fator de felicidade da população. Um questionário com jovens adultos de São Paulo e de Santa Maria, pequena cidade no interior do Rio Grande do Sul, mostrou que o índice de satisfação dos jovens gaúchos é 22,5% maior que o dos paulistanos [tenho inveja desse nível de precisão]. Entre os 11 aspectos de vida estudados, os mais relevantes para a percepção de satisfação foram vida social, situação financeira e atividades ao ar livre.

Ainda de acordo com a primeira etapa da pesquisa, a principal preocupação dos paulistanos é com segurança pessoal, enquanto a principal satisfação é com perspectivas de crescimento acadêmico. Entre os gaúchos,a preocupação é com as expectativas de conseguir um bom trabalho. A satisfação é com a boa vida social. “Sociedade feliz é aquela em que todos têm acesso aos serviços básicos de saúde, educação, previdência social, cultura, lazer”, afirma Gallo.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: