Ladeira a baixo
Abril 24, 2009
Em 2000, no dia do tombo da Nasdaq, eu estava em frente a um terminal da Bloombeg, traduzindo notinhas para uma agência de notícias brasileira. Esse era o meu trabalho na época.
As primeiras notas sobre a crise tinham apenas o tamanho da queda (maior a cada nota) no índice da bolsa americana. Depois começamos a tentar entender o que estava acontecendo.
O repórter que me substituía em frente ao terminal chegou e me despedi dizendo que ia voltar para casa – se ainda houvesse casa.
Era estranho ver o tom de apocalipse nas notícias internacionais e não conseguir imaginar como aquilo poderia ter algum efeito sobre a vida dos mortais comuns aqui no Brasil.
E acabou não tendo. Foi a tal crise em V. As ações caíram, as ações subiram e todos viveram felizes até a crise seguinte.
Oito anos depois veio a crise seguinte. Ela veio mais de vagar: está crescendo há quase um ano. E não é em V.
Nessa crise, dá pra ver o que significa a queda na riqueza, o que acontece quando alguns milhões de pessoas descobrem que são menos ricas do que pensavam (elas passam a comprar menos). E dá pra ver como isso afeta a vida de agricultores no interior da África (o preço do que eles vendem cai).
A outra crise afetou pouco o consumo. A atual veio de uma bolha no preço dos imóveis (com imóveis comprados com empréstimos e a responsabilidade pelos empréstimos repassada a bancos mal administrados). O nó é maior e mais complicado.
Mas isso não é novidade. A notícia ruim da semana é que as previsões para o futuro continuam piorando. A última projeção do FMI foi bem abaixo das anteriores.
E a outra notícia ruim é que os políticos daqui – notadamente o presidente – reclamaram da previsão, em vez de assumir que a crise ainda vai longe.

Portal da crise - Museu D'Orsay
Câmbio – para viajantes e compradores de muamba
Abril 19, 2009
Nada é menos confiável do que previsão de economista. Algumas cartomantes têm históricos melhores.
A Goldman Sachs, por exemplo, previu, há pouco mais de um ano, que o barril de petróleo poderia chegar a US$ 200. Feita a previsão, os preços começaram a cair e estão hoje em torno de US$ 50.
Esses erros de previsão têm efeitos colaterais curiosos. Graças a esse do petróleo, podemos ver Hugo Chaves mais manso, agora que o seu principal produto de exportação vale muito menos do que esperava.
Mas, se a previsão em si não vale muita coisa, a explicação sobre como foi feita talvez seja mais ou menos útil.
As taxas de câmbio, por exemplo, devem mudar. O dólar deve cair mais.
Por quê? Porque, apesar da crise, os EUA continuam com um déficit comercial respeitável (US$ 797,1 bilhões entre fevereiro de 2008 e janeiro de 2009), quer dizer, eles continuam importando mais do que exportam. Com isso, jogam mais dólares no mercado externo (quando importam) do que tiram de volta (quando exportam). A grande oferta de dólares contribui para derrubar seu preço, sua cotação em outras moedas.
A conta corrente – que inclui, além do comércio, a renda enviada e recebida de outros países – teve um rombo de US$ 673,3 bilhões em 12 meses, ou 3,3% do PIB americano. E os juros – de 0,5% ao ano – também não são muito atraentes para quem pensa em investir em títulos do governo americano.
Até agora quem fechava a conta externa dos EUA eram os investimentos estrangeiros (de China e Japão, principalmente), mas eles devem diminuir.
Mas duas coisas complicam as contas: a primeira é que União Européia e Reino Unido também têm déficits em conta corrente (1,0% e 1,7% do PIB respectivamente); a segunda é a valorização que o dólar teve desde o começo da crise – o que, à primeira vista, não faz muito sentido.
Mas, olhando com mais calma, podemos imaginar que a valorização do dólar teve mais a ver com investidores vendendo o que tinham (aqui, na Europa e na Inglaterra) para tapar rombos financeiros nos EUA.
Passado esse primeiro efeito, voltamos às tendências de longo prazo, quer dizer, à tendência de que o dólar caia em relação a outras moedas (ao real, inclusive).
Melhor para quem viaja e compra muamba, pior para quem investe nos Estados Unidos (ou exporta para lá).

Zhou Xiaochuan, presidente do BC chinês: "Deveríamos substituir o dólar por alguma coisa melhor."
Bento Consulting
Março 11, 2009
Errar é humano. Errar em previsões sobre a economia é humano e bastante normal. Nas consultorias que fazem essas previsões, há bons técnicos e bons cascateiros – como em qualquer lugar. Mas separar os técnicos dos cascateiros é especialmente difícil nessa área – até que os cascateiros se entreguem sozinhos. E às vezes eles fazem isso.
Não dá para dizer quem é bom só olhando para o histórico. Um cascateiro com bons programas de computador, amigos bem informados e um pouco de sorte pode ter uma performance bastante razoável por um certo tempo. E, em épocas como agora, em que tudo muda muito rápido, esse pouco de sorte acaba fazendo uma boa diferença.
Mas há duas maneiras de diferenciar o cascateiro. A primeira é ver como ele reage quando erra. Todas as consultorias erraram a previsão do PIB para o quarto trimestre no Brasil. As mais sinceras assumiram o erro. Afinal, todo mundo erra. Mas as mais povoadas por cascateiros não assumem.
O bom cascateiro não quer se passar por analista, quer se passar por profeta. E profeta não erra. Se o número divulgado é diferente do seu, o erro é de quem divulgou.
E aí começa a ladainha de consultores no ouvido de repórteres desprevenidos. A culpa do erro é do ajuste sazonal, é de um outlier que não deveria estar lá etc etc. As críticas são feitas em econometrês, um dialeto do economês que nem os consultores sérios dominam muito bem.
Os repórteres não entendem, os leitores também não, mas o consultor limpa sua cara, mantém seus clientes e empurra a culpa para os pesquisadores que divulgaram os dados.
Bom, esse desejo de infalibilidade – coisa de deixar papas com inveja – é o primeiro indício de cascata. O segundo está no que eles dizem.
Na Folha de São Paulo de hoje há um bom exemplo:
Reclamando dos números do PIB, que vieram abaixo de suas previsões, dois consultores se alternam dizendo que “assim, qualquer movimento positivo, por mínimo que seja, empurrará o PIB do primeiro trimestre de 2009 para cima” e “com isso, reduzem-se as chances de uma recessão técnica”.
O problema é que eles estão reclamando do ajuste sazonal do PIB, da conta que tira os efeitos típicos de determinadas épocas do ano (como as vendas do Natal) da taxa de crescimento sobre o trimestre anterior. Eles dizem que, após o ajuste, o PIB veio baixo porque o ajuste considerou o quarto trimestre um mês atípico quando seria o começo de uma tendência de queda. Bom, um ponto não faz tendência. Se houver uma tendência, o ajuste sazonal do próximo trimestre vai incorporar essa informação e ajustar os valores do quarto trimestre para uma nova tendência – levando talvez a dois trimestres de queda. Se houver realmente queda em dois trimestres, o ajuste sazonal não diminui as chances de que ela apareça.
Desculpem pelo econometrês. O fato é que nenhum dos dois consultores tem idéia do que está falando. O ajuste sazonal muda a série para trás para incorporar a informação nova de cada trimestre sobre como os efeitos sazonais se comportam. Todo mundo que acompanha séries estatísticas com ajuste sazonal sabe disso, sabe que, a cada novo dado, se revisam os anteriores para incorporar os efeitos das novas informações.
O chato é que, para pegar esse tipo de cascata, a gente tem que aprender o beabá de econometrês.
A dupla de profetas, para tentar continuar no negócio, poderia estudar um pouco mais. Nem que seja para inventar cascatas melhorzinhas…