Sapo

novembro 19, 2010

“Agora, com Cristina, acho que as coisas vão mudar.”

Ouvi essa frase de uma funcionária do Indec, o IBGE argentino, pouco depois da eleição de Cristina Kirshner para suceder seu marido na presidência. Na época, achei um delírio. Era preciso ter muita vontade de acreditar para achar que Cristina mudaria a política de maquiagem de dados adotada no governo que ela continuaria.

Na Argentina, pelo jeito, tudo é possível. O que acho estranho é a mesma coisa acontecer com o Brasil.

Bons analistas discutiram por algum tempo a chance de Dilma indicar um nome razoável para o Ministério da Fazenda, alguém capaz de mudar a política de maquiagem do superavit primário e de descontrole fiscal adotada por Guio Mantega nos últimos dois anos.

Bom, Dilma convidou Mantega para continuar no cargo e já começa a discussão sobre a autonomia do Banco Central para fixar os juros num nível que mantenha a inflação sob controle. Mantega – é bom lembrar – está entre os que, mesmo fazendo parte do governo, reclamava das taxas de juros fixadas pelo BC.

Um dos bons professores que tive na faculdade costumava explicar como boa parte dos investidores perde seu dinheiro no mercado de ações. Eles são como um sapo. Atirado sobre uma panela de água fervendo, o sapo sequer encosta na água: ele se contorce, esquiva, estica mais as patas e passa longe da fervura.  Nunca fiz a experiência, mas confio na metáfora do professor.

Bom, o problema é quando se põe o sapo na panela com a água fria e se acende um fogo bem fraco em baixo. A água vai ficando quentinha, o sapo relaxa, pensa no mar do nordeste e aproveita o bom banho quente. Depois, a água começa a ficar um pouco desconfortável – mas não muito – e, quando se dá conta, o sapo já não consegue sair de lá.

A má política fiscal do governo Lula começou com a desculpa de que era uma política contra-cíclica para combater a crise, em 2009. A crise no Brasil passou: a expectativa é de qua a economia cresça mais de 7% este ano. Mas o déficit nas contas do governo continua aumentando. Essa política segue (impune) porque há um grande fluxo de dinheiro externo vindo para o Brasil por conta da crise nos EUA e na Europa.

É esse fluxo de dinheiro que permite que o governo faça lambanças sem sentir as consequências no curto prazo.

Mas a conta sempre chega – e poucos vão ter perna para sair da panela quando ela chegar.

Uma das coisas para ficar de olho é a inflação. Outra, o crescimento da dívida bruta do pais. A terceira, mais difícil de medir, é a queda da produtividade da economia. Ela é um dos efeitos de se pegar centenas de bilhões de reais emprestados no mercado e repassar, via BNDES, a empresas amigas.

Essas políticas foram defendidas – com entusiasmo – pelo atual ministro da Fazenda. É bastante improvável que mudem se ele continuar no cargo.

(Já posso imaginar Mantega, em um Momento Zagalo, gritando para a esplanada: “Ha, ha, ha! Vão ter que me engolir!”)

Governo Dilma: já começando a nos cozinhar.

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