Dia do Servidor Público
Outubro 26, 2009
Um dos grandes temas do direito constitucional americano é a separação entre Estado e igreja. Ao contrário do que se possa imaginar, porém, quando casos relacionados ao assunto chegam à Suprema Corte, nem sempre a discussão se concentra em questões subjetivas acerca da natureza do ser humano. O ponto-chave é o imposto pago pelo cidadão. Por exemplo, por que o Estado deve gastar seus escassos recursos, oriundos da contribuição de todos, com medidas que visam a promover uma causa específica?
O dinheiro pode ser uma praga, mas ajuda a entender muita coisa.
Hoje, 26 de outubro, muitos servidores públicos estão “comemorando”, adiantadamente, o Dia do Servidor Público (28). Merecido? Justo? Legal?
A pergunta certa é outra: por que todos estão pagando?
Civilização, ou, a diáspora brasileira
Outubro 21, 2009
Há tempos não via as notícias de esporte na TV. Hoje, não sei por quê, assisti. Passaram um bom tempo mostrando gols e passes de jogadores brasileiros em times europeus. São nosso migrantes. Mas não são os únicos. De minha turma de faculdade (cerca de 30, formados em 1999) sei de sete que hoje moram fora do país. Há mais uma que foi e voltou. Também tenho parentes migrantes.
São todos muito bons no que fazem e todos queriam bastante sair daqui. As agruras cariocas de todos os dias explicam um pouco esse desejo de migrar. A falta de trabalho no Rio explica outro tanto.
Não sei se o mundo lá fora é mais civilizado, se as pessoas são menos assaltadas ou se alugar um apartamento envolve menos burocracia. Mas sei que estar longe da família e dos amigos é um custo respeitável.
Para morar fora valer a pena, o benefício (o ganho em qualidade de vida) tem que ser maior que esse custo. E se for mesmo – e essa proporção de migrantes parece indicar que é – então as coisas aqui estão realmente pouco civilizadas…

Rio Sena, visto do alto da torre - 2008.
O laboratório de Lupi
Outubro 10, 2009
A Lei do Estágio é uma daquelas experiências de pode gerar argumentos para várias discussões. A primeira delas é sobre a lógica do mercado. O mercado funciona? O mercado de trabalho funciona?
Os economistas não têm muita dúvida, mas o atual ministro do trabalho, Carlos Lupi, tinha - e fez o teste. Sua lei aumentou os encargos trabalhistas e criou vários direitos, como o de férias, para os estagiários.
O resultado foi que, de 1,1 milhão de vagas de estágio que havia em setembro de 2008, restaram 900 mil em setembro de 2009. Os números, da Associação Brasileira de Estágios, estão no Estadão de hoje.
Quando o custo de contratar aumenta, as empresas contratam menos. A lei, no fim das contas, foi um desserviços aos estagiários, que não estão atrás de direitos trabalhistas, mas de um lugar para aprender um trabalho, conhecer de perto as empresas em que podem trabalhar como funcionários no futuro e perceber que tipo de aptidão vão ter que desenvolver para trabalhar naquele setor.
A segunda discussão que esses números levantam é a da nomeação de aliados sem nenhum preparo técnico para ocupar ministérios importantes, como é o caso do ex-presidente do PDT Carlos Lupi. O benefício político para o governo de ter partidos aliados no parlamento compensa o prejuizo que o ministro causa em termos de diminuir o bem estar da população – destruíndo vagas de estágio, por exemplo?
Outra discussão é sobre o Congresso. Afinal, a Lei do Estágio foi aprovada pelo Congresso. E, na época, seus efeitos eram perfeitamente previsíveis. Mas se o Congresso é formado por aliados que só querem ocupar ministérios e nomear diretores de estatais, há chance de que até projetos delirantes do executivo – como esse – consigam maioria.
A a quarta, e última, discussão é sobre a idéia de independência entre os poderes da república – como foi pensada originalmente. Ela ainda tem alguma coisa a ver com o que acontede em Brasília atualmente?

Lupi: experiências de laboratório com o estágio dos outros
Urucubaca, ou, estatísticos por natureza
Outubro 7, 2009
Estamos sempre tentando associar coisas, perceber que causa leva a que efeito ou como o vento de hoje pode estar associado à chuva de amanhã.
Procuramos correlações, coisa de estatístico. A diferença é que os estatísticos admitem isso e tentam refinar seus métodos.
E, refinados os métodos, eles podem ajudar a não fazer associações erradas, a não procurar explicações mirabolantes para o dono do partamento não renovar o contrato de aluguel, o carro dar defeito, o computador ter vírus e eu ser alvo de rejeitos de passarinho (o que me lembrou A igualdade é branca), tudo na mesma semana.

Placa associada à presença de pessoas sem sorte
Segue o seco
Setembro 26, 2009
Muita gente não entende, até hoje, como milhões de pessoas seguiram líderes como Hitler, Stalin e Mao. Ou mesmo como algumas dezenas seguiram figuras como Charles Manson e David Koresh. Curiosamente, porém, ninguém se espanta que 1 milhão de usuários de internet sigam o apresentador Luciano Huck no Twitter. Sim, aquele Luciano Huck que desfiou sua revolta, em artigo na Folha de S. Paulo, depois de ter o Rolex roubado, mas que nunca exibiu semelhante indignação em relação à miséria, à desigualdade, aos privilégios, à corrupção ou à situação da saúde pública. Aquele Luciano Huck que se acha o suprassumo da responsabilidade social porque (supostamente) paga seus impostos em dia. Aquele Luciano Huck que, semanalmente, submete cidadãos de baixa renda a pressões intensas e testes de laboratório, em troca de um presente financiado por patrocinadores, como se fosse um gesto magnânimo de caridade.
O fato é que, pela primeira vez, um brasileiro alcança 1 milhão de seguidores no Twitter.
Além disso, e por incrível que pareça, a modelo Letícia Birkheuer passou parte deste sábado tomando banho de sol com amigos na praia de Ipanema.
De cartas e bancos
Setembro 25, 2009
Carteiros e bancários estão simultaneamente em greve esta semana. As reivindicações, justas ou não, são bem parecidas: reajuste, demandas relativas à participação nos lucros, melhoria das condições de trabalho e contratações. A imprensa faz a cobertura de sempre, acompanhando as negociações, monitorando a adesão, registrando os transtornos ao resto da população e tentando esclarecer as dúvidas práticas decorrentes da paralisação.
De um aspecto, porém, não se fala, nem nos jornais, nem nas rodinhas de conversa: em larga medida, a greve, para essas duas categorias em particular, é um tiro no pé.
Além do governo e do patronato, carteiros e bancários enfrentam um inimigo cruel, conhecido vulgarmente como alternativa. E talvez não exista melhor exemplo, por unir as duas frentes, que o boleto bancário. Comumente recebido pelo correio, pode, em muitos casos, ser impresso nos sites das empresas e bancos. Um dia figura popular nas filas das agências bancárias, tornou-se, aos poucos, mais afeito à praticidade das caixas eletrônicas e do internet banking.
A greve, nesse contexto, só incentiva os resistentes ao meio eletrônico a abandonar de vez os caminhos tradicionais. E, quanto mais gente migrar para a internet e o autoatendimento, menos força terão as categorias profissionais e mais absurdas serão reivindicações como a contratação de mais empregados.
Talvez seja uma realidade cruel. Mas não menos real por isso.
Sarkozy, Kirshners e o reino do Butão
Setembro 20, 2009
Nicolas Sarkozy – marido de Carla Bruni e também presidente da França – está tentando se transformar em um populista latino americano. Seguindo o padrão Lula, ele não sai da TV. E fala sobre tudo, de crise econômica a recomendações estatísticas.
É nessa parte que começa a se parecer com o casal Kirshner, que governa a Argentina. Sem poder intervir no INSEE, o IBGE francês, como os Kirshners fizeram no INDEC, Sarko encomendou a um grupo de marqueteiros uma crítica ao PIB como medida de referência para a economia.
O grupo de marqueteiros internacionais, comandado por Joseph Stiglitz, produziu o tal estudo e, desde então, não para de dar entrevistas e escrever na imprensa.
Uma das melhores abobrinhas nesses textos é a referência a uma medida de Felicidade Nacional Bruta, concebida no Butão (no Himalaia) para servir como indicador econômico. As matérias e artigos sobre o estudo da “Comissão Stigliz” combatem um inimigo inexistente, dizem que o PIB não pode ser usado como indicador de felicidade ou bem estar social. É verdade, não pode mesmo. Mas ninguém disse que podia. O PIB é um indicador de atividade econômica.
A “Comissão Stuglitz” então recomenda o uso de outros indicadores que já fazem parte do Sistema de Contas Nacionais – como a renda disponível das das famílias – como aproximação melhor para medidas de bem estar. Recomenda também o uso do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) – que usa dados como expectativa de vida como proxy para a qualidade de vida em regiões específicas.
Até aí nada de novo. O assustador em algumas reportagens é saber que a idéia de encomendar o estudo foi do redator de discursos de Sarkozy que, aparentemente, queria números mais bonitos para pôr em seus textos.
Não é uma boa hora para mudar formas de cálculo ou fazer malabarismos com números. A Argentina vai demorar décadas para se recuperar da perda de credibilidade que o INDEC sofreu com a intervenção do governo.
E, publicidade à parte, as Contas Nacionais têm que ser feitas de acordo com manuais da ONU e – no caso da França – com regulamentações da União Européia. Sarkozy pode não gostar, pode querer obrigar o instituto de estatística a inventar outros indicadores, mas não vai conseguir fugir dos efeitos da crise (e de algumas políticas populistas da França). Eles estarão visíveis por muito tempo no PIB padrão do velho e bom Sistema de Contas Nacionais.
Se fosse mais esperto e tivesse mais amor à propria credibilidade, Sarkozy gastaria mais tempo com Carla Bruni e menos dando pitaco no que deve fazer o instituto de estatística da França.

Carla Bruni, enfastiada, espera o fim do discurso de seu marido sobre as estatísticas na França
Medo dos vinte
Setembro 5, 2009
Recessão nos EUA e uma gripe devastadora capaz de matar milhares de pessoas em todo o mundo. A História tem mesmo tendência a se repetir como farsa? Estamos vivendo uma versão menos séria dos anos 20 (do século passado)?
Nossa gripe fez muito barulho mas não chegou aos pés da gripe espanhola. Foi uma gripe para inglês ver – ou para dar matéria para pauteiros pouco criativos. E nossa crise econômica mundial (também nascida nos EUA) dá sinais de que pode acabar antes do fim do ano.
O mundo ficou mais estável? O caos não é mais o que era antigamente?
Bom, é melhor não tripudiar, porque as causas da crise ainda estão aí e o fantasma dos anos 20 ainda dá medo.

Relogio asteca, Cidade do México, Museu de Antropologia, 2009.
Dinheiro demais?
Agosto 23, 2009
É sempre estranho ver bilionáiros reclamarem de qualquer forma de excesso de dinheiro. Mas, esta semana, Warren Buffett, um dos investidores mais conhecidos do mundo, fez exatamente isso, em um artigo no New York Times.
O argumento de Buffett é, na verdade, uma conta: o déficit do governo dos EUA este ano deve ser de US$ 1,8 trilhão, ou 13% do PIB. Para cobrir o buraco, o governo americano pode pegar emprestimos com estrangeiros, pegar empréstimos com os próprios americanos ou imprimir dinheiro.
O déficit na conta corrente (conta externa) dos EUA deve ficar em torno de US$ 400 bi. Isso é igual ao que entra de dinheiro do exterior para financiar a diferença entre importações, exportações e de fluxos de renda no ano entre os EUA e o resto do mundo. Buffet supõe – para simplificar a conta – que todo esse dinheiro vá financiar o governo (os estrangeiros comprem US$ 400 em títulos do governo americano).
A segunda hipótese de Buffett é que as famílias americanas economizem US$ 500 bi este ano e apliquem todo esse dinheiro em títulos do governo. Somando tudo, dá US$ 900 bi, quer dizer, ainda faltam outros US$ 900 para fechar a conta. É essa parte que o governo vai ter que imprimir.
Ficar no vermelho um ano não é o fim do mundo mas, se o governo americano não cortar despesas (ou aumentar impostos) no próximo ano, vai ter que se financiar imprimindo dólares de novo.
Este ano, com os bancos cortando os empréstimos e as famílias segurando o consumo, o efeito de imprimir dinheiro não é tão assustador, não é inflação alta. Mas, em algum momento, os bancos vão voltar a emprestar e as famílias vão se sentir mais confiantes para fazer compras. Quando isso acontecer, o governo de lá não pode estar com as mãos amarradas, tem que ser capaz se recolher os dólares a mais que imprimiu.
Para recolher dólares, o que o governo faz é vender títulos públicos. Mas, para ele vender, alguém tem que comprar (o resto do mundo ou os poupadores americanos). Se não houver demanda por títulos, os instrumentos do governo para segurar a inflação ficarão bastante limitados.
O resumo da história é que há alguma chance de a inflação subir nos EUA nos próximos anos. E isso, ao lado do déficit externo deles, tende a desvalorizar o dólar em relação às outras moedas.
Para quem tem dólares no colchão, a recomendação é vender. Para quem faz compras na Amazon, é aproveitar o passeio, porque os preços em reais vão ficar ainda menores.

Nota extra impressa pelo governo dos EUA para pagar suas contas
Porca miséria!
Agosto 5, 2009
Mortos por gripe comum em 2008 no Brasil: 70.142.
Mortos por gripe suína em 2009 no Brasil (até 4 de agosto): 124.
Homeland Security
Junho 15, 2009
As companhias aéreas brasileiras bem poderiam vender bilhetes sem identificação do passageiro. Domingo, no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro, embarquei num vôo da Gol e, do saguão à aeronave, não me identifiquei uma única vez. Livre de bagagem para despachar, fiz o check-in no auto-atendimento, entrei na área de embarque e subi no avião exibindo nada além do papelzinho cuspido pela máquina. Tudo bem que o Brasil seja o país da paz e do amor, portanto imune ao terrorismo e que tais, mas para que, então, pedir nome e documento do passageiro?
Detalhe: a mocinha posicionada ao lado dos totens de auto-atendimento ainda fez a gentileza de carimbar um “DOCUMENTO CONFERIDO” no meu cartão de embarque. Depois do check-in pelo celular, a Gol inova com a conferência de documentos por raios x.
Metade da história
Maio 5, 2009
Quando uma história pode ser vista de vários pontos de vista, mostrar um só é, no mínimo, tendencioso. Mas foi isso que fez Paul Krugman, Nobel de economia deste ano, em sua coluna no New York Times.
Kruman resolveu alertar para os perigos da queda de salários nos EUA. Listou a redução de salários no próprio Times e na Chrysler e comentou o que pode acontecer se houver uma queda generalizada de salários nos EUA.
O primeiro problema é que não vai haver uma queda generalizada de salários nos EUA. Reduzir salários nominais é bem complicado, exige negociação com empregados em uma quantidade gigantesca de empresas. O que provavelmente acontecerá será uma mudança no valor relativo dos salários. Setores como o de medicamentos – que comemoram a gripe suina – dificilmente vão engolir uma redução de salários.
A redução então permite que os salários relativos se ajustem. Alguns setores, com a crise, vão ficar relativamente melhor do que outros. Os salários devem refletir isso para atrair pessoas dos setores que estão pior para os que estão melhor.
Isso pode acontecer com a queda de salários em alguns setores da economia ou com inflação e aumentos de salário só nos outros setores. A alternativa sem inflação parece menos dolorosa.
O segundo problema no texto de Krugman é que ele prevê um cenário de estagnação e deflação reforçado por uma queda de salários. Ele lembra o caso do Japão, onde os salários cairam durante a crise. Bom, faltou lembrar a Argentina do começo da década. Quando os argentinos travaram o valor do peso (1 peso = 1 dolar) os economistas concordaram que o único jeito de eles voltarem a ter competitividade internacional e corrigirem seu déficit no comércio externo era reduzir os salários.
Eles não fizeram isso. Preferiram desvalorizar a moeda e dar um calote na dívida (que estava quase toda em dólares).
Para os americanos também, reduzir os salários vai ajudar a reequilibrar as contas externas, vai fazer os produtos nacionais ficarem mais baratos no exterior e vai diminuir as importações – já que renda do trabalho vai cair. A alternativa, como no caso argentino, é desvalorizar mais o dólar.
Por fim, Krugman parece muito preocupado com uma possível deflação nos EUA. Mas com taxa de juros a zero e o governo gastando trilhões em pacotes de socorro e estímulo econômico, não dá para dizer com essa convição toda que os preços dos bens de consumo vão despencar. Há até o risco de que haja inflação alta daqui a dois ou três anos.
Mas Krugman, ao lado de Kenneth Rogoff, Gregory Mankiw e outros acadêmicos ilustres, parece não dar muita bola para o nosso velho dragão.

Camile Claudel após a redução de salário - Museu Rodin
O canto do cisne
Abril 24, 2009
A crise americana é uma mistura de bolha, desequilíbrio macroeconômico e lambança financeira.
A bolha – que todo mundo sabia que estava para estourar – era a dos preços dos imóveis. O desequilíbrio, também conhecido, já tinha apelido há anos. Os jornais o chamavam de “déficits gêmeos”. Era a junção do déficit nas contas do governo americano com o déficit nas contas externas dos EUA.
Os déficits gêmeos indicavam que as coisas não podiam ficar como estavam por muito tempo. E, quanto mais demorasse para começar o ajuste, mais forte ele teria que ser.
A surpresa da crise foi a lambança financeira, a quebradeira dos bancos. Até o ex-presidente do FED Alan Greenspan confessou que estava surpreso com a situação dos bancos (que ele deveria ter fiscalizado).
O que aconteceu com os bancos americanos só pode ser explicado por uma mistura de conspiração, risco moral e arrogância.
A conspiração apareceu nos últimos meses antes da crise, quando os bancos já sabiam que estavam quebrados mas ficavam quietos, se fingindo de vivos. O então presidente do Citibank se descuidou em uma entrevista e disse “we are still dancing”, quando lhe perguntaram como estava a saúde financeira do banco.
O risco moral (moral hazard) explica boa parte do caos bancário. Presidentes e diretores dos grandes bancos americanos ficaram milionários enquanto seus bancos navegavam para o abismo. Eles tomaram decisões que aumentavam o lucro no curto prazo (garantindo seus bônus de fim de ano) e aumentavam os riscos para o longo prazo (quando talvez já nem trabalhassem mais no banco).
A terceira parte da lambança bancária também é interessante. Além de temerários em algumas decisões, analistas de risco de grandes bancos americanos foram incrivelmente arrogantes. Eles confiaram absurdamente na própria capacidade de estimar riscos e se expuseram a esses riscos sem provisões de recursos para o caso de alguma coisa sair errada. Tiveram tanta confiança em seus modelinhos que não se preocuparam em fazer qualquer tipo de seguro ou aplicação na outra ponta para o caso de o cenário mudar.
Uma boa análise do lado financeiro da crise está neste link para um debate com Daniel Kahneman (psicólogo que ganhou o Nobel de economia) e Nassim Taleb, autor do livro The black swan – the impact of the highly improbable.
Os primeiros oito minutos do vídeo são só apresentação dos debatedores e do ciclo de palestras. A parte boa começa em 8min00.

Pato/Cisne negro da crise
Serviço público (ou Estudando o estudo)
Março 31, 2009
Por razões mais ou menos óbvias, não houve muito destaque nos meios de comunicação, mas o fato é que o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea) divulgou esta semana um interessante estudo (PDF) sobre o serviço público nacional. A conclusão, não exatamente inédita, é enfática: “não está havendo, nos últimos anos, um ‘inchaço’ do Estado” no Brasil. A base para tal afirmação é um levantamento indicando que, por aqui, o emprego público responde por apenas 10,7% do total de ocupados, o que representaria pouco diante dos índices registrados na Dinamarca (39,2%), na França (24,9%) e até nos Estados Unidos (14,8%), “caracterizados por seu caráter privatista”. Entre os primos pobres da América Latina, o Brasil também sai bem na foto, atrás de Panamá, Costa Rica, Uruguai, Argentina, Paraguai e República Dominicana.
Tudo, ou só, isso leva o Ipea a vaticinar que “há espaço para o crescimento do estoque e da participação relativa do emprego público no Brasil”. Na verdade, segundo o instituto, existe “a necessidade de ampliação do emprego público” para o “fortalecimento da democracia”. Ou seja, o Brasil tem poucos servidores e precisa de mais, muito mais.
Precisa? Talvez sim, talvez não.
De uma ou de outra forma, seria uma boa idéia tentar desenhar outros quadros, mais complexos é verdade, porém certamente dentro das possibilidades investigativas do Ipea:
Qual é a relação entre as remunerações médias no serviço público e na iniciativa privada nos diferentes países?
Como se compara a qualidade do serviço público nos diferentes países?
Dos “poucos” servidores públicos no Brasil quantos de fato trabalham?
Massacrar o serviço público, indiscriminadamente, é um absurdo. Exatamente como absolvê-lo com base em dados superficiais.
Equivalência, ou o fantasma de Ricardo
Março 21, 2009
Imagine que o governo americano anunciasse hoje que, daqui a cinco anos, vai aumentar – bastante – os impostos. O que os consumidores gringos fariam?
O que quer que seja, é bom eles já irem começando a fazer. A estimativa do Escritório de Orçamento do Congresso americano para o déficit público de lá subiu para US$ 1,85 trilhão. Isso quer dizer que a dívida do governo deve subir US$ 1,85 tri este ano e, algum dia, a arrecadação vai ter que aumentar para o governo re-equilibrar as contas (e pagar parte da dívida).
O aumento de impostos pode não acontecer daqui a cinco anos, nem daqui a dez. Mas, para as famílias preocupadas com o futuro de seus filhos e netos, um déficit público gigante é um estímulo para poupar.
O fantasma de David Ricardo não assombra os governos apenas quando criam barreiras alfandegárias (que empobrecem os países, segundo o princípio das vantagens comparativas de Ricardo). Quando aumentam absurdamente suas dívidas, os governos também batem de frente com o economista inglês.
Mas, diferente da teoria das vantagens comparativas, a equivalência ricardiana - a idéia de que as famílias podem poupar para enfrentar um aumento futuro de impostos – nunca foi comprovada na prática.
Se não servir para mais nada, essa crise vai, pelo menos, aumentar a quantidade de números nos bancos de dados – e talvez, algum dia, ajudar a provar a tese de Ricardo.
O mundo é complicado e as famílias estão gastando menos por vários motivos. O aumento do gasto público estimula a demanda mas, quando aumenta o déficit público, pode gerar um efeito contrário também (não se sabe de que tamanho).
O resumo da história é que os efeitos da política do governo americano para combater a crise são menos previsíveis do que parecem. E, sim, aumentar a dívida pública pode desestimular – ainda mais – o consumo das famílias nos próximos anos.

Consumidores em época de crise - Museu Rodin - 2008
Dr. Pangloss e o alphabeto econômico
Março 17, 2009
Bons economistas têm traçado o futuro da crise americana a partir de três cenários simplificados: a crise em V, a crise em U e – o mais assustador – a crise em L. A crise em V é aquela em que a economia cai rápido e se recupera rápido. O exemplo mais citado é a crise das pontocom, no começo de 2000.
A crise de 2000 foi relativamente pequena, com queda rápida nos preços das ações de empresas de internet e retorno rápido ao crescimento. Nesse caso, a crise foi só um ajuste de preços (das ações). E, quanto mais rápido os preços chegassem ao fundo do poço, mais cedo as ações encontrariam compradores, mais rápido mercado voltaria a funcionar e mais rápido também a crise passaria.
Mas a crise atual não vai ser em V. Já não é em V. O problema é que o ajuste de agora foi muito mais forte. Para ter uma boa idéia do que aconteceu, é preciso rever a velha diferença entre renda e riqueza. Renda é o que você ganha por trabalhar, por alugar um imóvel ou por ser sócio de uma empresa. A soma das rendas geradas no país é o PIB. Riqueza é o que foi acumulado pelos habitantes do país e por seus ancestrais, é a poupança acumulada (descontado seu desgaste natural ao logo do tempo) são os prédios, as estradas, as empresas e até as jóias no cofre.
O que aconteceu nos EUA foi uma queda brusca da riqueza. Como a riqueza é muito maior que a renda gerada em um ano (o PIB), quando ela despenca, as pessoas percebem que vão demorar muitos anos para repor o que achavam que tinham.
Derepende, os americanos, endividados até o pescoço, descobriram que seus apartamentos valiam bem menos do que eles pensavam, que suas ações também estavam com preço inflado e eles mesmos vão demorar mais para poder se aposentar.
Então voltaram a economizar. E vão ficar assim, consumindo menos, por muito tempo.
Essa crise não vai ser em V porque o problema não é só o de ajustar os preços das ações ou das casas. O problema é reorganizar a economia inteira já que, com a queda do consumo, cai a produção (de casas, de carros e de tudo que se comprava confiando na riqueza estocada).
Boa parte do povo que produzia carros e casas vai ter que arrumar outro emprego vai ter aprender outra profissão e encontrar um serviço para oferecer no meio da crise. Talvez surjam mais professores e médicos, mas isso não vai ser rápido. A coisa tem mais cara de L que de U.
O governo gringo faz o que pode, estimula o consumo para fazer com que o impacto da crise venha mais de vagar, para que as pessoas tenham mais tempo para se ajustar ao novo cenário – com menos consumo de casas, carros e afins. Mas ele não pode fazer mais do que isso, não tem como – nem deveria – evitar que o consumo caia.
Os americanos estavam contando com uma riqueza que não tinham, agora vão ter que voltar ao mundo real.
Aqui, onde a gente já não tinha muita coisa mesmo, uma versão amantegada do Dr. Pangloss anda dizendo que a crise não vai ser ruim, que vamos até crescer um pouco este ano. O argumento do governo é que parte da queda do consumo aqui tem mais a ver com expectativa que com queda da renda.
E, por enquanto, tem mesmo. A renda das famílias não caiu no fim do ano passado, mas o consumo caiu 2% comparado ao do terceiro trimestre (dessazonalizado).
Mas não adianta ser otimista demais. As exportações já despencaram, o crédito ficou mais difícil e o desemprego já está aí. Quer dizer: estamos importando a crise.
Vi hoje um gráfico assustador com a série histórica do PIB mundial e a do Brasil. Historicamente, o PIB brasileiro acompanha os movimentos de alta e baixa do resto do mundo – com uma defasagenzinha de uns três meses. Como a abertura econômica cresceu nos últimos anos, devemos acompanhar o ritmo externo ainda mais de perto.
O que vem por aí não é o melhor dos mundos possíveis…

Contemplação da crise - México - Museu de Antropologia
Chaves & Xuxa – Intercâmbio cultural
Fevereiro 8, 2009
México e Brasil exportam cultura para a toda a América Latina – e se orgulham disso. Em uma mesa cheia de mexicanos – e falando um portunhol sofrível – demorei a entender a pergunta de um de meus interlocutores:
- Vocês ainda vêem el Chavo Del Ocho?
- Quem?
- El Chavo Del Ocho!
Depois de um pouco de mímica e de referências ao Chapolim Colorado, entendi que o Chavo era o nosso Chaves, e respondi que sim, que o programa está no ar até hoje, que passa todas as tardes.
- E como vocês o chamam?
- Chaves.
Essa provavelmente foi a parte que mais gostaram. Pois, fora do Brasil, Chaves é aquele da Venezuela, não o Chavo da TV.
A contrapartida mexicana na história – que também ficaram felizes em me contar - é que boa parte deles cresceu vendo o emocionante Xou da Xuxa, que exportamos para o México.
Eu, um pouco sem graça, admiti que o programa tinha sido muito popular aqui.
- No México, todas as meninas queriam ter roupas como as da Xuxa – contou uma de minhas interlocutoras (que, certamente, tinha sido uma das fãs mexicanas).
Prometi a mim mesmo nunca mais implicar com o colorido espalhafatoso típico de algumas partes do México. Afinal, nós vendíamos Xuxa para eles.
Parece pouco, mas era um programa estranho em que – todos os dias – uma mulher saía de um disco voador para ficar pulando ao lado de um mosquito gigante (mosquito da dengue gigante) e de uma suposta “praga” – para ficar gritando “Bom Dia!!!” e frases quase sem sentido. Talvez como obra surrealista faça algum sentido.
A certeza que eu tiro disso tudo, desse sucesso internacional de Chaves & Xuxa , é que não, eu nunca poderia ser diretor de programação de TV.

Escultura asteca sorridente - Museu de Antropologia - México
Os deuses devem estar loucos
Janeiro 21, 2009
A Veja é a revista que sempre mete o pau no Governo e no PT, enquanto a CartaCapital é aquela que sempre os defende, muitas vezes ao arrepio dos fatos. Certo? O que dizer, então, do caso do italiano Cesare Battisti, tema de destaque nas edições desta semana de ambas as publicações?
Para a Veja, apesar dos muitos poréns, “Tarso [Genro, ministro da Justiça] pode estar certo” (Carta ao Leitor) e “pode ter tido boas razões” (matéria “Obrigado, Tarso Genro). A CartaCapital, por sua vez, vê “Afrontado o Estado italiano” (A Semana), tese defendida em mais detalhes na matéria “Cesare: veni, vidi, vici“.
A cobertura do caso pode ser uma prova da imparcialidade das duas revistas. Ou, o mais provável, de outra coisa qualquer.
Cão-peixe
Janeiro 16, 2009
Devo ser uma das poucas pessoas que assiste comerciais por gosto. E, às vezes, vendo uma coisa realmente original, me pergunto: “De onde é que eles tiraram isso?”
A última vez em que me fiz essa pergunta foi vendo uma propaganda de carro em que um surfista tem um cão-peixe – que o acompanha a todos os lugares.
De onde foi que tiraram isso?
Daqui:



Para quem gosta de referências bibliográficas: Garfield e seus amigos, Editora L&PM, 2007.
O outro lado da ideia
Janeiro 6, 2009
Incapaz de parir algo mais original, ou menos cretino, do que a média do publicado pela imprensa nativa, resolvi dar uma olhada nos jornais lusos. Lá, não como cá, nem tudo são flores. O texto, com data de 1º de janeiro, é do Diário de Notícias. Os destaques são do blogue.
Acordo ortográfico entra em vigor no Brasil
ISABEL PEIXOTO *
O Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa entra esta quinta-feira em vigor no Brasil, com um prazo de adequação até 2012, mas pode falhar na prática. O alerta é dado pelo presidente do Instituto Internacional da Língua Portuguesa.
Assinado em 1990, o acordo pode falhar caso não seja elaborado um vocabulário ortográfico comum entre Portugal e o Brasil, que é o primeiro signatário a adoptar oficialmente as novas regras. Em Portugal, ainda não há uma data para a aplicação, sabendo-se apenas que o período de transição será de seis anos. Godofredo de Oliveira Neto, que preside ao Instituto Internacional da Língua Portuguesa (IILP), afirmou que, se a convenção internacional não for adoptada igualmente por todos os países, “o acordo fica desacordado”.
“A construção de um vocabulário ortográfico comum é um dos artigos mais importantes exposto no acordo. Se não tiver regras, não tem acordo“, disse o escritor, ao frisar que os linguistas portugueses e brasileiros têm de estar em sintonia “sobre a interpretação deste acordo ortográfico”. No seu entender, “o que falta é uma união dos especialistas e não dos políticos, e isso pode prejudicar a implantação do acordo na sua plenitude”.
Para o presidente do IILP, organismo ligado à Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), é indispensável o entendimento entre a Academia Brasileira de Letras (ABL) e a Academia das Ciências de Lisboa, instituições responsáveis pela elaboração do vocabulário ortográfico para servir como referência para os dicionários. “O acordo deixou algumas coisas em branco como, por exemplo, o uso de hífen, que dá margem a interpretações diversas”, exemplificou, referindo que a ABL defende que o hífen seja abolido e que a Academia das Ciências de Lisboa discorda.
Oliveira Neto adianta que a união ortográfica faz parte do projecto de consolidação do Português como língua internacional e a falta de consenso entre os linguistas dificulta esta integração. “A união da ortografia contribuirá para facilitar a circulação de obras nos países lusófonos, além do uso comum da língua na Internet e no audiovisual, que também saem fortalecidos”, sublinhou ainda.
No âmbito da CPLP, será organizada no primeiro semestre deste ano uma reunião com especialistas da ABL e da Academia das Ciências de Lisboa, juntamente com os representantes dos ministérios da Educação dos países da CPLP.
O acordo não podia entrar em vigor sem ser ratificado por, pelo menos, três parlamentos de países de língua portuguesa. Portugal, Brasil, São Tomé e Príncipe e Cabo Verde já o fizeram, faltando Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste. Numa recente reunião da CPLP, o ministro português da Cultura, Pinto Ribeiro, disse estar “firmemente convencido” de que a entrada em vigor do acordo vai ocorrer ainda durante a presidência portuguesa da organização lusófona, que termina em meados de 2010.