Por que os EUA vão crescer pouco

agosto 29, 2010

É difícil ser isento quando se é parte interessada em alguma discussão. E os economistas não são exceção: bons economistas já foram vítimas do tal wishful thinking, que, na prática, significa tomar decisões achando que o futuro vai ser como você quer, e não como uma análise menos interessada ou otimista parece indicar que vai ser.

Esta semana foi a vez de Paul Krugman, Nobel de economia e colunista do New York Times, fazer essa besteira. Eu seu artigo sobre a recuperação da economia dos EUA, Krugman desanca o governo de lá por não ter feito o que ele, Krugman, disse que devia ter feito há mais ou menos um ano. É um artigo do tipo “Eu não te disse? Eu não te disse?!”.

Mas a virulência de Krugman fica um pouco engraçada se pensarmos que ele está errado.

Krugman reclama que a economia dos EUA está crescendo pouco, agora que o IBGE de lá reviu para 0,4% o crescimento do segundo trimestre sobre o primeiro. Nesse ritmo, segundo ele, o desemprego não vai diminuir.

Ok. Pode até ser que o desemprego não caia. Mas isso não é motivo para sair tomando decisões erradas como pressionar mais a China para valorizar sua moeda (uma das propostas de Krugman).

A principal razão porque o crescimento nos EUA vai ser baixo nas próximas décadas é que os americanos passaram um bom tempo vivendo acima das suas posses. Achavam que seus bens valiam muito mais o que valem e gastavam por conta. Agora, eles começam a perceber que apartamentos de dois quartos por US$ 1 milhão são uma coisa meio irrealista. Os preços de imóveis, ações e outros ativos vão continuar caindo na medida em que os estímulos temporários do governo forem sendo cortados. Os americanos, percebendo que não têm uma poupança tão valiosa quanto pensavam, vão consumir menos e poupar mais (o que é muito bom no longo prazo). Mas o efeito colateral dessa decisão simultânea de milhões de pessoas será menos consumo.

Quer dizer: o governo está se esforçando para evitar que mudança de padrão seja muito brusca. Mas não vai conseguir evitar a queda do crescimento – e os gritos de Krugman não mudam isso.

E, olhando em volta, para o resto do mundo, os gritos de Krugman parecem um disparate completo. Ele está reclamando de um índice de desemprego de menos de 10%. Aqui no Brasil, passamos anos com índices maiores. Na Espanha o desemprego está em 20%.

Além disso, crescer pouco quando se tem uma renda média do tamanho da americana é completamente diferente de crescer pouco em uma economia pobre. Lá, mesmo que a população cresça mais rápido que a renda por um período, a queda de renda per capita não vai fazer faltar comida ou água potável.

E, por fim, o PIB americano do primeiro trimestre cresceu 0,9%, quer dizer, o primeiro semestre já acumulou 1,3%  de crescimento. Depois da queda de 2,6% em 2009, não há como dizer (como disse Krugman) que essa não é uma recuperação.

Krugman: "Eu não te disse? Eu não te disse?!"

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