O BC amarrado

março 1, 2012

Ninguém precisa esperar até a semana que vem para saber que o Banco Central vai reduzir os juros – e que isso vai nos trazer uma inflação mais alta este ano.

Mas a culpa não é do BC: é da teoria econômica. Os modelos que descrevem como a economia do Brasil funciona estão no grupo dos modelos de “pequena economia aberta”. E uma das características dessas pequenas economias é que elas não têm muita autonomia para fixar as próprias taxas de juros.

Os juros, na pequena economia aberta, são iguais aos do resto do mundo somados a um prêmio de risco e a uma expectativa de desvalorização da moeda. E é isso.

Hoje, os juros nos EUA são zero, na Europa são 1%, na Inglaterra 0,5% e no Japão, 0,1%. Se descontarmos a inflação, os quatro devem ficar com juros negativos este ano.

A expectativa em relação a real é que se valorize. O BC daqui gasta bilhões todos os anos para conter a valorização. E o prêmio de risco do Brasil está baixo – mesmo com as medidas surpresa e com as declarações estranhas do nosso ministro da Fazenda.

O resultado: se o BC insistir em manter os juros altos, o caminhão de dinheiro – uma boa parte do estoque de ativos – que circula mundo a fora vai se mudar para cá, vai vir  atrás de um rendimento melhorzinho. Isso valoriza o real (como temos visto). Se valorizasse só um pouco, tudo bem. Mas a tendência é que o dinheiro continue entrando até que o rendimento de aplicar aqui fique igual ao de aplicar em outros lugares (descontado o prêmio de risco).

O seja: não tem jeito, o BC vai cortar os juros.

Graças ao descontrole eleitoral de 2010 e à dificuldade do BC em fazer o ajuste que devia ter feito no início de 2011, a inflação está alta. E o governo não consegue mais usar sua principal ferramenta para reduzi-la. O que fazer então? Usar outra ferramenta. Se não dá para forçar a demanda privada para baixo com os juros, resta reduzir a demanda pública, quer dizer: cortar os gastos do governo.

Isso, como sempre, é fácil de falar. Mas numa terra em que o  que mais falta é serviço público (educação, saúde, segurança etc.) cortar gasto é, no mínimo, complicado.

O que o governo (e isso parece uma daquelas idéias do Mantega) está fazendo? Bom, eles estão fazendo o ajuste fiscal via inflação. Como a receita do governo é principalmente de impostos que incidem sobre vendas, renda e valor de ativos, essa receita sobe quando os preços sobem. E, como a despesa do governo não sobe necessariamente no mesmo ritmo, deixar a inflação subir – no curto prazo – melhora a relação entre receita e despesa da administração pública.

Os funcionários públicos – em cima de quem o ajuste é feito – não ficam muito satisfeitos. Alguns dos melhores simplesmente arrumam outro emprego. Outros saem atrás de bicos, consultorias, frilas e afins.

Não é uma solução das mais brilhantes, mas é o que estão fazendo.

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