A Veja e o dever de casa

junho 16, 2010

Estudar economia é preciso.

Sempre me espanto quando vejo uma grande pilha de erros conceituais e definições viradas pelo avesso. Minha dúvida básica é: foi por maldade ou por burrice? Na matéria de economia da Veja desta semana há pouco espaço para a dúvida: foi burrice mesmo.

Para defender uma idéia bastante razoável – a de que a economia brasileira está superaquecida – os repórteres usaram definições erradas de PIB, produtividade total dos fatores, relação entre investimento e crescimento da economia e se perderam – bastante – comparando a economia do país primeiro a um carro, depois a uma fábrica.

Para economistas que gostam de caricaturas, a matéria é um achado. O título “O Brasil não pode (ainda) crescer em ritmo chinês”, dá a impressão de que a tendência é de que vá poder em breve. Mas a matéria não diz por quê. A maneira de explicar o problema ofende até leitores de 12 anos de idade: “Imagine os painéis de dois carros de competição”, escrevem os repórteres, “um chinês e um brasileiro”. E aí seguem com sua comparação.

A primeira definição em que erram é a de PIB. Tudo bem, essa todo mundo cita errado. Diferentemente do que diz o texto da matéria, o PIB não é “o total das mercadorias e serviços produzidos pelo país”. Ele é o total do valor adicionado pela economia (produção menos insumos usados na produção) e é – não por coincidência – igual à renda gerada pela economia. PIB é uma medida de renda, não de produção.

Outro conceito caro aos economistas, a produtividade total dos fatores, é definido em um destaque na página como algo que “estima os efeitos sobre a economia de elementos não facilmente mensuráveis. Diz respeito sobretudo à qualidade das instituições (…)”. A produtividade até tem a ver com qualidade das instituições. Na prática, seu crescimento é um saldo, é a parte do crescimento da economia que não é explicada pelo investimento nem pelo aumento da população. Produtividade tem a ver com tecnologia, assim como com instituições. Mas a frase usada na matéria, “Sem produtividade não existe crescimento real, outro nome para crescimento sustentável”, simplesmente não faz o menor sentido.

Só para constar: crescimento real é o contraponto de crescimento nominal, quer dizer, é o crescimento descontando aumentos de preço. Crescimento sustentável é o que pode se manter no futuro e, sim, pode haver crescimento sem aumento de produtividade. A economia pode crescer porque há mais investimento ou mais gente trabalhando, sem que a produtividade mude. Não é o melhor dos mundos mas, bom, a frase na matéria está errada.

Mas o mais horripilante no texto é ver os autores tentarem explicar por que é preciso investimento para que a economia cresça em um ritmo razoável.  Eles comparam a economia a uma fábrica que tenta aumentar a produção sem comprar novos equipamentos. Dizem que logo os fornecedores começam a cobrar mais pelos insumos, os empregados exigem aumentos de salário e as máquinas da fábrica se desgastam. Bom, isso pode até acontecer. Mas o problema de crescer sem investir não é esse. A maior parte dessas coisas acontecerá mesmo que a fábrica do exemplo invista em novas máquinas. O principal problema de crescer sem investir é que o produto feito por essa fábrica começa a faltar.

O problema não é de aumento de preços de insumos ou de mão-de-obra. O problema da falta de investimento é a falta de capacidade para produzir mais. É como se, sem conseguir atender à demanda, a fábrica do exemplo passasse apenas a aumentar os preços (o que ainda é simplificar bastante o problema).

A impressão geral é a de que os repórteres ouviram explicações razoáveis de algum economista e simplesmente não conseguiram reproduzi-las (ou foram editados por alguém que queria mesmo era escrever sobre carros de corrida). No fim, talvez fosse melhor se eles escrevessem sobre carros de corrida.

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