Sangue
Agosto 12, 2008
Alguns esportes são como o circo romano - sem os leões. A disposição do público, pelo menos, parece a mesma.
O que me fez pensar nisso não foi nenhuma luta de boxe ou judoca saíndo de maca do tatame. Foram as menininhas da ginástica olímpica.
Não bastassem as expressões de pânico das ginastas - que aparecem em close na TV - havia a comentarista julgando suas performances:
- Esse salto foi muito baixo, ela deve perder meio ponto.
A apresentação vinha tensa e cheia de comentários duros sobre as menininhas voadoras, até que uma delas, na saída das barras assimétricas, pousou mal e caíu no chão.
- Menos oito décimos - disparou a comentarista.
A câmera mostrou então a pele levantada da mão da menina.
- Arrebentou o calo - disse a comentarista.
O médico da equipe veio estancar o sangue.
- Tem que estancar isso para disputar a próxima prova.
Mas o esdrúxulo, o que ninguém questiona, o que acham normal, é a menina ter aguentado a dor e rodado nas barras assimétricas com a pele da mão saíndo. Isso faz parte do show. Em alguma medida, pelo jeito, isso é o show.
Quando é melhor escrever um artigo
Julho 19, 2008
Escrever livros sobre o que está acontecendo agora na economia é uma idéia ruim (e não param de saír livros sobre a crise imobiliária, a crise bancária e até a crise do balanço de pagamentos dos EUA). Na melhor das hipóteses, sua explicação para a crise vai virar lugar comum antes do livro chegar aos leitores.
Foi isso o que aconteceu com The new paradigm for financial markets, do investidor quase aposentado George Soros.
Soros, que já ganhou dinheiro em muitas crises, tirou o pijama e voltou a dar palpite na gestão de seu fundo de investimento. Sua análise da crise é boa, mas foi feita em abril deste ano. Não há nada lá que já não tenha saído no jornal.
Ou quase nada. Há um capítulo sobre as teorias de Soros sobre finanças e sobre suas críticas à teoria econômica usada hoje. Apesar do título do livro, ele tenta ser modesto. Diz que, quando era estudante, nos anos 50, não era muito bom em matemática. Por isso, ficava se esforçando para encontrar furos conceituais no modelos que caíam nas provas da London School of Economics. Nos anos seguintes, usou suas críticas para orientar seus investimentos.
Mas suas críticas são mais opinião do que ciência - como ele mesmo admite. Soros não tenta vender opinião como conhecimento. Tanto que passa vários parágrafos falando sobre metodologia da ciência. O melhor do livro são as citações de Karl Popper, excelente teórico do assunto.
Escrevi tudo isso como desculpa para colar uma das citações do Popper, único trecho do livro que grifei pra ler depois:
“Here comes Popper’s special contribution to our understanding of scientific method. He asserted that scientific laws cannot be verified; they can only be falsified. That is the role of testing. Scientific laws can be tested by pairing off initial conditions with final conditions. If they fail to conform to the scientific law in question, that law has been falsified. Statements that are not subject to falsification do not qualify as scientific. One nonconforming instance may be sufficient to destroy the validity of the generalization, but no amount of conforming instances are sufficient to verify a generalization beyond any doubt.”
Para Soros, a crise atual joga por terra alguns pressupostos de muitas teorias. Mas isso é uma opinião. Outra tese que defende - a de que os EUA vão perder espaço no cenário internacional e não terão como continuar com seu padrão de consumo - parece mais bem fundamentada, se apóia na macroeconomia tradicional.
A previsão de que os preços de imóveis nos EUA vão cair mais uns 20% (já tinham caído 10% quando ele escreveu o livro) ainda está para ser testada. Mas parece bem razoável. De qualquer forma, o palpite mais garantido do livro é o de que, em ano eleitoral, o Governo Bush não vai fazer nada que possa incomodar os eleitores. Soluções dolorosas para os problemas de longo prazo da economia só serão cogitadas no próximo governo. Até lá, pelo menos, eles vão continuar se endividando - e consumindo o que conseguirem…
Viva a pirataria
Junho 6, 2008
Os freqüentadores do site da Amazon sabem que, lá, o sétimo livro da série Harry Potter custa US$ 20,99. Os outros livros da série, mais antigos, saem por no máximo US$ 9,99. O primeiro, A pedra filosofal, custa US$ 6,99.
Nos EUA, a mão-de-obra é mais cara, o salários são mais altos, e isso deve ter algum efeito sobre os custos de produção do livro - que teria motivo para ser mais caro.
Aqui, as Relíquias da morte não saem por menos de R$ 47,40 no Submarino (US$ 29,00). O preço de livraria - que realmente é cobrado nas livrarias - é R$ 59,50 (US$ 36,50).
Para os outros livros da série, a diferença é ainda maior: O enigma do príncipe tem preço de capa de R$ 54,50 (US$ 33,44), mas sai por R$ 28,70 no site brasileiro (US$ 17,61).
A pedra filosifal tem preço de lista de R$ 30,50 e sai por R$ 21,60 (US$ 13,25), o dobro do preço gringo - mesmo com o desconto.
Isso não tem nada a ver com custos de produção. Tem a ver com monopólio. Afinal, a editora cobra caro porque tem o monopólio de edição do livro no país.
E, como boa parte dos leitores não tem a opção de ler em inglês, o que resta é pagar mais caro.
Os Potters são um bom exemplo porque, para eles, não vale o argumento surrado das editoras de que, nos EUA, os ganhos de escala diminuem o custo de edição. A serie Potter, até onde se sabe, não tem tiragens pequenas por aqui.
O chavão de que aqui as pessoas lêem pouco porque os livros são caros e os livros são caros porque as pessoas lêem pouco (tiragem pequena) parece não ser mesmo mais que chavão.
Do porão à televisão
Maio 29, 2008
Em 1998, uma menina austríaca de dez anos foi seqüestrada, iniciando um período de oito anos de reclusão num porão minúsculo. Agora, aos 20, ela vai apresentar um programa na rede Puls 4. Uma pergunta singela: só eu acho essa história meio bizarra?
A Escola de Buenos Aires
Maio 2, 2008
Os políticos podem mentir, podem tomar decisões estapafúrdias, podem passar por cima de quase todas as regras do jogo – mas não podem fazer isso o tempo todo. Alguma hora a conta chega.
Infelizmente, quem paga a conta são os de sempre – como está acontecendo agora na Argentina. Os Kirchners – espécie de casal Garotinho do sul – fizeram tudo errado: congelaram preços, ameaçaram empresários, proibiram exportações, romperam contratos e distribuíram dinheiro público entre os aliados.
O resultado: em um primeiro momento, a popularidade de Néstor Kircner disparou e ele elegeu a esposa para a presidência. Mas a farra do curto prazo não tinha como durar para sempre. Com preços congelados ninguém investe, a produção cai e os produtos começam a faltar. Aí não há congelamento que funcione. A resposta dos Kirchners ao aumento de preços? Uma intervenção no instituto de estatística: para baixar a inflação a tapa (nem que seja só nos relatórios oficiais).
Assim, eles deram uma volta nos credores da dívida (que é, em grande parte, corrigida pela inflação), enrolaram os assalariados – que olham para os números oficiais para negociar aumentos – e ainda empurraram, antes das eleições, números falsos para os votantes.
Mas a mentira não pode durar para sempre. Os preços altos, os argentinos sentem no bolso. E a falta de produto – de energia principalmente – eles já sentiram no último inverno.
Ninguém em perfeito juízo investe em um lugar onde nem as estatísticas são confiáveis. E a disposição do governo para passar a mão no dinheiro alheio ficou indisfarçável quando aumentaram para 40% seu estranho imposto sobre exportações – que incide sobre alguns produtos agrícolas.
Os Kirchners estão criando uma nova escola econômica. Os princípios da dita parecem ser os seguintes: pressione as empresas (desestimule a produção), aumente as despesas do governo, maquie alguns números e tudo ficará bem. Ou, dito de outro modo: esqueça o longo prazo e talvez ele nunca chegue.
A Economist dessa semana tem uma boa matéria sobre a decadência (crise econômica e perda de aprovação popular) de Cristina Kirchner. O artigo – Cristina in the land of make-believe – está no link: http://www.economist.com/world/la/displaystory.cfm?story_id=11293743
A matéria fala até da mala de dólares enviada da Venezuela para ajudar em sua campanha eleitoral.
Made in Manaus
Abril 19, 2008
Uma das características mais curiosas de Manaus é o orgullho do importado. Quem vai ao Teatro Amazonas, orgulho da cidade, é apresentado a pinturas italianas, às escadas de metal inglês e ao teto do salão principal - feito para imitar a vista de quem está embaixo da Torre Eiffel.
O único livreto antigo em exposição - na vista guiada - está en inglês. Assim como inglês é o autor da ópera que abriu a temporada deste ano no teatro: Roger Waters.
Sim, o vocalista do Pink Floid é chegado a uma ópera. E a do Teatro Manaus fala sobre a Revolução Francesa. Nada contra Waters, nem contra o orgulho de importados que a guia da visita ao teatro faz questão de ostentar. Só é difícil entender por que uma cidade que produz motos, TVs a até canetinhas Bic para todo o país faz tanta questão de destacar seus prédios e tubulações projetados na Inglaterra.
Enriquecer é glorioso (mas é pecado)
Março 12, 2008
Para o papa Bento XVI, ficar muito rico é pecado.
A nova lista de pecados da Igreja, concebida em algum palácio do Vaticano, deixaria o anti-comunista João Paulo II, no mínimo, com a testa franzida. Os protestantes - para quem enriquecer é um sinal de virtude - também estranham a lista de pecados de seus primos católicos.
Bento XVI, até onde se sabe, não pensa em doar os bens da Santa Madre em todo o mundo para diminuir a desigualdade social. O que ele parece mesmo querer é afastar da Igreja toda e qualquer pessoa com algum senso de moderação.
Que vão para o Zimbábue!
Março 6, 2008
Os economistas mais assustados gostam de dizer que um pouco de inflação é como um pouco de gravidez. A inflação, depois que passa de um certo ponto, tende a acelerar - e a disparada de preços fica quase incontrolável.
Quem discorda, que vá para o Zimbábue. Lá, segundo a edição de hoje do Estado de S. Paulo, a inflação já passou dos 100.000% ao ano. Ontem, segundo o jornal, US$ 1 (um dólar gringo) já valia 25 milhões de dólares zimbabuanos: “Na nova cotação, quem trocar um nota de US$ 100, sairá da casa de câmbio com quase 20 quilos de dinheiro local”.
Hoje, com a inflação nesse ritmo, já se pode sair da casa de câmbio com uns 20,4 quilos…
Presente de grego (ou Viva a Nike)
Março 2, 2008
Recentemente, um grande amigo fez a maldade de me dar um livro de economia. A grande perversidade dos economistas é que, se não tomamos o devido cuidado, eles nos levam para o lado negro da força. O economista clandestino, o tal livro, uma tradução um pouco desleixada do original em inglês de Tim Harford, tem esse poder. Aos poucos, o leitor começa a acreditar que o capitalismo é mágico e que as grandes empresas só querem o bem da humanidade. Leiam a passagem abaixo sobre os célebres sweatshops - e, por favor, me dêem um bom argumento para eu discordar do seu teor:
“A jornada é longa e os salários são pífios. Mas isso é o sintoma e não a causa da pobreza global. Os trabalhadores aceitam esses empregos voluntariamente. O que significa, por mais difícil que seja de acreditar, que suas alternativas são piores. E eles não largam esses empregos. Os pedidos de demissão nas fábricas de multinacionais é baixo, porque as condições e o salário, ainda que ruins, são melhores que os das empresas locais. [...] Qualquer pessoa com um mínimo de preocupação pelos seres humanos deveria repudiar a situação, mas também deveria entender que a Nike e outras multinacionais não são responsáveis por esse quadro desolador.”
Saudades do dragão
Fevereiro 26, 2008
Eles andavam quietos, a ponto de muita gente achar que estavam extintos. Mas agora estão de volta, cuspindo fogo e assustando os consumidores. Sim, os velhos dragões da inflação estão acordando. Na China, o governo ficou anos enxugando dólares. Eles entravam no país, o governo os comprava e emitia yuans. Os yuans eram, em parte, recomprados pelo governo, que vendia títulos da dívida. E, em parte, os yuans ficavam lá alimentando o consumo - chamando o dragão. O consumo cresceu e os preços agora estão crescendo junto.
Nos Estados Unidos, o governo está distribuindo dinheiro para a classe média - que fica muito feliz - e o BC baixa a taxa de juros de um jeito que deixa os heterodoxos brasileiros morrendo de inveja. Ao mesmo tempo, o dólar perde valor, o que deixa todos os importados mais caros para o consumidor gringo.
Uma parte dos importados já ia ficar mais cara de qualquer jeito. A Vale já está fazendo reajustes de mais de 60% nos seus preços. O petróleo já andou ciscando acima dos US$ 100 por barril. Até os alimentos estão subindo de preço.
No Brasil, um grupo de saudosistas - que sempre cultuou a besta-fera - continua fazendo seus rituais de evocação do dragão. O mais ostensivo passo dessa espécie de dança da chuva para dragões foi dado há alguns meses pelo ministro da fazenda (sim , ele é um dos adoradores do dragão), que fincou o pé e pôs a meta de inflação em 4,5% (quando a criatura já estava em torno dos 4%).
As despesas públicas crescentes também são chamariz de dragão. Uma grande leva de recém nomeados para o Ipea sabe disso - e comemora. Eles acham que o dragão não faz mal a ninguém, que um pouquinho de dragão é até saudável.
Agora é esperar para ver o que vem por aí.
O papel de São Jorge está reservado para os bancos centrais, que costumam ser vaiados quando fincam a espada no bicho.
Vendo o que se quer (sexo e chocolate)
Fevereiro 18, 2008

Os bem intencionados editores da Economist tentaram fugir dos temas típicos da revista para procurar uma correlação entre sexo e chocolate.
A matéria que acompanha o gráfico a cima diz que “Em algumas partes da Europa, sexo e chocolate andam de mãos dadas”.
Pelo jeito, eles escreveram enquanto comiam ou, por qualquer razão, viram só o que queriam ver. O gráfico mostra uma relação negativa entre o consumo de chocolate por habitante e a freqüência de sexo. Os países onde se faz mais sexo têm menos consumo de chocolate.
Pode-se pensar em muitas explicações para isso. Adeptos das teses de Max Weber podem concluir que, nos países puritanos, as pessoas têm mais dinheiro para comprar chocolate e mais tabus contra tudo que não é chocolate. Os hedonistas vão dizer que, nos países com mais chocolate, as pessoas são menos atraentes - e sabe-se lá que outras explicações podem inventar.
Mas nada disso serve de desculpa para a leitura invertida do gráfico - que talvez tenha alguma coisa a ver com o antepenúltimo lugar em freqüência dos inglêses, atrás apenas dos EUA e do Japão.
Em segundo no ranking dos comedores de chocolate, os ingleses da Economist podem ter se recusado a olhar direito para os pontos sobre o morango.
A nota inteira está no link:
Difamação
Fevereiro 11, 2008
Inconformada com a absoluta independência dos moscosos, a revista Veja iniciou mais uma repugnante campanha de difamação, atestada pela “matéria” publicada na edição da semana passada. Confira no trecho abaixo:
“Para entender como o álcool atua no sistema nervoso, cientistas da Universidade do Estado da Pensilvânia resolveram embriagar drosófilas, as moscas-das-frutas, um dos organismos mais propícios a experiências de laboratório. Eles submeteram as drosófilas ao vapor alcoólico dentro de uma câmara de plástico apelidada de flypub (em inglês, bar das moscas). Quando expostos ao álcool, os machos da espécie ficaram excitados e passaram a cortejar outros machos. Chegaram a formar ‘trenzinhos’, um subindo sobre o outro. Sem o estímulo do álcool, os machos normalmente acasalam apenas com parceiros do sexo oposto. O estudo conclui que o álcool afeta da mesma forma o sistema nervoso dos seres humanos e das drosófilas, deixando-os mais desinibidos sexualmente. Há a hipótese de que o álcool apenas interfira na capacidade da drosófila de identificar os hormônios sexuais característicos das fêmeas.”
Remédios para a crise
Fevereiro 6, 2008
Os parágrafos entre aspas abaixo são de Kenneth Rogoff, ex-economista chefe do FMI. Para ele, as políticas do FED (o BC gringo) e do governo dos EUA para lidar com a ameaça de recessão são muito diferentes das boas recomendações que o FMI fazia a outros países em crise. A política tradicional, como lembra Rogoff, seria identificar os bancos estão mal das pernas e deixar os ditos sofrerem as consequências das próprias escolhas, em vez de pôr panos quentes e baixar juros interbancários. Esse negócio de devolver dinheiro do imposto de renda também só piora as coisas, adia a solução do problema.
Os economistas mais ortodoxos acham que a crise é um ajuste natural, uma correção do consumo e do crédito - que estavam em níveis acima das possibilidades dos americanos. Não há como não frear o consumo em alguma medida. E o pacote fiscal tenta adiar a freada - ou empurra uma parte dos seus custos para depois das eleições.
“Reconhecidamente, o painel do FMI teria de enxergar além da atual hipocrisia americana. O Tesouro dos EUA encorajou a Ásia a endurecer a política fiscal durante a crise dos anos 90. Hoje, contudo, o Congresso e o presidente dos EUA desdobram-se para adotar um enorme e mal-aconselhado pacote de estímulo fiscal, cujo principal efeito será impedir o próximo presidente de eliminar o déficit orçamentário.
Os americanos disseram com firmeza ao Japão que a única maneira de sanear sua economia era expurgar os bancos insolventes e regenerar o sistema financeiro por meio da “destruição criativa” schumpeteriana.
Hoje, as autoridades dos EUA parecem dispostas a considerar qualquer medida, não importando seu poder inflacionário,para garantir que nenhum de seus grandes bancos e casas de investimento vá à falência.”
O artigo completo está no Estadão de hoje.
A imagem abaixo é uma reprodução do receituário heterodoxo (usado no Brasil nos anos 80) para lidar com crises econômicas.
