Bento Consulting

março 11, 2009

Errar é humano. Errar em previsões sobre a economia é humano e bastante normal. Nas consultorias que fazem essas previsões, há bons técnicos e bons cascateiros – como em qualquer lugar. Mas separar os técnicos dos cascateiros é especialmente difícil nessa área – até que os cascateiros se entreguem sozinhos. E às vezes eles fazem isso.

Não dá para dizer quem é bom só olhando para o histórico. Um cascateiro com bons programas de computador, amigos bem informados e um pouco de sorte  pode ter uma performance bastante razoável por um certo tempo. E, em épocas como agora, em que tudo muda muito rápido, esse pouco de sorte acaba fazendo uma boa diferença.

Mas há duas maneiras de diferenciar o cascateiro. A primeira é ver como ele reage quando erra. Todas as consultorias erraram a previsão do PIB para o quarto trimestre no Brasil. As mais sinceras assumiram o erro. Afinal, todo mundo erra. Mas as mais povoadas por cascateiros não assumem.

O bom cascateiro não quer se passar por analista, quer se passar por profeta. E profeta não erra. Se o número divulgado é diferente do seu, o erro é de quem divulgou. 

E aí começa a ladainha de consultores no ouvido de repórteres desprevenidos. A culpa do erro é do ajuste sazonal, é de um outlier que não deveria estar lá etc etc. As críticas são feitas em econometrês, um dialeto do economês que nem os consultores sérios dominam muito bem. 

Os repórteres não entendem, os leitores também não, mas o consultor limpa sua cara, mantém seus clientes e empurra a culpa para os pesquisadores que divulgaram os dados. 

Bom, esse desejo de infalibilidade – coisa de deixar papas com inveja – é o primeiro indício de cascata. O segundo está no que eles dizem.

Na Folha de São Paulo de hoje há um bom exemplo:

Reclamando dos números do PIB, que vieram abaixo de suas previsões, dois consultores se alternam dizendo que “assim, qualquer movimento positivo, por mínimo que seja, empurrará o PIB do primeiro trimestre de 2009 para cima” e “com isso, reduzem-se as chances de uma recessão técnica”.

O problema é que eles estão reclamando do ajuste sazonal do PIB, da conta que tira os efeitos típicos de determinadas épocas do ano (como as vendas do Natal) da taxa de crescimento sobre o trimestre anterior. Eles dizem que, após o ajuste, o PIB veio baixo porque o ajuste considerou o quarto trimestre um mês atípico quando seria o começo de uma tendência de queda. Bom, um ponto não faz tendência. Se houver uma tendência, o ajuste sazonal do próximo trimestre vai incorporar essa informação e ajustar os valores do quarto trimestre para uma nova tendência – levando talvez a dois trimestres de queda. Se houver realmente queda em dois trimestres, o ajuste sazonal não diminui as chances de que ela apareça.

Desculpem pelo econometrês. O fato é que nenhum dos dois consultores tem idéia do que está falando. O ajuste sazonal muda a série para trás para incorporar a informação nova de cada trimestre sobre como os efeitos sazonais se comportam. Todo mundo que acompanha séries estatísticas com ajuste sazonal sabe disso, sabe que, a cada novo dado, se revisam os anteriores para incorporar os efeitos das novas informações.

O chato é que, para pegar esse tipo de cascata, a gente tem que aprender o beabá de econometrês.

A dupla de profetas, para tentar continuar no negócio, poderia estudar um pouco mais. Nem que seja para inventar cascatas melhorzinhas…

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Uma resposta to “Bento Consulting”

  1. daniel said

    gostei da definicao para cascateiro. no meu trabalho esta cheio desse tipo…
    abracao

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