Dr. Pangloss e o alphabeto econômico

março 17, 2009

Bons economistas têm traçado o futuro da crise americana a partir de três cenários simplificados: a crise em V, a crise em U e – o mais assustador – a crise em L. A crise em V é aquela em que a economia cai rápido e se recupera rápido. O exemplo mais citado é a crise das pontocom, no começo de 2000.

 A crise de 2000 foi relativamente pequena, com queda rápida nos preços das ações de empresas de internet e retorno rápido ao crescimento. Nesse caso, a crise foi só um ajuste de preços (das ações). E, quanto mais rápido os preços chegassem ao fundo do poço, mais cedo as ações encontrariam compradores, mais rápido mercado voltaria a funcionar e mais rápido também a crise passaria.

Mas a crise atual não vai ser em V. Já não é em V. O problema é que o ajuste de agora foi muito mais forte. Para ter uma boa idéia do que aconteceu, é preciso rever a velha diferença entre renda e riqueza. Renda é o que você ganha por trabalhar, por alugar um imóvel ou por ser sócio de uma empresa. A soma das rendas geradas no país é o PIB. Riqueza é o que foi acumulado pelos habitantes do país e por seus ancestrais, é a poupança acumulada (descontado seu desgaste natural ao logo do tempo) são os prédios, as estradas, as empresas e até as jóias no cofre.

O que aconteceu nos EUA foi uma queda brusca da riqueza. Como a riqueza é muito maior que a renda gerada em um ano (o PIB), quando ela despenca, as pessoas percebem que vão demorar muitos anos para repor o que achavam que tinham.

Derepende, os americanos, endividados até o pescoço, descobriram que seus apartamentos valiam bem menos do que eles pensavam, que suas ações também estavam com preço inflado e eles mesmos vão demorar mais para poder se aposentar.

Então voltaram a economizar. E vão ficar assim, consumindo menos, por muito tempo.

Essa crise não vai ser em V porque o problema não é só o de ajustar os preços das ações ou das casas. O problema é reorganizar a economia inteira já que, com a queda do consumo, cai a produção (de casas, de carros e de tudo que se comprava confiando na riqueza estocada).

Boa parte do povo que produzia carros e casas vai ter que arrumar outro emprego vai ter aprender outra profissão e encontrar um serviço para oferecer no meio da crise. Talvez surjam mais professores e médicos, mas isso não vai ser rápido.  A coisa tem mais cara de L que de U.

O governo gringo faz o que pode, estimula o consumo para fazer com que o impacto da crise venha mais de vagar, para que as pessoas tenham mais tempo para se ajustar ao novo cenário – com menos consumo de casas, carros e afins. Mas ele não pode fazer mais do que isso, não tem como – nem deveria – evitar que o consumo caia.

Os americanos estavam contando com uma riqueza que não tinham, agora vão ter que voltar ao mundo real.

Aqui, onde a gente já não tinha muita coisa mesmo, uma versão amantegada do Dr. Pangloss anda dizendo que a crise não vai ser ruim, que vamos até crescer um pouco este ano. O argumento do governo é que parte da queda do consumo aqui tem mais a ver com expectativa que com queda da renda.

E, por enquanto, tem mesmo. A renda das famílias não caiu no fim do ano passado, mas o consumo caiu 2% comparado ao do terceiro trimestre (dessazonalizado).

Mas não adianta ser otimista demais. As exportações já despencaram, o crédito ficou mais difícil e o desemprego já está aí. Quer dizer: estamos importando a crise.

Vi hoje um gráfico assustador com a série histórica do PIB mundial e a do Brasil. Historicamente, o PIB brasileiro acompanha os movimentos de alta e baixa do resto do mundo – com uma defasagenzinha de uns três meses. Como a abertura econômica cresceu nos últimos anos, devemos acompanhar o ritmo externo ainda mais de perto.

O que vem por aí não é o melhor dos mundos possíveis…

Contemplação da crise - México - Museu de Antropologia

Contemplação da crise - México - Museu de Antropologia

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