Teoria conspiratória da política monetária

setembro 12, 2011

Não foi isso o que aconteceu. O Banco Central é independente e toma suas decisões sem consultar o ministro da Fazenda ou a presidente da República. Mas, lendo o noticiário econômico dos últimos dias, dá muita vontade de juntar as pontas e explicar – em uma pequena teoria conspiratória – a queda dos juros, a alta futura da inflação, a alta do dólar e as pressões políticas da indústria paulista sobre o governo.

A história começa com o representante de uma associação de industriais ligando para o ministro da Fazenda e dizendo:

– Eu falei para você que com o dólar baixo assim não ia dar. Nós nos reunimos ontem e decidimos cortar seu financiamento e apoiar o Serra nas eleições.

– Mas o Serra nem vai ser candidato…

– Agora vai.

– Olha, eu já inventei imposto sobre compra no exterior, já aumentei o IOF sobre câmbio futuro, já comprei centenas de bilhões de dólares para segurar a cotação. Não tem mais o que fazer.

– Dá seu jeito. A gente não quer concorrer com empresa estrangeira. Sem dólar caro, não tem financiamento de campanha.

O ministro, que já perdia o sono com o câmbio, ligou então para a presidente:

– Presidente, os caras ligaram e disseram que se a gente não desvalorizar o real eles cortam o financiamento de campanha.

– Mas não dá. A gente já criou imposto sobre compra no exterior, já aumentou IOF…

– Eu sei, eu sei. Mas tem um jeito: se todo mundo acreditar que a economia do Brasil vai pro fundo do poço, que o caos inflacionário vai voltar – com tudo dando errado como nos anos 80 – as pessoas vão começar a comprar dólar, vão começar a mandar dinheiro pra fora. Aí o dólar sobe e os industriais liberam o dinheiro para a campanha.

– Mas aí a gente acaba com a economia.

– Não precisa acabar completamente. A gente pode destruir só um pouquinho…

– Eu não sei…

– É fácil. A gente liga pro Tombini e diz para ele bolar uma desculpa qualquer e baixar os juros amanhã, de um jeito que ninguém previu. Isso vai acabar com a confiança no Banco Central,vai  fazer a expectativa de inflação subir. Só por conta disso, da expectativa de inflação alta, deixa de valer a pena comprar real e passa a valer a pena compra dólar.

– É… Mas, se os juros caírem e o dólar subir, a inflação vai ter dois bons motivos para subir (além do desemprego baixo, do gasto público alto, da renda do trabalho crescendo e do crédito fácil).

– É, mas fazer o quê? É isso ou não ter verba para a campanha ano que vem.

– Mas, se a inflação subir, a gente perde a eleição.

– É eleição para prefeito, o debate vai ser mais sobre rua esburacada e falta de médico em hospital…

– Tá bom, liga pro Tombini. Eu vou fazer um pronunciamento dizendo que já está na hora de baixar os juros. Isso vai acabar de vez com a credibilidade do BC e fazer a corrida para o dólar ser mais forte.  Você pode fazer um pronunciamento também, ou dar uma entrevista…

– Ok. Tá combinado então.

Alexandre Tombini, presidente do Banco Central do Brasil

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Uma resposta to “Teoria conspiratória da política monetária”

  1. rchia said

    Excelente. (A obra de ficção, claro!)
    p.s.: Aumentar o imposto de importação dos carros, depois da disparada do dólar, também poderia entrar na trama.

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