A crise, segundo Chicago

fevereiro 4, 2012

A ortodoxia econômica não é mais o que era antigamente. Essa é a primeira conclusão que se tira de Fault lines, livro do ex-economista-chefe do FMI e professor, há décadas, da escola de negócios da Universidade de Chicago, Raghuram Rajan.

Antigamente, os economistas de Chicago defendiam teses como a das expectativas racionais – que não dão muito espaço para bolhas imobiliárias. Segundo essa teoria, o mercado faz com que todo tipo de bem ou ativo seja negociado ao preço mais adequado, dadas as informações disponíveis no momento. Quer dizer: ninguém estabelece preços tão bem quanto o mercado. Agora, podemos ler no livro de Rajan que as bolhas se desenvolvem a partir de uma “teoria do tolo maior” (“‘greater fool’ theory”), segundo a qual mesmo quando ativos estão com seus preços muito inflados, vai haver quem os compre para tentar vender por preços ainda mais inflados (página 112, na edição de bolso).

O bom do livro é ver Rajan defender a melhora do acesso dos pobres à educação de qualidade. Segundo ele, nos EUA, o nível médio de escolaridade da população parou de crescer nas últimas décadas. Isso seria a principal causa para o aumento da desigualdade de renda no país. Mas o lado social de Rajan para por aí: a maior desigualdade teria levado o governo a estimular a oferta de crédito a famílias de baixa renda e daí para a bolha de ativos seria uma história conhecida. Quer dizer: o governo é o culpado pela crise. O Banco Central, baixando os juros, e o executivo, pressionando por facilidades no financiamento habitacional, seriam os grandes culpados.

Rajan fala sobre bancos, sobre os empréstimos Ninja (no income, no job, no assests etc.), mas chega quase a dizer que os bancos são assim mesmo, que se há de fazer…

Em um trecho que provavelmente lhe garantiu o prêmio Goldman Sachs de melhor livro de negócios de 2010, ele lembra que os ricos de hoje são trabalhadores (“working rich”) e não mais ricos ociosos, como no século XIX. E um dos exemplos de “working rich” que cita é Lloyd Blankfein, presidente do banco Goldmans Sachs (página 26). Não custa lembrar: o Goldman foi um dos maiores negociadores de títulos imobiliários podres e de seus derivados nos anos pré-crise, quebrou a seguradora AIG negociando esses títulos. O banco se destacou tanto no ramo que inspirou os roteiristas de Wall Street 2 a criar o banco fictício do filme, o Churchill Schwartz.

Mas a parte mais involuntariamente engraçada do livro é o trecho em que Rajan defende os banqueiros por voltar a pagar a si mesmo bônus milionários após a crise. Resgatados da falência pelo governo – e vendo em volta a economia entrar em crise, com desemprego em alta e perspectivas assustadoras – executivos de banco não deixaram passar: bônus gigantes por favor!

Rajan começa seu argumento lembrando como, em várias profissões, o dinheiro é apenas parte do que motiva as pessoas a trabalhar. Fala sobre como, na maior parte delas, há a satisfação de ver alunos aprenderem ou pacientes recuperarem a saúde. Ele passa quase quatro páginas falando sobre isso – e conclui que, nos bancos, a única medida de valor do trabalho é o dinheiro ganho.

Rajan defende seus ex-alunos banqueiros – que considera mais espertos que a média de seus ex-alunos – com o seguinte trecho: “Não tenho dúvida de que continuam sendo decentes e preocupados seres humanos. Mas porque o seu negócio tipicamente oferece poucos pilares em que podem ancorar sua moralidade, sua principal bússola passa  a ser quanto dinheiro ganham. A  imagem de banqueiros caçando bônus logo após serem resgatados pelo governo foi não apenas ultrajante, mas digna de pena – digna de pena porque  eles estavam clamando para que sua principal medida de valor (self-worth) e de status fosse restaurada.” (página 126)

Vai dizer isso para os desempregados com seguro-desemprego cortado por conta do tempo de recebimento. Vai falar com eles sobre medidas de self-worth

Menos pró-milhonários, mas não muito menos...

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