Quinze anos sem Calvin

fevereiro 7, 2010

Aposentados há quase 15 anos, os quadrinhos de Calvin e Haroldo (no original, Calvin and Hobbes) fazem sucesso até hoje, com republicações em jornais e coletâneas que já alcançaram a marca de 45 milhões de exemplares vendidos. O Cleveland Plain Dealer publicou, há uma semana, uma rara entrevista com o recluso criador da tirinha, Bill Watterson, reproduzida a seguir, em tradução livre do blog:

Passados mais de 15 anos de distanciamento e reflexão, o que havia em Calvin e Haroldo, para conquistar não só a atenção dos leitores, mas também seus corações?

A única parte que compreendo é o que estava envolvido no processo de criação da tirinha. O que os leitores pensam é com eles. Depois que a tirinha é publicada, os leitores acrescentam suas experiências pessoais, e o trabalho acaba ganhando vida própria. Cada pessoa reage de maneira diferente a cada aspecto.

Tudo que eu tentava era criar de maneira honesta. Tentava tornar esse pequeno mundo algo divertido de se acompanhar, para que as pessoas quisessem gastar seu tempo na leitura. Era só o que me preocupava. Você mistura um monte de ingredientes e, uma vez entre muitas, a química funciona. Não consigo explicar por que a tirinha deu certo do jeito que deu, e não acredito que seja capaz de reproduzir isso. Várias coisas precisam dar certo ao mesmo tempo.

O que pensa a respeito da herança deixada pela tirinha?

Bem, não é nada que me tire o sono à noite. Serão sempre os próprios leitores que decidirão o que é significativo e relevante para eles. E consigo aceitar qualquer conclusão a que eles cheguem. Mais uma vez: acho que meu papel nisso tudo meio que acabou assim que a tinta secou.

A divertida dança de João e Tomás.

Os leitores criaram uma relação de amizade com os personagens. Por isso, de modo compreensível, eles lamentaram – e ainda lamentam – o fim da tirinha. O que gostaria de dizer a eles?

Não é algo tão difícil de se entender quanto as pessoas gostam de fazer crer: depois de dez anos, eu já havia dito quase tudo que tinha a dizer.

É sempre melhor sair cedo da festa. Se eu tivesse pegado carona na popularidade da tirinha, se tivesse me repetido por dez, vinte anos, as pessoas que hoje “lamentam” o fim de Calvin e Haroldo estariam desejando minha morte e xingando os jornais por publicarem tirinhas chatas e antigas como a minha, em vez de dar espaço a artistas mais jovens e empolgantes. E eu concordaria com elas.

Acho que parte da explicação para Calvin e Haroldo ainda ter um público grande atualmente é que preferi não insistir até não haver mais nada.

Nunca me arrependi de ter parado quando parei.

Como muita gente se identificava com seu trabalho, os fãs se sentem ligados a você, como se o conhecessem. Querem mais trabalhos seus, mais histórias do Calvin, uma nova tirinha, qualquer coisa. É realmente uma relação semelhante à das estrelas do rock com seus fãs. Considerando sua aversão a ser o centro das atenções, como lida com isso hoje? E como encara o fato de que isso o acompanhará por toda a vida?

Ah, a vida de cartunista de jornal… como sinto falta das fãs, das drogas e da bagunça nos quartos de hotel!

A verdade é que, desde meus dias de “astro do rock”, o interesse do público já diminuiu muito. Na escala de tempo da cultura pop, a década de 90 foi há milhões de anos. Acontecem casos esporádicos de bizarrice, mas na maior parte do tempo simplesmente toco minha vida pacata e me esforço ao máximo para ignorar o resto. Tenho orgulho da tirinha, sou enormemente agradecido pelo sucesso e fico sinceramente lisonjeado que as pessoas ainda a leiam. Mas, quando escrevia Calvin e Haroldo, estava na casa dos 30, muito longe de onde estou hoje.

Um trabalho de arte pode se perpetuar, mas eu continuo avançando pelos anos como qualquer outra pessoa. Acho que os fãs de verdade entendem isso e aceitam me dar espaço para tocar a vida.

Quanto tempo depois de os correios [dos EUA] lançarem o selo do Calvin você pretende mandar uma carta com ele?

Imediatamente. Vou subir na minha carruagem e tratar de enviar um cheque para pagar a assinatura do jornal.

Como espera que as pessoas se lembrem desse menino de seis anos e de seu tigre?

Voto em “Calvin e Haroldo, a oitava maravilha do mundo”.

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2 Respostas to “Quinze anos sem Calvin”

  1. Heverton Paulo said

    I always loved Calvin and Hobbes.Their intelligent jokes and their simple way of life enchanted me.I miss them.

  2. […] da tirinha Pearls Before Swine, Stephan Pastis, resolveu entrar em contato com Bill Watterson, recluso criador de Calvin e Haroldo. Mandou um email. O sujeito respondeu. Não só respondeu, como propôs uma […]

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