Até os conservadores querem livros grátis

julho 17, 2010

O conservadorismo dos EUA tem poucos equivalentes assumidos aqui na terra dos papagaios. Quando vemos grupos políticos americanos fazendo lobby contra a regulação do sistema financeiro ou contra a legalização de imigrantes, o primeiro impulso é pensar que estão defendendo abertamente algum grupo – e não querem saber se suas propostas levarão ao caos econômico ou ao aumento do custo da mão-de-obra.

Por isso é tão curioso encontrar teóricos com sintomas de ultraconservadorismo. Ou pior, encontrar bons teóricos que, por um motivo ou outro, acabaram na equipe econômica de Bush Jr. ou mergulharam na paranóia de perseguição a terroristas invisíveis em aeroportos. O primeiro caso, o do ex-assessor economico de Bush Jr., é o de Gregory Mankiw. Na faculdae, meu primeiro livro de introdução à economia foi o dele. O livro é bom mas, na época, estranhei um pouco a ênfase que dava aos efeitos negativos da cobrança de impostos (que os economistas chamam de peso morto do imposto). Afinal, o livro devia ser só sobre os fundamentos da teoria econômica.

Bom, Mankiw é um desses conservadores que, sem um bom contraponto teórico, pode acabar defendendo – com uma eloquência razoável – políticas que liberem os bancos para arriscar demais, quebrar e deixar a conta para o povão.

Quem também deixa escapar – de tempos em tempos – a tendência a votar em aliados de Sarah Palin, é a dupla de autores de Superfreaknomics, Steven Levitt e Stephen Dubner. No primeiro livro que escreveram juntos, eles se mantiveram nas áreas de pesquisa de Levitt, não disseram nada que não tivesse algum tipo de teste estatístico por trás. No segundo, o superfreak, ficaram mais à vontade e foram atrás de métodos duvidosos para apontar possíveis terroristas e defenderam a poluição como candidata a arma contra o aquecimento global.

O segundo livro é fraco, para dizer o mínimo. Mas tudo isso foi só para dizer que até esses ideólogos conservadores meio envergonhados parecem concordar com a idéia de que livros digitais não podem ser caros – se é que devem custar alguma coisa.

Ontem o Blog de Levitt e Dubner no Times tinha uma nota sobre Street fighting matematics, livro recém lançado do matemático Sanjoy Mahajan. Não li o livro, não sei se é bom. Mas sei que o PDF está disponível de graça para quem quiser baixar.

Mahajan não é o primeiro autor a fazer isso. Mas acho divertido imaginar de que lado da discussão sobre limites ao uso de direitos de monopólio os autores de Freakonomics ficariam. Eles já puseram o link para o PDF em seu blog e publicaram a defesa que Mahajan faz da divulgação de PDFs grátis.

Em resumo, Mahajan diz que os custos de edição de um livro caíram muito nos últimos tempos e que, além de facilitar a divulgação de algo que ele acha importante, o PDF pode levar pessoas a comprar a versão em papel (com boa qualidade de impressão, capa dura etc.).

A discussão é boa e, se até conservadores como Mankiw mantém blogs atualizados – que não são pagos para escrever -, fica difícil dizer que, sem o monopólio de direitos autorais concedido às editoras, os escritores não teriam estímulo para produzir.

Ok, é importante poder ganhar dinheiro com a produção de livros. Mas isso justifica preços de capa de mais de R$ 100 – como o do livro de história econômica que eu desisti de comprar hoje numa livraria?

Poker conservador: vitrine de uma loja de quadros em Washington.

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Uma resposta to “Até os conservadores querem livros grátis”

  1. […] sobre livros aqui e aqui. Posted by rchia Arquivado Coisa sem nexo Deixar um comentário […]

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