Imprensa, liberdade e poemas eróticos

outubro 7, 2008

Em meio ao vexame das pesquisas eleitorais e ao clima apocalíptico na economia mundial, um professor de literatura mereceu uma página inteira no Globo desta segunda. Nas palavras do jornal, o mestre foi “demitido no dia 11 de setembro da Escola Parque, porque teria adotado livros considerados inadequados pelos pais de alguns alunos e já teria escrito poesias eróticas”.

O tema daria ensejo a um caloroso debate sobre censura e liberdade de expressão, não fossem outros aspectos, como a raleza da abordagem, muito mais proeminentes. [A demissão foi revelada na Folha de S. Paulo de domingo.]

Do título aos depoimentos, passando pelas omissões, o texto pouco lembra uma matéria de verdade, preferindo a conveniência de outro formato, o libelo. É assim que a imprensa, com freqüência, caminha hoje: provando, ou tentando provar, teses. A escola, ao demitir o professor, foi censora, obscurantista, arbitrária. Agora vamos mostrar isso ao leitor.

No terceiro parágrafo, um aviso, em tom quase orgástico: “A Escola Parque informou que não comentaria o caso”. Que sorte. Porém, contudo, entretanto, todavia, não se sabe, até agora, se os “pais de alguns alunos”, aqueles lá do primeiro parágrafo, também informaram que não comentariam o caso. Pois o que se lê depois da advertência é samba de uma nota só. Paulada na escola e nos pais conservadores.

“Um grupo de pais teria apresentado um dossiê sobre o caso e pressionado a escola, com o argumento de que o professor, autor de poesias eróticas, não poderia dar aulas a jovens de 14 a 15 anos“, informa o Globo. Para mostrar a falta de cabimento das medidas tomadas pela escola, sem deixar dúvidas, o que melhor do que ouvir os próprios pais e alunos? Que fale então a aposentada Luciane Félix, mãe da aluna Marcela, de 17 anos. Ou a própria Marcele, do 3º ano. Ou outra aluna do 3º ano, Maria Eduarda Barreiro, de 17 anos. Os alunos de 14 a 15 anos, obviamente, deviam estar no recreio. E seus pais, no trabalho.

Uma matéria realmente plural não poderia deixar de dar voz a autoridades no assunto (qual mesmo?). “O livre-arbítrio e o acesso à informação são básicos para a cidadania”, dispara Antonio Carlos Secchin, imortal, escritor e professor de literatura. Talvez, só talvez, fosse o caso de juntar à filosofia o direito. O Código Penal, quase tão imortal quanto o imortal, ainda considera que, nos crimes contra os costumes, há “presunção de violência se a vítima não é maior de catorze anos”. O Código Civil, ele mesmo um menino de seis anos, considera “absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de dezesseis anos”. E o Estatuto da Criança e do Adolescente, de maioridade recém-completada, professa que “é direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais”.

Num de seus poemas mais controvertidos, o professor desempregado conta que:

a alice no país das baboseiras
é uma garota esperta

prefere foder com a coleguinha
usar celular
batom

cortar as cabeças
dos mendigos

Será que ela lê jornal?

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Uma resposta to “Imprensa, liberdade e poemas eróticos”

  1. Infelizmente, para a nossa sociedade, a temática da poesia ainda se sobrepõe à linguagem poética.

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