20%, ou, crise de rico

maio 1, 2010

Centro de Madri num domingo (11 de abril de 2010).

Taxa de desemprego de 20,05% (no Brasil é 7,6%), déficit público alto e governo anunciando cortes de despesas: a crise espanhola – com queda de 3,6% no PIB ano passado – não impede que ruas e restaurantes de Madri fiquem cheios e a população saia sorridente pelo centro para aproveitar os dias de sol.

É uma crise de primeiro mundo.

Há desempregados pedindo dinheiro na rua. Mas eles são bem mais difíceis de encontrar do que, por exemplo, os do centro do Rio de Janeiro. O seguro desemprego alto de lá ajuda a explicar isso. Mas a renda média alta também explica uma parte da história. A economia encolheu 3,6% ano passado, mas a renda per capita continua bem maior que a nossa – e isso faz diferença.

Os países ricos tiveram uma grande perda de riqueza com a crise internacional. Mas isso tem a ver com, por exemplo, o valor dos imóveis de espanhóis, americanos, irlandeses etc. De uma hora para outra, eles viram que esses imóveis não valiam tanto quanto seus preços indicavam. Isso fez as vendas de imóveis novos caírem – e as construtoras demitirem.  Se sentindo mais pobres e – em muitos casos – perdendo o emprego, as pessoas passaram a comprar menos. Nesse cenário a demanda tende a cair, a produção acompanha e a crise se espalha.

Mas, depois de ver Madri colorida e cheia de gente, passei a ter dúvidas sobre o tamanho dessa queda de demanda. O governo está segurando a queda com gasto público – por isso o déficit público disparou. Mas – a olho nú – a economia não parece fraca. Pelo menos não em Madri.

Boa parte das pessoas que trabalhava com construção vai ter que arrumar emprego em outro setor. Vai haver um ajuste estrutural na economia. E isso vai ser lento. Com um seguro desemprego alto, deve ser realmente lento. Mas a economia continua produzindo. A previsão do Eurostat é de uma queda de 0,8% no PIB espanhol este ano – o que ainda os deixará com uma geração de renda per capita muito acima dos padrões daqui.

Sim, há dúvidas sobre a capacidade do governo de manter o déficit público alto por tempo o bastante para que o setor privado se recupere.

Outra coisa que qualquer turista vê na Espanha são os preços altos, bem maiores que os brasileiros. Isso atrapalha a recuperação da economia. Reduzir preços (deflação) não é uma coisa muito fácil – em nenhum lugar do mundo. Aqui, a alternativa seria desvalorizar a moeda. Lá a moeda é o euro, que, de qualquer forma, parece já estar começando a perder valor.

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Uma resposta to “20%, ou, crise de rico”

  1. Daniel said

    Imagina os gregos como estão uma hora dessas, sabendo que os salários estarão congelados por três anos…
    A Inglaterra fez certo em não aderir ao Euro.

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