Sinais da crise: Atlas revoltado

janeiro 2, 2011

A crise de 2008 foi mais do que anunciada: quem acompanhava o mercado sabia que havia bolha imobiliária, que as contas externas dos EUA eram insustentáveis e que o déficit do governo de lá também tinha uma trajetória, no mínimo, inviável.

Mas, com o conforto de quem olha em retrospecto – depois do início da crise -, dá para ver um outro sinal que devia ter chamado a atenção do público: os elogios rasgados de Alan Greenspan a Ayn Rand.

Em seu livro de memórias, publicado pouco depois que deixou de ser presidente do banco central dos EUA, Greenspan dá dois sinais claros de que não sabia o que estava fazendo: o primeiro é dizer – como diz claramente – que, com o volume e a variedade de operações financeiras desenvolvidas nos últimos anos, não há como fiscalizar o sistema bancário.

Isso, vindo do responsável por fiscalizar os bancos, já seria muito ruim. Fica pior quando ele diz e que os bancos não precisam de uma fiscalização tão rigorosa, que o mercado se encarrega de supervisiona-los.

Eu sei, estou falando em retrospecto, depois da crise. Mas a variedade e o volume de maneiras com que um gestor de banco pode comprometer o longo prazo da instituição em função do bônus que vai ganhar por conseguir mais rentabilidade no curto prazo deviam ter chamado a atenção do “maestro” – como Greenspan chegou a ser chamado por um escritor puxa-sacos do começo da década.

O sinal mais claro de que o velhinho não sabia o que estava fazendo foi seu elogio a Ayn Rand. Greenspan conheceu Ayn Rand. E Rand, escritora russa que emigrou para os Estados Unidos no começo do século XX, é bastante razoável como autora de livros para meninas de 15 anos do século passado. Mas é só isso.

Graças às recomendações enfáticas de Greenspan, comprei Atlas shrugged, tijolão de 1.168 páginas que Rand publicou em 1957. Não fui além da página 100. Os personagens – todos loiros de olhos azuis – se dividiam entre heróis com espírito empreendedor e burocratas hesitantes, no papel de vilões. E nenhum deles, em momento algum, parecia lembrar que o mundo é um pouco mais complicado do que isso.

As explicações de Greenspan para porque os juros não subiram no final de sua gestão no BC americano parecem, hoje, histórias de Ayn Rand. A bolha de ações e imóveis estava embaixo do nariz dele, o consumo crescia acelerado – a poupança das famílias chegou a ser negativa em alguns trimestres – com crédito barato e endividamento descontrolado. E Greenspan, como um daqueles personagens das vésperas da Grande Depressão, dizia que estávamos em um mundo diferente, onde as importações da China garantiam a estabilidade dos preços.

Ele parece Irving Fisher, economista americano que, às vésperas da crise de 29, pôs toda sua poupança em ações e vaticinou: “Os preços das ações atingiram o que parece ser um platô permanentemente alto.” Quer dizer, Greenspan é um mané, mas um mané que controlava a política monetária da maior economia do planeta.

A capa da edição brasileira de Atlas Shrugged (traduzido como A revolta de Atlas) mostra o deus grego carregando o mundo nas costas. Greenspan não era nenhum Atlas, mas deu uma boa sacudida no planeta.

O que se tira de tudo isso? Que precisamos de economistas com melhores referências literárias…

PS. Procurando a capa do livro no Google, para colar aí embaixo, li que vão adaptar Atlas Shrugged para o cinema. Não acho ruim. Como eu disse, é um livro para meninas de 15 anos (não para presidentes de banco central). Ele tem a grandiloqüência e o tom passional daqueles livros de banca de jornal: Júlia, Sabrina e similares.

Rand: Um mundo simples, como aqueles de extrema esquerda que vendiam livros nos anos 60.

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