Crime em grande escala

outubro 8, 2010

Uma das vezes em que roubaram meu relógio – foram duas, quando era adolescente – parei para pensar em como aquilo era ineficiente: além das ameaças do assaltante e de toda sensação de ter algo seu levado à força, me irritei pensando que o ladrão ia vender o relógio por muito menos do que ele tinha me custado. O que ele ganhava com o roubo era bem menos do que eu perdia.

Até hoje me espanto vendo cenas parecidas. E hoje topei com uma em grande escala. Não vou enfastiar ninguém com os detalhes mas, em um conhecido instituto de pesquisa econômica aplicada, vi hoje uma das apresentações mais toscas de que já tive notícia sobre a economia do Brasil. Os apresentadores já tinham claramente um pacote de políticas que queriam vender – e faziam contorcionismos curiosos para tentar justificá-las.

Seu desinteresse em entender o que está acontecendo na economia era tanto, que não davam atenção às rebatidas da platéia. Por exemplo: um dos apresentadores passou um bom tempo reciclando uma tese antiga sobre como a indústria estaria usando mais componentes importados e como isso – segundo ele – teria resultados terríveis para o futuro do país. Um dos economistas na platéia reclamou: “Mas, olhando para os dados da balança comercial, o que mais tem crescido é a importação de máquinas e equipamentos, não de insumos para a indústria.”

Já vi os dados. E é isso mesmo. Mas o apresentador continuou sua ladainha com frases que – mesmo para os versados em economês pós-keinesiano – não faziam o menor sentido.

Mas esses manés que foram postos lá no instituto de pesquisa fizeram pelo menos uma coisa boa (foi só uma mesmo): me ajudaram a definir meu voto no segundo turno.

Afinal, a conclusão do discurso deles é que cortar gastos públicos não ajudará a conter a alta do real nem terá nenhum efeito positivo sobre a economia. Em seu momento mais ideológico, um deles chegou a dizer explicitamente: “Nos anos 90, se achava que o setor privado deveria puxar a economia e tomar as decisões de investimento. Agora achamos que é o setor público quem deve fazer isso. E a população está apoiando políticos que dizem isso.”

Esses manés me convenceram de que o discurso à Geisel de Dilma Rousseff não é sinal de burrice, é maldade mesmo. Eles sabem perfeitamente que estão enrolando o público. Hoje, listaram abobrinhas tão esdrúxulas quando o “déficit comercial setorial”, idéia criada por algum lobista que nunca leu David Ricardo (e que só os lobistas mais toscos têm cara-de-pau para repetir).

Esses manés estão por trás do discurso de Dílma de que o déficit das contas públicas não é um problema. São eles que defendem os empréstimos super-direcionados do BNDES e impedem que uma boa política fiscal (controle de gastos) permita que o país tenha juros menores.

E, se esse discurso ultra-intervencionsita ganhar mais espaço no governo, a economia do país vai perder muito mais do que esses lobistas vão ganhar….

O candidato da oposição tem três semanas para me convencer de que não vai também atrás dos lobistas de Campinas. Se não conseguir, só me restará o voto nulo.

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