Jornalismo?

abril 5, 2011

Em mais um escândalo tuítico, o Grupo Folha decidiu demitir dois repórteres, um da Folha e outra do Agora, por trocarem comentários “inapropriados” a respeito da cobertura da morte de José Alencar pela Folha.com. Curiosamente, a repercussão do caso não começou com o fato em si – a troca de tuítes -, mas com comentário na coluna da ombudsman da Folha, Suzana Singer.

Na coluna, a ombudsman lembra que a modernidade da blogosfera tem sido uma “fonte de problemas” para o jornalismo, como o diálogo entre os dois repórteres. Afirma que “é insensível jogar na cara do leitor que há obituários prontos à espera do momento de publicação”. Censura a crítica via Twitter a um site da mesma empresa (dos jornais que empregavam os repórteres). E, finalmente, argumenta que contas de jornalistas em redes sociais “não podem ser encaradas apenas como pessoais”.

A pequena seleção de pérolas, produzidas em tom de revelação oracular, já permitiria ao leitor se perguntar se a ombudsman não confunde a independência garantida à sua função com a presunção de que pontos extremamente polêmicos podem ser resolvidos numa canetada.

A jóia da coroa, porém, viria depois.

Carol Rocha, a (ex-)repórter do Agora, conta em seu blog que enviou um email à ombudsman da Folha com comentários a respeito da coluna e da demissão. Também publica, na íntegra, tanto essa sua mensagem quanto a tréplica de Suzana. Trata-se, na falta de expressão mais erudita, de uma aberração jornalística, que por isso mesmo vai re-reproduzida abaixo [para mais contexto, recomenda-se a leitura da coluna da ombudsman e da mensagem de Carol, disponíveis no blog]:

Carol,

agradeço muito a sua mensagem, mesmo.

Não tenho nada a ver com a demissão, porque não tenho nenhuma participação nas decisões das chefias. Mas posso dizer que lamento muito a saída de vocês e me sinto mal por ter provocado isso com a crítica interna.

Eu acho o diálogo de vocês, no mínimo, inapropriado. Não é legal lembrar o leitor que os obituários estão prontos à espera da morte de pessoas queridas do público, não é certo criticar um outro órgão de imprensa (principalmente sendo do mesmo grupo) nem ressuscitar erros graves recentes.

Mais do que tudo isso, acho importante que os jornalistas se controlem, não coloquem suas opiniões no Twitter a qualquer momento, sem refletir. Já tinha acontecido antes: o próprio Alec criticou no Twitter o caderno de Esporte durante a Copa, a editora de política lamentou a morte errada do Tuma na rede etc.

Não acho que isso seja censura. A Folha tem meios de fazer e receber críticas (painel do leitor, ombudsman, o blog da crítica interna, a seção erramos). Imagina se todo jornalista resolvesse colocar na rede os erros de colegas e desafetos.

Vc gostaria que eu publicasse a sua mensagem no blog da crítica amanhã? A ideia é que ele sirva para discussões internas mesmo.

Na coluna de domingo, vou citar o caso sem identificar você ou o Alec, por isso, não pensei em procurá-los para um “outro lado”. Acho que é melhor assim, mas se vc preferir ter um espaço para responder, me diga.

É reconfortante saber que a ombudsman não teve participação direta nas demissões, mas a digestão do resto não é tão fácil.

A opinião sobre os obituários pré-fabricados pelos meios de comunicação, que já tinha sido expressa na coluna, mantém sua robustez surrealista. Ao que parece, a colunista considera mais “sensível” os veículos fingirem que os obituários de personalidades em idade avançada ou em condição delicada de saúde são elaborados somente após a morte das pessoas, provavelmente por jornalistas superdotados capazes de apurar e resumir 60, 70, 80 anos de história, sem erros, nos cinco minutos entre a confirmação do óbito pelos médicos e a publicação da notícia na internet.

Uma novidade na tréplica, contudo, consegue o prodígio de superar essa gota de sabedoria. Segundo a ombudsman, não é certo criticar um outro órgão de imprensa. Entenderam? De acordo com a ouvidora da Folha, um jornal, digamos, apenas à guisa de exemplo, a Folha de S. Paulo, não deve criticar outro jornal, revista, programa de rádio, telejornal ou site jornalístico, ainda que estes tenham os deveres de cumprir sua função social e respeitar códigos de ética, sem falar no fato de que, no caso específico de rádio e TV, funcionem graças a concessões públicas.

Prática anticoncorrencial? Espírito de corpo? Cara-de-pau?

É, sem dúvida, um caso para ombudsman.

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Uma resposta to “Jornalismo?”

  1. rmoraes said

    Essa ombudsman, pelo jeito, não é muito chegada aos clássicos do jornalismo. O Gay Talesse tem um texto excelente sobre o editor de obituários do New York Times (sim, eles têm um editor só para isso). O sujeito vivia desorientado, sem ter certeza sobre quem ainda estava vivo, justamente porque seu trabalho era escrever obituários para os vivos. O texto – que saiu em português numa coletânea chamada “A arte da reportagem” – é muito engraçado, vale a pena ler.
    Imaginar que os leitores não saibam, ou prefiram não saber como os jornais são feitos, é algo, no mínimo, estranho.

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