Grandes expectativas

outubro 23, 2008

Torre de doces

Torre de doces

As continuações de filmes, quase sempre, decepcionam. Não é que sejam ruins. O problema é que vamos assisti-las com uma expectativa muito alta. O filme 1 foi bom (tanto que fizeram uma seqüência), esperamos que o 2 seja tão bom quanto.

 

Nos anos 70 um grupo de economistas concluiu que as pessoas não formam suas expectativas apenas olhando para trás, para o histórico de um diretor de cinema ou para o comportamento de uma empresa. Não. Segundo eles, as pessoas usam todas as informações disponíveis para formar suas expectativas.

 

Essa tese – batizada de teoria das expectativas racionais – tem várias implicações. Uma delas é que o efeito de informações novas deve ser imediato. Quando chega a notícia de problemas numa plataforma de petróleo da Petrobrás, suas ações caem imediatamente, se ajustam na hora às informações novas.

 

Mas os acadêmicos de Chicago – que defendem a teoria – nunca conseguiram provar que as expectativas são realmente feitas desse jeito.

 

Na dúvida, ou por segurança, a equação que projeta expectativas no modelo de metas de inflação do Banco Central faz uma média ponderada entre expectativas racionais e expectativas adaptativas (que levam em conta só o histórico).

 

A parte curiosa da história é que o mercado financeiro – com investidores sofisticados, abundância de análises e informação em tempo real – deveria ser o mercado com expectativas mais próximas das do modelo de Chicago.

 

Mas não é. Ou, pelo menos, não foi nos últimos meses. Os investidores se acostumaram com os ventos bons dos últimos cinco ou seis anos e passaram a acreditar que esse passado recente iria se repetir no futuro próximo. Completamente adaptativos.

 

Eles ignoraram o desequilíbrio da economia dos Estados Unidos e os sinais da bolha imobiliária para repetir o mantra de que as ações refletiam bem as perspectivas de lucro futuro das empresas. Elas estavam no preço certo. Qualquer queda seria passageira.

 

Mas há dois problemas nesse raciocínio. E os dois têm a ver com expectativas adaptativas.

 

O primeiro é achar que o mundo vai continuar crescendo, as empresas vão vender mais – como venderam nos últimos anos – e as projeções de lucros futuros dessas empresas (que definem o valor das ações) estão certas.

 

O segundo é um pouco mais sofisticado. Tem a ver com risco. As pessoas investem em coisas mais arriscadas se a perspectiva de ganho for maior. Por exemplo: a renda fixa oscila menos, é mais estável, então não dá um retorno tão alto.

 

Para entrar em um negócio instável, o investidor vai querer uma rentabilidade maior. Quer dizer, só vai comprar uma ação que oscila muito se imaginar que ela está realmente barata, que o ganho por comprá-la será compatível com o risco.

 

Os investidores acharam que a oscilação média da bolsa ia se manter, no futuro, igual à do passado. Agora, com os preços subindo 8% num dia em caindo 10% no outro, muitos começam a achar que o risco é alto demais para o benefício esperado – e pulam fora.

 

Eles foram adaptativos na hora de analisar a volatilidade do mercado de ações e – encontrando alguns de mau humor ou realmente tristes – dá pra ver que eram adaptativos também quando olhavam para seu patrimônio e achavam que ele cresceria no futuro como cresceu no passado.

 

Perder dinheiro é sempre desagradável. Mas, se não servir para mais nada (além de acabar com a bolha e rebalancear a economia dos EUA) essa crise pelo menos mostrará que as expectativas das pessoas são feitas – com freqüência – olhando pelo retrovisor, e que a imagem rósea no espelhinho pode nos impedir de ver o muro em frente. 

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