Freio europeu (made in Germany)

dezembro 18, 2011

Quando o dinheiro acaba, ainda dá para pedir emprestado. Mas quando o dinheiro acaba e os bancos começam a olhar torto e a negar empréstimo, só há duas alternativas: dar um jeito de ganhar mais ou cortar despesas.

Essa lógica de economia doméstica também funciona para um país. A Grécia, por exemplo (que não tem como crescer e “ganhar mais”), vai ter que cortar gastos públicos. Você emprestaria hoje suas economias para o endividado governo grego?

Mas se funciona para um país ou outro, isso não funciona para muitos, pelo menos não se todos forem cortar gastos ao mesmo tempo.

Essa ideia infeliz, proposta pela dupla Merkel-Sarkozy para a Europa, vai frear a economia européia, aumentar o desemprego, diminuir a arrecadação e, sim, piorar a crise.

Mas por que então eles estão propondo isso? Bom, do ponto de vista financeiro faz sentido: se a projeção de longo prazo para a dívida é ruim para todo mundo, é preciso cortar, recuperar a credibilidade com os emprestadores e – depois – voltar a crescer. Mas do ponto de vista econômico é assutador, porque vai cortar a demanda e, com ela, a produção européia. Vai piorar o que já não está bem.

Há alternativa?

Há. Se a Europa fosse um país, como o Brasil ou os EUA, o governo federal captaria dinheiro e repassaria para os estados mais endividados, permitindo que eles se ajustassem de um jeito mais suave, sem cortar gastos de forma muito abrupta (e sem todo mundo fazer isso ao mesmo tempo).

Os formuladores da União Européia provavelmente tinham isso em mente quando implantaram o Euro. A moeda única tira dois dos principais instumentos dos países para reagir a crises: a possibilidade de desvalorizar a moeda para exportar mais e a de baixar juros como acharem melhor. Sem poder desvalorizar, os países do  Euro precisariam de uma união fiscal, de um Tesouro comum, para adotar uma política econômica comum – compensando parte do efeito do câmbio e dos juros unificados sobre países diferentes.

Na prática, isso implicaria em transferências de recurso dos países mais desenvolvidos da Zona do Euro para os que estão tendo mais dificuldade em rolar suas dívidas. Quer dizer: a Alemanha teria que transferir dinheiro para Espanha, Portugal etc.

Os alemães estão resistindo à ideia. A proposta deles é algo do tipo: “Nós fizemos nossas reformas e estamos bem. Vocês que não arrumaram suas casas que se virem”. Alguém já usou a historinha das Formigas e Cigarras para descrever isso.

O curioso é que as formigas alemãs podem estar cavando o buraco que vai atolar sua economia. Sozinha, a garantia dada pela união fiscal acabaria com os aumentos de juros que têm ameaçado os estados do Euro. Sem ela, e com a recessão made in Germany que vem pela frente, a própria Alemanha se arrisca a um futuro pior do que teria com as transferências para o Tesouro comum (que iriam para os vizinhos endividados).

A impressão é de que, antes de se sentirem europeus, os alemães se sentem alemães. Dar dinheiro a um governo estrangeiro parece ser uma ideia intolerável para eles. Se os estrangeiros fossem ex-alemães do leste, como eram nos anos 90, tudo bem. Mas esse povo que fala outra língua não vai receber um tostão, mesmo que essa decisão leve a Alemanha à recessão por uns anos – e a Espanha a mais de 20% de desemprego.

Itália, Espanha e companhia têm que fazer ajustes estruturais – como aumentar a idade para se aposentar. Mas não agora. Cortar gastos no meio de uma recessão parece contra-intuitivo demais para dar certo.

Como diria aquele ex-ministro (e, só dessa vez, eu concordaria): é preciso fazer o bolo voltar a crescer – e só depois passar a faca nos gastos.

Merkel: "Transferências? De que tamanho?"

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