De cartas e bancos
Setembro 25, 2009
Carteiros e bancários estão simultaneamente em greve esta semana. As reivindicações, justas ou não, são bem parecidas: reajuste, demandas relativas à participação nos lucros, melhoria das condições de trabalho e contratações. A imprensa faz a cobertura de sempre, acompanhando as negociações, monitorando a adesão, registrando os transtornos ao resto da população e tentando esclarecer as dúvidas práticas decorrentes da paralisação.
De um aspecto, porém, não se fala, nem nos jornais, nem nas rodinhas de conversa: em larga medida, a greve, para essas duas categorias em particular, é um tiro no pé.
Além do governo e do patronato, carteiros e bancários enfrentam um inimigo cruel, conhecido vulgarmente como alternativa. E talvez não exista melhor exemplo, por unir as duas frentes, que o boleto bancário. Comumente recebido pelo correio, pode, em muitos casos, ser impresso nos sites das empresas e bancos. Um dia figura popular nas filas das agências bancárias, tornou-se, aos poucos, mais afeito à praticidade das caixas eletrônicas e do internet banking.
A greve, nesse contexto, só incentiva os resistentes ao meio eletrônico a abandonar de vez os caminhos tradicionais. E, quanto mais gente migrar para a internet e o autoatendimento, menos força terão as categorias profissionais e mais absurdas serão reivindicações como a contratação de mais empregados.
Talvez seja uma realidade cruel. Mas não menos real por isso.
Sarkozy, Kirshners e o reino do Butão
Setembro 20, 2009
Nicolas Sarkozy – marido de Carla Bruni e também presidente da França – está tentando se transformar em um populista latino americano. Seguindo o padrão Lula, ele não sai da TV. E fala sobre tudo, de crise econômica a recomendações estatísticas.
É nessa parte que começa a se parecer com o casal Kirshner, que governa a Argentina. Sem poder intervir no INSEE, o IBGE francês, como os Kirshners fizeram no INDEC, Sarko encomendou a um grupo de marqueteiros uma crítica ao PIB como medida de referência para a economia.
O grupo de marqueteiros internacionais, comandado por Joseph Stiglitz, produziu o tal estudo e, desde então, não para de dar entrevistas e escrever na imprensa.
Uma das melhores abobrinhas nesses textos é a referência a uma medida de Felicidade Nacional Bruta, concebida no Butão (no Himalaia) para servir como indicador econômico. As matérias e artigos sobre o estudo da “Comissão Stigliz” combatem um inimigo inexistente, dizem que o PIB não pode ser usado como indicador de felicidade ou bem estar social. É verdade, não pode mesmo. Mas ninguém disse que podia. O PIB é um indicador de atividade econômica.
A “Comissão Stuglitz” então recomenda o uso de outros indicadores que já fazem parte do Sistema de Contas Nacionais – como a renda disponível das das famílias – como aproximação melhor para medidas de bem estar. Recomenda também o uso do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – que usa dados como expectativa de vida como proxy para a qualidade de vida em regiões específicas.
Até aí nada de novo. O assustador em algumas reportagens é saber que a idéia de encomendar o estudo foi do redator de discursos de Sarkozy que, aparentemente, queria números mais bonitos para pôr em seus textos.
Não é uma boa hora para mudar formas de cálculo ou fazer malabarismos com números. A Argentina vai demorar décadas para se recuperar da perda de credibilidade que o INDEC sofreu com a intervenção do governo.
E, publicidade à parte, as Contas Nacionais têm que ser feitas de acordo com manuais da ONU e – no caso da França – com regulamentações da União Européia. Sarkozy pode não gostar, pode querer obrigar o instituto de estatística a inventar outros indicadores, mas não vai conseguir fugir dos efeitos da crise (e de algumas políticas populistas da França). Eles estarão visíveis por muito tempo no PIB padrão do velho e bom Sistema de Contas Nacionais.
Se fosse mais esperto e tivesse mais amor à propria credibilidade, Sarkozy gastaria mais tempo com Carla Bruni e menos dando pitaco no que deve fazer o instituto de estatística da França.

Carla Bruni, enfastiada, espera o fim do discurso de seu marido sobre as estatísticas na França
Tombos, rasteiras e cascatas
Julho 21, 2009

Atenção, vizinhos que passam rasteira
- Nessa época só vêm brasileiros – explicou a vendedora de produtos artesanais – parece que vocês gostam do frio…
Estava em Pucón, no sul do Chile. Na véspera, um taxista tinha acusado a queda no movimento:
- O presidente do Brasil disse para as pessoas não virem para cá – reclamou.
Não tentei corrigir. Não faz tanta diferença se foi o presidente ou o ministro da Saúde. O que faz diferença mesmo é que o turismo caíu por lá.
A cidade, pequena, não tem muito porque se preocupar com gripes e afins. Ninguém lá parecia dar muita bola para isso. Olhando de perto, lá perto, a medida do governo brasileiro parece mais uma forma de protecionismo disfarçado. É como quando tentam barrar a importação de carne brasileira no exterior dizendo que houve um caso de febre aftosa no interior do Paraná, lá perto do Paraguai.
Estão se aproveitando da gripe para desviar os turistas pro Nordeste….

Os antigos Mapuches já reclamavam das práticas desleais do Brasil.
Gestão e indigestão
Maio 22, 2009
Imagine um grupo de empresas (A, B, C e D) pertencentes ao mesmo controlador. Agora imagine que A paga um salário de R$ 6.000 a um engenheiro. Aí vem a empresa B e oferece R$ 7.000 ao engenheiro de sua co-irmã A. Depois aparece C com uma proposta irrecusável de R$ 8.000 ao sortudo profissional. E, para completar, D cobre todas as ofertas, levando o engenheiro por R$ 10.000.
Conseguiu imaginar? Nem eu.
No entanto, o nobre senador Marco Maciel não só conseguiu, como viu um grande mérito numa dinâmica se não igual no mínimo muito parecida. Ao justificar o voto favorável a reajuste para os servidores do Tribunal de Contas da União (TCU), o parlamentar alegou que a medida visa a “evitar a evasão de técnicos altamente qualificados, resultante de diferenças e defasagens salariais hoje existentes”.
Evasão para onde? Supostamente para o próprio serviço público federal.
“A possibilidade de impedir a evasão desses funcionários vincula-se à concessão de remunerações mais compatíveis com o exercício dos respectivos cargos”, insistiu Maciel.
Reconhece-se, assim, não apenas que existe uma autoconcorrência no serviço público, com órgãos disputando os servidores mais qualificados, como se vê nisso um traço de certa forma positivo.
Mais: sugere-se, nas entrelinhas, que alguns órgãos precisam de servidores mais qualificados que outros, muito embora não se diga, por conveniência, quais se posicionam de um lado e de outro ou por quê.
Aqui, o senador Maciel e o TCU são apenas os exemplos mais recentes de fenômeno que acontece há anos e que permanece inexplicado, à margem até do debate na imprensa, tão desinteressada em se opor aos servidores públicos quanto a maior parte da classe política.
Já dizia, nos idos de 1995, o famigerado Luiz Carlos Bresser-Pereira, em seu Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado:
No Brasil não há nada parecido com um sistema universal e padronizado de remuneração de servidores, do tipo existente nos países desenvolvidos, onde a administração pública burocrática alcançou pleno desenvolvimento. Ou melhor, existe o Plano de Cargos e Carreiras – PCC, que poderia preencher esse papel, mas que na verdade é apenas a situação da qual todos querem sair para integrarem carreiras específicas que, graças a seu sistema de gratificações especiais, acabam sendo razoavelmente remuneradas. No geral, o que existe é um sistema de remunerações extremamente distorcido, em que algumas carreiras, especialmente as jurídicas e, em segundo plano, as econômicas, são bem remuneradas, em função de gratificações que visariam premiar desempenho, enquanto que os demais cargos, especialmente os de nível superior do PCC, são mal pagos.
Evidentemente, Bresser foi apenas um membro da frente neoliberal que comandou o país por oito anos, promovendo uma ampla e irrestrita desvalorização do serviço público, não é mesmo? O curioso é que, até hoje, o sujeito que escreveu o diagnóstico acima, além de abominável inimigo do servidor, seja referência na maioria dos concursos que abordam o tema da gestão pública.
Talvez isso explique muita coisa. Ou não.
Transporte Caracu
Abril 30, 2009
As chibatadas de Madureira trouxeram à pauta da imprensa, pela enésima vez, a questão do transporte público no Rio de Janeiro. O abuso dos seguranças da SuperVia ensejou, por decorrência lógica, uma análise da (falta de) qualidade do serviço de trens urbanos no estado. Análise como de hábito furada.
Hoje, todo o transporte público no Rio é operado por empresas privadas, detentoras de concessão. Além da Supervia, são responsáveis pela mobilidade do cidadão fluminense Opportrans, Barcas S/A e uma infinidade de empresas de ônibus. Nem São Paulo é assim.
De tempos em tempos, a imprensa acorda para questões como a superlotação, a falta de capilaridade do sistema, a inconstância do serviço, as tarifas e, pasmem, até a violência física no trato com o usuário do serviço. Serviço público. E começa, para usar uma expressão na moda, a “testar hipóteses”.
Falta fiscalização? Falta planejamento? Falta vergonha na cara? As perguntas são sempre iguais, e as respostas, por alguma razão que foge à compreensão, sempre vagas. Mais: considera-se natural que, a despeito da privatização dos lucros, o Estado continue injetando dinheiro na forma de compra de equipamentos ou de subsídios. (Alguém aí falou em socialização dos prejuízos?)
O que mais espanta, porém, é o desinteresse pela comparação com as grandes cidades dos países ricos, recurso tão usado em outras pautas. Como é o transporte público em Nova York? E em Paris? E em Madri? Em tempos de internet e Google, para não falar de correspondentes e colaboradores espalhados pelo mundo, deve ser difícil fazer a checagem.
Pois é assim: em Nova York, todo o transporte é operado pela Metropolitan Transit Authority (MTA), corporação pública; em Paris, pela Régie Autonome des Transports Parisiens (RATP), empresa pública; e em Madri, pelo Consorcio Regional de Transportes de Madrid (CRTM), formado majoritariamente por empresas públicas.
E por que essas cidades (e muitas outras) mantêm o transporte público na esfera estatal? Porque transporte público eficiente e universal é deficitário. Vejam que a ordem dos fatores altera, sim, o produto. Aqui, o transporte público, embora privatizado, também é deficitário (para o Estado). Mas é uma m… iríade de problemas.
Não sei se a imprensa não fala disso porque é cega ou porque não vê.