Limites da poupança e o novo amigo do BNDES

agosto 1, 2010

O Globo e o Estado de S. Paulo publicaram hoje matérias de capa em seus cadernos de economia sobre o empréstimo de R$ 180 bilhões do Tesouro Nacional ao BNDES.

O Estadão fez duas matérias: uma mostrando como do dinheiro foi usado (para comprar empresas no exterior, aumentar o capital de giro de grandes empresas e comprar ações) e outra mostrando como a maior parte das empresas comuns tem dificuldade em ter acesso a crédito no Brasil.

Além das abobrinhas e das citações dos lobistas de sempre, a segunda matéria tem outro problema, esquece de que crédito tem a ver com poupança.

O crédito não sai do nada. Se alguém pegou emprestado, alguém emprestou. Nesse caso, o que aconteceu foi que o Governo federal captou R$ 180 bi de poupança de famílias, empresas e estrangeiros e repassou esse dinheiro ao BNDES.

Com R$ 180 bi a menos no mercado, não é difícil de imaginar que o crédito tenha ficado escasso. Crédito hoje, só para as grandes empresas que têm acesso ao BNDES. Para as pequenas – e para as não tão bem relacionadas – fica o que sobrar no mercado depois que o governo captar seus recursos (pagando, hoje, 10,75% ao ano).

Mas esquecer esse detalhe na matéria é um detalhe – e é um detalhe mesmo – comparado ao que fez O Globo. A matéria de capa da economia do Globo deste domingo mostra uma foto de Luciano Coutinho – atual presidente do banco – e Marcos Vianna – presidente do BNDES entre 1970 e 1979 – e lista declarações dos dois defendendo a política de subsídios da época de Vianna, que Coutinho parece querer ressuscitar.

Por que isso é tão horrível? Porque não foi feito por distração ou ingenuidade. George Vidor, que assina a matéria no Globo, não é um novato em matérias de economia. Ele listou os argumentos de Coutinho e Vianna sem lembrar de seus contrapontos – devidamente organizados em um dos textos mais conhecidos do país sobre sua História Econômica. O texto, do professor Dionísio Dias Carneiro, da PUC – Rio, mostra os efeitos desse tipo de política, descreve o que aconteceu nos anos 70.

Dionísio, que morreu esta semana, já está fazendo falta.

Para fechar, o box abaixo da matéria do Globo tem a seguinte chamada: “Estrutura do BNDES interessou ao governo Obama”. O box, com bastante espaço, fala sobre como, durante uma viagem de Coutinho a Washington, um assessor do governo de lá fez uma pergunta sobre como o BNDES lidava com a inadimplência.

Livro com o artigo de Dionísio sobre os anos 70.

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Uma resposta to “Limites da poupança e o novo amigo do BNDES”

  1. […] do caderno de economia seria apenas reconhecer o que é a parte mais concreta do seu trabalho: repassar centenas de bilhões de reais do Tesouro Nacional – via BNDES – para empresas amigas. Posted by rmoraes Arquivado […]

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