Segue o seco

Setembro 26, 2009

Muita gente não entende, até hoje, como milhões de pessoas seguiram líderes como Hitler, Stalin e Mao. Ou mesmo como algumas dezenas seguiram figuras como Charles Manson e David Koresh. Curiosamente, porém, ninguém se espanta que 1 milhão de usuários de internet sigam o apresentador Luciano Huck no Twitter. Sim, aquele Luciano Huck que desfiou sua revolta, em artigo na Folha de S. Paulo, depois de ter o Rolex roubado, mas que nunca exibiu semelhante indignação em relação à miséria, à desigualdade, aos privilégios, à corrupção ou à situação da saúde pública. Aquele Luciano Huck que se acha o suprassumo da responsabilidade social porque (supostamente) paga seus impostos em dia. Aquele Luciano Huck que, semanalmente, submete cidadãos de baixa renda a pressões intensas e testes de laboratório, em troca de um presente financiado por patrocinadores, como se fosse um gesto magnânimo de caridade.

O fato é que, pela primeira vez, um brasileiro alcança 1 milhão de seguidores no Twitter.

Além disso, e por incrível que pareça, a modelo Letícia Birkheuer passou parte deste sábado tomando banho de sol com amigos na praia de Ipanema.

Preto no branco

Junho 27, 2009

O conservadorismo dos jornais americanos garantiu que a melhor primeira página com a morte de Michael Jackson saísse do… Brasil. É do Extra, a despeito do tratamento de imagem meia-bomba, como se pôde ver entre as centenas de banalidades encontráveis no Newseum. Obs.: os jornais da Europa, África, Ásia e Oceania, pelo fuso, não deram a notícia nas edições de sexta.

Uma capa decente de uma fonte improvável.

Uma capa decente de uma fonte improvável.

A manchete de hoje no Estado de S. Paulo é um daqueles casos de livro texto, exemplo do que não fazer para estudantes que estão aprendendo a diferença entre notícia e editorial.

Na faculdade, se aprende que a notícia deve  ser tão isenta quanto possível. O editorial pode tomar partido. A manchete é a seguinte: “Brasil taxa aço importado para conter invasão chinesa”.

Para quem não se incomodou com a invasão chinsesa, vale a pena dar uma olhada na página B6 do caderno de economia. Lá, a notícia no alto da página é:  ”Argentina barra mais produtos brasileiros”.

Nenhuma das duas matérias lembra que, no começo da crise internacional, presidentes de vários países se reuniram nos EUA e aprovaram um texto em que, entre outras coisas, prometem evitar o fechamento de seus mercados à concorrência estrangeira.

Na matéria de capa, o lobby das siderúrgicas contra o livre comércio vira “apelo das siderúrgicas, que estão perdendo mercado brasileiro para as importações” e o governo brasileiro aumenta as alíquotas de zero para até 14% para “proteger a indústria nacional”.

Na página B6, onde  a barreira alfandegária é estrangeira, “empresários argentinos dos setores de calçados e auto-peças conseguiram impor significativas reduções nas vendas de de produtos fabricados no Brasil para a Argentina, colocando de lado o espírito de livre comércio do Mercosul.”

Não custa tanto trocar o “invasão chinesa” por “concorrência chinesa” na manchete, porque é isso que o lobby das siderúrgicas quer conter.

A própósito, o que o texto chama de invasão é um crescimento de 53,8% nas importações de aço chinês entre janeiro e abril deste ano, comparado ao mesmo período do ano passado. São R$ 61,5 milhões a mais em importações. Para um mercado do tamanho do siderúrgico, é merreca.

Lobista da indústria siderúrgica esculpido em pedra - México, Museu de Antropologia

Lobista da indústria siderúrgica esculpido em barro - México, Museu de Antropologia

BRASIL!!!

Junho 5, 2009

A idéia inicial era comentar a fixação da imprensa – ou talvez dos leitores – por casos de pessoas que escaparam “milagrosamente” de grandes tragédias. Eis que, durante breve pesquisa, encontrei uma matéria no site do jornal O Dia, que levanta um aspecto muito mais chocante. Segue um fragmento do texto. A versão integral pode ser lida aqui.

História de quem escapou da morte
Passaporte de analista judiciário estava vencido e coreógrafo brigou para ir em outro voo

Rio – Faltavam pouco mais de duas horas para seguir para o Aeroporto Tom Jobim quando o analista judiciário João Marcelo Calaça, 37 anos, percebeu algo impensável para alguém prestes a embarcar para Paris: seu passaporte estava vencido. Além da própria frustração, teve de enfrentar a fúria do amigo, o americano Thomas Blair, 43. “Fiquei revoltado, chateado mesmo. Afinal, como é que alguém pode deixar o passaporte vencer e não percebe? Agora não estou mais chateado. Já perdoei ele”, afirmou o amigo, aliviado por não ter embarcado no voo 447 da Air France.

João Marcelo passou o dia de ontem dando entrevistas e falando sobre o milagre que salvou sua vida. “Agora tenho dois aniversários. Vou marcar esta data também. Mas apesar da felicidade e do alívio de estar vivo, estou me sentindo dividido pela tristeza, já que é uma tragédia muito grande”, disse.

A irmã do analista judiciário, Tânia, lembrou que ele poderia ter tentado embarcar, já que tinha um amigo policial federal no aeroporto: “Ele até que poderia ter insistido e tentado embarcar. Mas, de repente, desistiu. Foi um agraciado”. Os amigos só descobriram o desastre por volta das 9h, quando João Marcelo acordou e viu 25 ligações perdidas em seu celular. Ele ligou a TV e soube do desastre. “Achei que fosse piada. Imediatamente avisei à minha família”, disse Thomas.

Gestão e indigestão

Maio 22, 2009

Imagine um grupo de empresas (A, B, C e D) pertencentes ao mesmo controlador. Agora imagine que A paga um salário de R$ 6.000 a um engenheiro. Aí vem a empresa B e oferece R$ 7.000 ao engenheiro de sua co-irmã A. Depois aparece C com uma proposta irrecusável de R$ 8.000 ao sortudo profissional. E, para completar, D cobre todas as ofertas, levando o engenheiro por R$ 10.000.

Conseguiu imaginar? Nem eu.

No entanto, o nobre senador Marco Maciel não só conseguiu, como viu um grande mérito numa dinâmica se não igual no mínimo muito parecida. Ao justificar o voto favorável a reajuste para os servidores do Tribunal de Contas da União (TCU), o parlamentar alegou que a medida visa a “evitar a evasão de técnicos altamente qualificados, resultante de diferenças e defasagens salariais hoje existentes”.

Evasão para onde? Supostamente para o próprio serviço público federal.

“A possibilidade de impedir a evasão desses funcionários vincula-se à concessão de remunerações mais compatíveis com o exercício dos respectivos cargos”, insistiu Maciel.

Reconhece-se, assim, não apenas que existe uma autoconcorrência no serviço público, com órgãos disputando os servidores mais qualificados, como se vê nisso um traço de certa forma positivo.

Mais: sugere-se, nas entrelinhas, que alguns órgãos precisam de servidores mais qualificados que outros, muito embora não se diga, por conveniência, quais se posicionam de um lado e de outro ou por quê.

Aqui, o senador Maciel e o TCU são apenas os exemplos mais recentes de fenômeno que acontece há anos e que permanece inexplicado, à margem até do debate na imprensa, tão desinteressada em se opor aos servidores públicos quanto a maior parte da classe política.

Já dizia, nos idos de 1995, o famigerado Luiz Carlos Bresser-Pereira, em seu Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado:

No Brasil não há nada parecido com um sistema universal e padronizado de remuneração de servidores, do tipo existente nos países desenvolvidos, onde a administração pública burocrática alcançou pleno desenvolvimento. Ou melhor, existe o Plano de Cargos e Carreiras – PCC, que poderia preencher esse papel, mas que na verdade é apenas a situação da qual todos querem sair para integrarem carreiras específicas que, graças a seu sistema de gratificações especiais, acabam sendo razoavelmente remuneradas. No geral, o que existe é um sistema de remunerações extremamente distorcido, em que algumas carreiras, especialmente as jurídicas e, em segundo plano, as econômicas, são bem remuneradas, em função de gratificações que visariam premiar desempenho, enquanto que os demais cargos, especialmente os de nível superior do PCC, são mal pagos.

Evidentemente, Bresser foi apenas um membro da frente neoliberal que comandou o país por oito anos, promovendo uma ampla e irrestrita desvalorização do serviço público, não é mesmo? O curioso é que, até hoje, o sujeito que escreveu o diagnóstico acima, além de abominável inimigo do servidor, seja referência na maioria dos concursos que abordam o tema da gestão pública.

Talvez isso explique muita coisa. Ou não.

A velha tese de que quem não estuda a História a repete (como farsa) está começando a ficar grotesca.

Eu sei: o que acontece no Estado do Rio não atrai a atenção de toda a América Latina. Mas valia a pena pesquisar os precendentes antes de desistir do almoço.

A chamada de capa do site do Globo resume bem a notícia:

“Evo Morales começa greve de fome para ter direito à reeleição”

Fome de poder - México - Museu de Antropologia - 2009

Fome de poder - México - Museu de Antropologia - 2009

A Veja é a revista que sempre mete o pau no Governo e no PT, enquanto a CartaCapital é aquela que sempre os defende, muitas vezes ao arrepio dos fatos. Certo? O que dizer, então, do caso do italiano Cesare Battisti, tema de destaque nas edições desta semana de ambas as publicações?

Para a Veja, apesar dos muitos poréns, “Tarso [Genro, ministro da Justiça] pode estar certo” (Carta ao Leitor) e “pode ter tido boas razões” (matéria “Obrigado, Tarso Genro). A CartaCapital, por sua vez, vê “Afrontado o Estado italiano” (A Semana), tese defendida em mais detalhes na matéria “Cesare: veni, vidi, vici“.

A cobertura do caso pode ser uma prova da imparcialidade das duas revistas. Ou, o mais provável, de outra coisa qualquer.

Cão-peixe

Janeiro 16, 2009

Devo ser uma das poucas pessoas que assiste comerciais por gosto. E, às vezes, vendo uma coisa realmente original, me pergunto: “De onde é que eles tiraram isso?”

 

A última vez em que me fiz essa pergunta foi vendo uma propaganda de carro em que um surfista tem um cão-peixe – que o acompanha a todos os lugares.

 

De onde foi que tiraram isso?

 

Daqui:

garf11

gaf2

garf3

Para quem gosta de referências bibliográficas: Garfield e seus amigos, Editora L&PM, 2007.

O outro lado da ideia

Janeiro 6, 2009

Incapaz de parir algo mais original, ou menos cretino, do que a média do publicado pela imprensa nativa, resolvi dar uma olhada nos jornais lusos. Lá, não como cá, nem tudo são flores. O texto, com data de 1º de janeiro, é do Diário de Notícias. Os destaques são do blogue.

Acordo ortográfico entra em vigor no Brasil
ISABEL PEIXOTO *

O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entra esta quinta-feira em vigor no Brasil, com um prazo de adequação até 2012, mas pode falhar na prática. O alerta é dado pelo presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.

Assinado em 1990, o acordo pode falhar caso não seja elaborado um vocabulário ortográfico comum entre Portugal e o Brasil, que é o primeiro signatário a adoptar oficialmente as novas regras. Em Portugal, ainda não há uma data para a aplicação, sabendo-se apenas que o período de transição será de seis anos. Godofredo de Oliveira Neto, que preside ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), afirmou que, se a convenção internacional não for adoptada igualmente por todos os países, “o acordo fica desacordado”.

“A construção de um vocabulário ortográfico comum é um dos artigos mais importantes exposto no acordo. Se não tiver regras, não tem acordo“, disse o escritor, ao frisar que os linguistas portugueses e brasileiros têm de estar em sintonia “sobre a interpretação deste acordo ortográfico”. No seu entender, “o que falta é uma união dos especialistas e não dos políticos, e isso pode prejudicar a implantação do acordo na sua plenitude”.

Para o presidente do IILP, organismo ligado à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), é indispensável o entendimento entre a Academia Brasileira de Letras (ABL) e a Academia das Ciências de Lisboa, instituições responsáveis pela elaboração do vocabulário ortográfico para servir como referência para os dicionários. “O acordo deixou algumas coisas em branco como, por exemplo, o uso de hífen, que dá margem a interpretações diversas”, exemplificou, referindo que a ABL defende que o hífen seja abolido e que a Academia das Ciências de Lisboa discorda.

Oliveira Neto adianta que a união ortográfica faz parte do projecto de consolidação do Português como língua internacional e a falta de consenso entre os linguistas dificulta esta integração. “A união da ortografia contribuirá para facilitar a circulação de obras nos países lusófonos, além do uso comum da língua na Internet e no audiovisual, que também saem fortalecidos”, sublinhou ainda.

No âmbito da CPLP, será organizada no primeiro semestre deste ano uma reunião com especialistas da ABL e da Academia das Ciências de Lisboa, juntamente com os representantes dos ministérios da Educação dos países da CPLP.

O acordo não podia entrar em vigor sem ser ratificado por, pelo menos, três parlamentos de países de língua portuguesa. Portugal, Brasil, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde já o fizeram, faltando Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Numa recente reunião da CPLP, o ministro português da Cultura, Pinto Ribeiro, disse estar “firmemente convencido” de que a entrada em vigor do acordo vai ocorrer ainda durante a presidência portuguesa da organização lusófona, que termina em meados de 2010.

Obituário

Dezembro 2, 2008

Da Tribuna da Imprensa de ontem, 1º de dezembro de 2008:

A TRIBUNA interrompe momentamente a circulação
POR CULPA DA JUSTIÇA MOROSA,
TENDENCIOSA, DESCUIDADA, DISPLICENTE,
VERDADEIRAMENTE INJUSTA E AUSENTE,
TÃO DITATORIAL QUANTO A DITADURA
O douto procurador-geral da República, Claudio Fonteles, recusou o AGRAVO da União, identificando-o como PROTELATÓRIO.

O imodesto ministro Joaquim Barbosa recebeu o AGRAVO da União, sabendo que era PROTELATÓRIO. Levou 2 anos e meio para entender.

Com a mente revoltada e o coração sangrando, escrevo serenamente, mas com a certeza de que é um libelo que atinge, vai atingir e quero mesmo que atinja o sistema Judiciário. As palavras que coloquei como título desta comunicação representam a ignomínia judicial, que se considera poderosa e inatingível, mas é apenas covarde e insensível.

Retira-se dessa acusação global apenas a primeira instância. O juiz que em 1979 recebeu a ação desta Tribuna da Imprensa examinou imediatamente a questão e dividiu a ação em duas. Uma chamada de LÍQUIDA, que decidiu imediatamente e que, lógico, foi objeto de recursos indevidos, malévolos e protelatórios, que é a que está na mesa do ministro Joaquim Barbosa.

A outra, denominada de ILÍQUIDA, juntava e junta prejuízos ainda maiores, como desvalorização do título do jornal, lucros cessantes, páginas em branco durante 10 anos, perseguição aos anunciantes, que intimidados pessoalmente pelo então diretor da Receita deixavam de anunciar. [...]

E do Estadão de hoje:

[...] De acordo com a presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio, Suzana Blassa, desde 1995 a empresa não paga Fundo de Garantia do Tempo de Serviço nem INSS. [...]

De tempos em tempos, aparece uma matéria sobre o dano ambiental causado pelo descarte de pilhas, baterias, celulares e eletrônicos em geral. O tom é sempre de extrema preocupação com o futuro do planeta e com o bem-estar da humanidade. Tomemos como exemplo a abertura de uma matéria do Jornal Nacional de hoje:

Um problema causado pelos avanços da tecnologia: no mundo todo, 99% dos aparelhos eletrônicos, dos celulares, baterias e pilhas vão parar no lixo. Não é só desperdício, é um perigo.

Um perigo. E a solução, prossegue a matéria, é intensificar a coleta desses materiais para reciclagem. “A resolução do Conselho Nacional do Meio Ambiente (Conama) dá um prazo de dois anos para que as lojas tenham os coletores”, informa, deixando uma esperança no ar. “A Associação dos Fabricantes de Eletroeletrônicos declarou que tem participado ativamente de discussões e projetos sobre resíduos sólidos, pilhas e baterias”, completa, numa demonstração de que as empresas também serão cobradas.

Mas há uma ponta solta: o sujeito que troca de celular todo ano. Esse cidadão, a despeito de só saber usar uma função de seus sempre ultramodernos aparelhos (o telefone), desfaz-se, de 12 em 12 meses, de um monte de produtos químicos e plásticos que, cedo ou tarde, vão parar num aterro sanitário perto de você. Pior: ele tem um amigo que, de dois em dois anos, atualiza o computador, para poder mandar emails e digitar documentos no Word com mais desenvoltura.

São dois personagens que, em seu papel de movimentar a economia, fortalecer a indústria, gerar empregos, não cansam de ser destaque na imprensa escrita, falada e televisionada. É sua outra faceta que nunca se revela. Como poluidores, ainda que involuntários, eles simplesmente não existem.

Compre calma e felicidade

Outubro 8, 2008

Consumidor mesopotâmio satisfeito
Consumidor mesopotâmio satisfeito

 

Comprar traz felicidade, pelo menos para 21% das mulheres brasileiras acima de 18 anos. A receita funciona também para cerca de 7% dos homens. Os números são da pesquisa O consumidor do século XXI, do IBOPE, que entrevistou 3.400 pessoas em 11 regiões metropolitanas. Os seus principais resultados estão no site do Globo. Do total de entrevistados, 14% disseram que vão às compras para se sentirem mais calmos e felizes.

 

Se for isso mesmo, a crise econômica que está começando, além de deixar as pessoas mais pobres, vai deixar algumas menos calmas – e menos felizes.  

A Grande depressão, imagino, não foi batizada assim só por ser uma grande inflexão para baixo nos gráficos de produção….

 

Em meio ao vexame das pesquisas eleitorais e ao clima apocalíptico na economia mundial, um professor de literatura mereceu uma página inteira no Globo desta segunda. Nas palavras do jornal, o mestre foi “demitido no dia 11 de setembro da Escola Parque, porque teria adotado livros considerados inadequados pelos pais de alguns alunos e já teria escrito poesias eróticas”.

O tema daria ensejo a um caloroso debate sobre censura e liberdade de expressão, não fossem outros aspectos, como a raleza da abordagem, muito mais proeminentes. [A demissão foi revelada na Folha de S. Paulo de domingo.]

Do título aos depoimentos, passando pelas omissões, o texto pouco lembra uma matéria de verdade, preferindo a conveniência de outro formato, o libelo. É assim que a imprensa, com freqüência, caminha hoje: provando, ou tentando provar, teses. A escola, ao demitir o professor, foi censora, obscurantista, arbitrária. Agora vamos mostrar isso ao leitor.

No terceiro parágrafo, um aviso, em tom quase orgástico: “A Escola Parque informou que não comentaria o caso”. Que sorte. Porém, contudo, entretanto, todavia, não se sabe, até agora, se os “pais de alguns alunos”, aqueles lá do primeiro parágrafo, também informaram que não comentariam o caso. Pois o que se lê depois da advertência é samba de uma nota só. Paulada na escola e nos pais conservadores.

“Um grupo de pais teria apresentado um dossiê sobre o caso e pressionado a escola, com o argumento de que o professor, autor de poesias eróticas, não poderia dar aulas a jovens de 14 a 15 anos“, informa o Globo. Para mostrar a falta de cabimento das medidas tomadas pela escola, sem deixar dúvidas, o que melhor do que ouvir os próprios pais e alunos? Que fale então a aposentada Luciane Félix, mãe da aluna Marcela, de 17 anos. Ou a própria Marcele, do 3º ano. Ou outra aluna do 3º ano, Maria Eduarda Barreiro, de 17 anos. Os alunos de 14 a 15 anos, obviamente, deviam estar no recreio. E seus pais, no trabalho.

Uma matéria realmente plural não poderia deixar de dar voz a autoridades no assunto (qual mesmo?). “O livre-arbítrio e o acesso à informação são básicos para a cidadania”, dispara Antonio Carlos Secchin, imortal, escritor e professor de literatura. Talvez, só talvez, fosse o caso de juntar à filosofia o direito. O Código Penal, quase tão imortal quanto o imortal, ainda considera que, nos crimes contra os costumes, há “presunção de violência se a vítima não é maior de catorze anos”. O Código Civil, ele mesmo um menino de seis anos, considera “absolutamente incapazes de exercer pessoalmente os atos da vida civil os menores de dezesseis anos”. E o Estatuto da Criança e do Adolescente, de maioridade recém-completada, professa que “é direito dos pais ou responsáveis ter ciência do processo pedagógico, bem como participar da definição das propostas educacionais”.

Num de seus poemas mais controvertidos, o professor desempregado conta que:

a alice no país das baboseiras
é uma garota esperta

prefere foder com a coleguinha
usar celular
batom

cortar as cabeças
dos mendigos

Será que ela lê jornal?

Não contente em ter 60% de informalidade no mercado de trabalho do país, o governo confirmou hoje que não vai fazer nunca a reforma trabalhista. Além de não desregulamentar o mercado de trabalho – o que facilitaria a contratação com carteira assinada – o governo regulamentou os estágios.

Agora, empresas que não queiram dar férias proporcionais (30 dias por ano) e adotar o horário de trabalho previsto na lei terão que contratar seus estagiários informalmente – como já se faz no mercado de trabalho para não-estagiários.

 Abaixo, a nota da Agência Brasil:

Nova regra de estágio dá direito a férias remuneradas de 1 mês

Alunos do ensino fundamental devem ter carga horária de 4 horas e do ensino superior podem trabalhar até seis

Agência Brasil

BRASÍLIA - O governo publicou no Diário Oficial da União desta sexta-feira, 26, a atualização da Lei do Estágio. De acordo com a lei, a partir de agora, os estagiários que tenham contrato com duração igual ou superior a um ano têm direito a 30 dias de recesso, preferencialmente durante as férias escolares.

Além disso, os dias de liberação previstos na norma serão concedidos, de maneira proporcional, nos casos de o estágio ter duração inferior a um ano. A legislação também prevê que o recesso deverá ser remunerado quando o estagiário receber bolsa ou outra forma de contraprestação.

Quanto à duração do estágio, a norma determina que estudantes da educação especial e dos anos finais do ensino fundamental só podem ser contratados para a carga horária de quatro horas diárias de trabalho. Os alunos do ensino superior, da educação profissional de nível médio e do ensino médio regular podem trabalhar até seis horas diárias e os estágio de 40 horas semanas destinam-se aos matriculados em cursos que alternem aulas teóricas e práticas.

Sangue

Agosto 12, 2008

Alguns esportes são como o circo romano – sem os leões. A disposição do público, pelo menos, parece a mesma.

O que me fez pensar nisso não foi nenhuma luta de boxe ou judoca saíndo de maca do tatame. Foram as menininhas da ginástica olímpica.

Não bastassem as expressões de pânico das ginastas - que aparecem em close na TV – havia a comentarista julgando suas performances:

- Esse salto foi muito baixo, ela deve perder meio ponto.

A apresentação vinha tensa e cheia de comentários duros sobre as menininhas voadoras, até que uma delas, na saída das barras assimétricas, pousou mal e caíu no chão.

- Menos oito décimos – disparou a comentarista.

A câmera mostrou então a pele levantada da mão da menina.

- Arrebentou o calo – disse a comentarista.

O médico da equipe veio estancar o sangue.

- Tem que estancar isso para disputar a próxima prova.

Mas o esdrúxulo, o que ninguém questiona, o que acham normal, é a menina ter aguentado a dor e rodado nas barras assimétricas com a pele da mão saíndo. Isso faz parte do show. Em alguma medida, pelo jeito, isso é o show.

Acabei de ler na Reuters:

“Por que não se cala?”, diz presidente do Peru a Morales

“O presidente peruano, Alan García, pediu nesta terça-feira para o presidente da Bolívia, Evo Morales, se calar, após comentários de Morales que provocaram uma crise diplomática entre os dois países.

Usando a famosa frase com a qual o rei da Espanha, Juan Carlos, reprimiu Hugo Chávez, presidente da Venezuela, García lançou um “por que não se cala?” para Morales. O presidente boliviano irritou Lima ao afirmar que os Estados Unidos teriam uma base militar no país.

(…)

“Bom, tenho de dizer o mesmo que (o rei) Juan Carlos, da Espanha: ‘por que não se cala?’. Meta-se com o seu país, não com o meu”, disse García a jornalistas.

(…)

O rei da Espanha pediu que Chávez se calasse porque este criticava duramente [e espalhafatosamente]o chefe do governo espanhol, José María Aznar.”

Eu acuso… e defendo!

Março 18, 2008

Ainda que pese o benefício da dúvida, a história é tão surreal e ao mesmo tempo sintomática, que vale a pena reproduzir. Procurei a fonte original (Diário do Pará), mas só consegui uma reprodução do Sindicato dos Bancários do Pará e Amapá:

“O advogado e ex-gerente jurídico do Banco da Amazônia, Deusdedith Freire Brasil, e a advogada Patrícia de Nazareth da Costa e Silva, são acusados de improbidade administrativa pelo Ministério Público Federal (MPF) no Pará que entrou com ação contra eles. Segundo o MPF, eles teriam aproveitado a posição do advogado no banco para conseguir clientes para o escritório particular de advocacia em que atuavam. O processo, aberto na Justiça Federal em Belém no final de fevereiro, está em fase de notificação dos acusados.

O ex-gerente jurídico estaria atuando ao mesmo tempo contra e a favor do banco da Amazônia em relações trabalhistas de ex-empregados da Blitz de Segurança e Vigilância, prestadora de serviços ao Banco, segundo denúncias do Ministério Público do Trabalho (MPT), em 2007. As investigações do MPF concluíram que causas trabalhistas de mais de 50 ex-empregados da Blitz foram patrocinadas pelo escritório de Deusdedith Brasil.

Perícia lingüística feita pelo Centro de Letras e Artes da Universidade Federal do Pará (UFPA) comprovou que textos de Deusdedith Brasil, como advogado do Banco, e de Patrícia Silva, como advogada dos ex-funcionários da empresa de segurança, praticamente não tinham diferenças. Vários depoimentos registrados na ação mostram que o gerente indicava sua sócia para atuar em causas judiciais quando era procurado pelos ex-empregados da Blitz, segundo o MPF.

“No que diz respeito ao comportamento de Deusdedith Freire Brasil, verifica-se ofensa ao magno cânone da moralidade administrativa. Não se mostra reto e leal um agente público utilizar-se da função ocupada na administração pública para arregimentar clientes para obter ganhos particulares ou mesmo beneficiar terceiros”, diz o texto da ação.

Em relação à Patrícia Silva, a ação cita o artigo da lei de improbidade administrativa (lei 8.429/92) que determina que as disposições são aplicáveis àqueles que, mesmo não sendo agente público, induza ou concorra para a prática do ato de improbidade ou dele se beneficie sob qualquer forma direta ou indireta.

Os acusados podem perder os bens ou valores acrescidos ilicitamente ao patrimônio, ter que ressarcir integralmente o dano, perde a função pública se condenados.

Também poderão ter seus direitos políticos suspensos, além de estarem sujeitos ao pagamento de multa e à proibição de contratar com o Poder Público ou receber benefícios ou incentivos fiscais ou de crédito.

Além dessa ação, Deusdedith Brasil é réu em outras duas ações ajuizadas pelo MPF. Uma também por improbidade administrativa, pela possibilidade de interferência ao acusado nas provas judiciais, e uma ação penal por produção e uso de documento falso e fraude processual.”

Difamação

Fevereiro 11, 2008

Inconformada com a absoluta independência dos moscosos, a revista Veja iniciou mais uma repugnante campanha de difamação, atestada pela “matéria” publicada na edição da semana passada. Confira no trecho abaixo:

“Para entender como o álcool atua no sistema nervoso, cientistas da Universidade do Estado da Pensilvânia resolveram embriagar drosófilas, as moscas-das-frutas, um dos organismos mais propícios a experiências de laboratório. Eles submeteram as drosófilas ao vapor alcoólico dentro de uma câmara de plástico apelidada de flypub (em inglês, bar das moscas). Quando expostos ao álcool, os machos da espécie ficaram excitados e passaram a cortejar outros machos. Chegaram a formar ‘trenzinhos’, um subindo sobre o outro. Sem o estímulo do álcool, os machos normalmente acasalam apenas com parceiros do sexo oposto. O estudo conclui que o álcool afeta da mesma forma o sistema nervoso dos seres humanos e das drosófilas, deixando-os mais desinibidos sexualmente. Há a hipótese de que o álcool apenas interfira na capacidade da drosófila de identificar os hormônios sexuais característicos das fêmeas.”

Moscones

Fevereiro 6, 2008

Não consigo evitar. Desde que surgiu a larva deste blog minha mente faz uma associação automática entre moscosos e aspones. A explicação óbvia – sermos de fato aspones – é inverídica. Portanto, precisarei de mais tempo para refletir sobre o tema, em extenuantes sessões de auto-análise.

No ínterim, trago para debate, sem nenhuma razão aparente, dados interessantes publicados pelo Correio Braziliense na última quarta-feira, 30 de janeiro, em matéria revelando que as mulheres ganham mais do que os homens no Distrito Federal:

“A justificativa para o bom resultado das trabalhadoras nas duas unidades da federação, segundo análise de especialistas do ministério, é a forte presença do estado como empregador. Em Brasília, pelos números da Rais, 41,6% dos trabalhadores com carteira assinada estão no serviço público. No Amapá o número é ainda maior, de 43,3%, e mais que o dobro da média nacional, de 21,9%. “A presença do setor público na economia é muito grande nesses locais e os salários mais altos do setor público acabam puxando a média para cima”, justifica o diretor de qualificação do ministério, Ezequiel Nascimento.”